Soja: Oferta escassa confere preços históricos nos mercados interno e internacional
Publicado em 04/07/2012 15:27
A escassa oferta mundial de soja está no foco do mercado agrícola nesse momento. Na safra 2011/12, a América do Sul amargou uma séria quebra com uma baixa de mais de 10 milhões de toneladas na produção tanto do Brasil quanto da Argentina. Agora, o problema se repete com a safra nova - 2012/13 - dos Estados Unidos. Diante desse cenário de oferta ajustada, os preços já mostram seu reflexo e batem recordes, principalmente no mercado interno brasileiro, onde as cotações superam os R$ 70 por saca nos portos de Paranaguá e Rio Grande. Estes são preços históricos.
As lavouras sulamericanas foram severamente castigadas pelos efeitos do La Niña, com uma prolongada estiagem que dizimou a produção em importantes estados produtores brasileiros da região Sul do Brasil - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - além das principais províncias argentinas. Enquanto se esperava uma produção de mais de 75 milhões de toneladas no Brasil e mais de 55 milhões na Argentina, a colheita foi de pouco mais de 60 milhões e 40 milhões de toneladas, respectivamente.
Agora, o problema de quebra na produção acontece nos Estados Unidos. A safra norte-americana, que já era estimada como insuficiente depois que a demanda drenou os estoques dos EUA por conta da seca na América do Sul, também são prejudicadas pelo calor intenso e pela falta de chuvas em um estágio de desenvolvimento onde a água é fundamental. Analistas já afirmam que mais dias quentes e secos vêm por aí.
Acompanhando, portanto, essa falta de soja no mercado, os preços vêm registrando uma escalada tanto nos negócios internacionais como no mercado doméstico. O Brasil já chegou até mesmo a realizar algumas importações da oleaginosa para tentar conter o avanço dos valores e para garantir, no caso das indústrias, parte de seus estoques.
Na Bolsa de Chicago, as cotações registram seguidas sessões com ganhos muito significativos e os preços, nos vencimentos mais próximos, já superam os US$ 15 por bushel, a caminho dos US$ 16, como projeta o operador de mercado Liones Severo. Nesta terça-feira (3), a soja encerrou os negócios com altas de mais de 30 pontos na Bolsa de Chicago. Só neste ano, a oleaginosa já subiu mais de 21%.
"Enquanto a quebra foi na América do Sul, o mercado de Chicago se arrastava. Agora que a seca é nos Estados Unidos, os preços têm que subir imediatamente para inibir os consumidores internacionais a comprar soja nos Estados Unidos. Isso é para proteger o mercado interno deles. Agora, a função do preço em Chicago vai ser racionar a procura de soja e milho nos EUA", explica Severo.
Aqui no Brasil, essa situação de racionamento também existe e os produtores estão segurando os volumes de soja que ainda têm diante de um cenário tão promissor para os preços. Os valores são os maiores de todos os tempos e são resultado dos bons patamares registrados na Bolsa de Chicago, aliados aos prêmios elevados à alta do dólar registrada nas últimas semanas.
Tantas projeções positivas já estimulam também as negociações antecipadas para safra 2012/13, que, segundo a agência Safras e Mercado, já ultrapassa os 33%. Porém, Severo afirma que esse índice pode ser um pouco maior. "Eu penso que com esses preços o Brasil vai avançar muito mais, vai chegar a 60 / 70% da safra, o que é extremamente recomendável. Se é possível garantir o lucro antecipadamente, essa é a melhor condição que se pode ter no mercado". Para um intervalo de abril a junho do ano que vem, a saca de soja no porto já vale R$ 61.
As cooperativas de soja em estados como Paraná e Rio Grande do Sul confirmam esse cenário e já exibem boa parte de suas safras comercializadas. Há vários meses, representantes da Cocamar, de Maringá/PR, já tem feitos negócios de comercialização com a soja da próxima temporada, condição contrário a de anos anteriores.
"Nós já estamos com uma boa quantidade de soja da próxima safra comercializada. Esse ano, realmente, a partir dos R$ 50 para o produtor, nós desencadeamos uma comercialização muito intensa, inclusive da safra anterior, que já está praticamente toda comercializada", disse Luiz Lourenço, presidente da Cocamar.
Lourenço afirma ainda que esses preços da soja para junho do ano que vem, de R$ 61 por saca, são excelentes para os produtores. No entanto, exige cautela diante de tanta euforia no mercado. "Já tivemos momentos assim, mas passaram", completa. O mesmo foi dito por Luis Cláudio Gomes, analista comercial de grãos da Cotrijal, cooperativa de Não-Me-Toque/RS, afirmando que cerca de 80% da safra já está vendida.
Feriado nos Estados Unidos - Com o feriado do Dia da Independência nos Estados Unidos nesta quarta-feira, 4 de julho, as cooperativas perdem a referência de Chicago para comercializar, uma vez que as bolsas norte-americanas não operam.
Os operadores baseiam-se, portanto, nos preços do fechamento do dia anterior e, como explicou Gomes, e as movimentações de venda não são muito expressivas, o que faz com que o "risco de utilizar os preços do dia anterior não sejam tão grandes".
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