366,6 milhões de toneladas: O Brasil está preparado para o próximo recorde?

Produzir mais é apenas o começo. O verdadeiro desafio será armazenar, transportar, financiar e transformar essa produção em margem.
Publicado em 17/09/2026 14:32

Um novo recorde e uma pergunta maior

A nova projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) coloca a produção brasileira de grãos da safra 2026/27 em 366,6 milhões de toneladas. É um novo recorde, 1,4% acima da estimativa para 2025/26.

Mas há um detalhe que merece mais atenção do que o próprio recorde: a expansão deverá vir principalmente da área. A Conab projeta 85,3 milhões de hectares semeados, enquanto a produtividade média nacional recua de 4.335 para 4.296 quilos por hectare.

Esse movimento muda a pergunta. O Brasil já mostrou que sabe produzir mais. A questão agora é se consegue fazer todo o restante da cadeia crescer no mesmo ritmo.

Uma safra recorde não termina na colheitadeira. Depois dela vêm armazenagem, transporte, crédito, comercialização, portos, energia e mercado internacional. É nessa segunda metade da cadeia que uma parte importante do resultado econômico será decidida.

Soja: escala, mercado externo e logística

A soja continua no centro da agricultura brasileira. Para 2026/27, a Conab projeta 181,64 milhões de toneladas, com área de 49,3 milhões de hectares, expansão de apenas 1,4%, a menor taxa de crescimento da área em duas décadas, segundo a companhia.

A produção de soja está cada vez mais ligada à capacidade brasileira de exportar com eficiência. Até julho de 2026, o país havia exportado 82,9 milhões de toneladas, alta de 7,8% sobre o mesmo período anterior. O Arco Norte respondeu por 39,03% dos embarques de soja, enquanto Santos concentrou 35,74%.

Esses números mostram a transformação dos corredores de exportação. O crescimento agrícola está deslocando parte relevante do fluxo para novas rotas, mas também aumenta a necessidade de investimentos permanentes em terminais, ferrovias, rodovias e portos.

Milho: o tamanho da safrinha aumenta também o tamanho do risco

O milho é talvez a cultura que melhor traduz a combinação entre oportunidade e vulnerabilidade. A Conab projeta 148 milhões de toneladas em 2026/27, alta de 2,8%. A segunda safra, sozinha, pode alcançar 113,2 milhões de toneladas, enquanto a primeira safra chega a 32,1 milhões.

A demanda doméstica também está mudando. O crescimento da produção de rações e, principalmente, do etanol de milho amplia o consumo interno. Ao mesmo tempo, a Conab estima exportações de até 46 milhões de toneladas.

Mas a safrinha depende de uma janela estreita de plantio e de uma cadeia de insumos funcionando no momento certo. E aqui a geopolítica entrou definitivamente na planilha do produtor.

A CNA informa que, entre janeiro e abril de 2026, as importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados e fosfatados caíram 4% em volume, enquanto o valor desembolsado aumentou 16%. A entidade também aponta que 93% dos fertilizantes utilizados no Brasil foram importados em 2025.

O problema, portanto, não é afirmar que haverá falta de fertilizante. O problema é a combinação entre dependência externa, preço, frete, seguro, câmbio e risco de atraso.

No caso do milho, isso pode ser particularmente relevante para a safrinha. Um insumo que chega tarde pode não representar apenas custo maior: pode representar perda de janela, produtividade e margem.

Quando uma guerra distante chega à lavoura

O conflito no Oriente Médio tornou mais evidente uma característica estrutural do agronegócio brasileiro: a lavoura está integrada a cadeias globais que o produtor não controla.

A CNA relaciona as tensões na região ao aumento do custo dos fertilizantes e à deterioração da relação de troca. Em estudo divulgado em março, o Imea estimou que uma alta de 30% nos fertilizantes nitrogenados poderia elevar em 4,68% o custo operacional efetivo do milho de alta tecnologia em Mato Grosso, equivalente a 5,9 sacas por hectare.

Não é preciso que uma guerra aconteça no Brasil para afetar o produtor brasileiro. Basta que ela altere gás natural, petróleo, fretes marítimos, seguros ou rotas de navegação.

Essa é uma mudança importante na gestão agrícola: risco geopolítico deixou de ser assunto distante. Ele passou a fazer parte do custo de produção.

Algodão, arroz e feijão: o recorde não é uniforme

O algodão deve chegar a aproximadamente 4,2 milhões de toneladas de pluma. A demanda externa continua sendo um dos principais suportes para a cultura, enquanto câmbio, consumo mundial e clima influenciarão preços e rentabilidade.

No arroz, o movimento é diferente. A Conab projeta 10,76 milhões de toneladas, queda de 2,9%. A companhia explica que o excedente formado anteriormente pressionou as cotações e reduziu o retorno econômico, influenciando a decisão de plantio.

O feijão deve permanecer próximo de 2,9 milhões de toneladas, com leve aumento de área compensado por menor produtividade esperada, em parte pelo risco climático associado ao El Niño.

Esses casos lembram que não existe uma única agricultura brasileira. Há diferentes culturas, margens, ciclos, riscos e respostas aos preços. O número agregado é extraordinário, mas não conta sozinho a história econômica do campo.

O gargalo depois da porteira

É aqui que o recorde de produção encontra uma realidade menos confortável.

Segundo o Anuário Agrologístico 2026 da Conab, a capacidade estática de armazenagem a granel projetada para 2026 é de 202,3 milhões de toneladas, enquanto a produção estimada da primeira safra chega a 218,2 milhões. O déficit nominal é de 15,9 milhões de toneladas.

Não se trata de comparar diretamente toda a produção anual com a capacidade de armazenagem, porque a capacidade é utilizada em ciclos e a produção entra e sai dos armazéns. Ainda assim, o dado revela uma pressão estrutural: em determinado momento da safra, a capacidade disponível não acompanha o volume que precisa ser absorvido.

E quando falta armazenagem, o produtor perde uma das ferramentas mais importantes da comercialização: tempo.

Sem silo, vender pode deixar de ser uma decisão de mercado e passar a ser uma necessidade logística.

O mesmo raciocínio vale para o transporte. Em julho de 2026, a Conab registrou que o frete rodoviário em diversas rotas ainda estava em patamar elevado, apesar de recuos mensais em parte dos corredores. No Paraná, por exemplo, a rota Campo Mourão–Paranaguá teve alta próxima de 40% no mês, influenciada pelo fluxo do milho segunda safra e pelas exportações de soja.

Produzir mais significa movimentar mais. E movimentar mais exige infraestrutura proporcional.

Ferrovias e portos: não basta chegar ao porto, é preciso chegar de forma competitiva

A expansão ferroviária pode desempenhar papel decisivo nesse processo. Grandes volumes percorrendo longas distâncias não podem depender exclusivamente das rodovias.

A questão não é substituir o caminhão pelo trem. É integrar os modais. Caminhão, ferrovia, hidrovia, terminal e porto precisam funcionar como uma cadeia.

Os números de exportação mostram por quê. De janeiro a julho de 2026, o Arco Norte respondeu por 46,12% dos embarques brasileiros de milho. Santos ficou com 22,27%. Na soja, o Arco Norte respondeu por 39,03% e Santos por 35,74%.

O país está construindo novos corredores de exportação, mas o crescimento da produção exige que essa infraestrutura avance de forma coordenada. Um terminal moderno conectado a uma ferrovia insuficiente continua sendo um gargalo. Uma ferrovia eficiente que termina em um porto congestionado também.

Infraestrutura agrícola não é apenas obra pública ou investimento privado. É parte da formação do preço e da margem.

O verdadeiro desafio é transformar produção em resultado

O Brasil tem uma vantagem evidente: capacidade produtiva. Mas capacidade produtiva, sozinha, não garante rentabilidade.

Entre a semente e o resultado financeiro existe uma cadeia inteira: fertilizante, defensivo, combustível, máquina, mão de obra, crédito, armazenagem, frete, seguro, câmbio, comercialização e mercado externo.

É por isso que o recorde de 366,6 milhões de toneladas deve ser comemorado com responsabilidade, mas também analisado com uma visão mais ampla.

O país precisa produzir mais, mas precisa também armazenar mais. Precisa exportar mais, mas com menor custo. Precisa importar fertilizantes, mas reduzir vulnerabilidades. Precisa ampliar ferrovias, mas conectá-las aos terminais e portos. Precisa aumentar a produtividade, mas proteger a margem.

O próximo salto do agronegócio brasileiro não está apenas dentro da porteira. Está na integração de tudo o que acontece antes e depois dela.

O verdadeiro teste da safra 2026/27 não será somente colher 366,6 milhões de toneladas. Será provar que o Brasil consegue transformar esse volume em valor. Produzir recordes é uma demonstração de capacidade, armazenar, transportar, financiar, comercializar e exportar com eficiência é o que transforma uma grande safra em desenvolvimento.

O Brasil já aprendeu a produzir. Agora precisa aprender a não perder valor depois que produz.

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