Em meio à batalha contra inflação de alimentos, Brasil espera algum alívio da crise aviária
![]()
Por Marcela Ayres
BRASÍLIA (Reuters) - Restrições à exportação de aves impostas após o anúncio de surto de gripe aviária no Brasil podem contribuir para a redução dos preços da carne de frango, oferecendo algum alívio -- ainda que de curta duração -- à inflação persistente de alimentos que tem afetado a popularidade do governo, dizem analistas.
O Brasil, maior exportador mundial de aves, vende cerca de um terço de sua carne de frango nos mercados internacionais, informou a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O Rio Grande do Sul, onde o primeiro caso da doença em granja comercial foi identificado, foi responsável por cerca de 12% dos frangos abatidos no Brasil no ano passado, segundo dados do Ministério da Agricultura.
A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) incentivou na quarta-feira o uso do zoneamento, método que concentra o controle de doenças nas regiões afetadas em vez de no país inteiro, para conter a disseminação da doença no Brasil e, ao mesmo tempo, manter o comércio.
Mas com dezenas de países suspendendo as importações de todo o frango brasileiro ou das criações do Rio Grande do Sul, exportadores estão se esforçando para redirecionar a produção.
Grandes produtores de aves, como a BRF SA e a JBS SA, provavelmente enfrentarão problemas de excesso de oferta no curto prazo que podem pressionar para baixo os preços domésticos, disseram analistas da corretora XP a clientes, dependendo da duração das restrições à exportação.
Parte das exportações brasileiras encontrará novos compradores estrangeiros, mas o mercado interno provavelmente absorverá mais oferta, disse José Carlos Hausknecht, sócio da consultoria MB Agro.
"Seria efeito pequeno e de curto prazo", disse ele. "Mas depois volta à normalidade."
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, que inicialmente destacou a perspectiva de preços internos mais baixos com a entrada em vigor das proibições comerciais, desde então já relativizou a relevância desse impacto nos preços.
A inflação dos alimentos tem assombrado o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prejudicando suas chances de reeleição no próximo ano, com os preços ao consumidor medidos pelo IPCA subindo 5,5% nos 12 meses até abril.
Os preços dos alimentos, componente mais pesado da cesta de inflação, subiram 7,8% no período, com os preços de aves e ovos subindo 12,3%, segundo o IBGE.
André Braz, coordenador de índices de preços do FGV Ibre, afirmou que ainda é cedo para prever um impacto positivo na inflação, observando que as empresas avícolas também provavelmente reduzirão a produção se os preços internos caírem abaixo dos custos de produção.
Qualquer eventual impacto desinflacionário provavelmente será marginal, disse Adenauer Rockenmeyer, economista e coordenador do Fórum do Agronegócio do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP).
"E se não for contido esse foco e ele se alastrar para as demais granjas, vai ter abate enorme desses animais, afetando a oferta não só de frango como de ovos", alertou, ressaltando que tal cenário pressionaria a inflação para cima.
(Reportagem de Marcela Ayres, com reportagem adicional de Roberto Samora e Ana Mano, em São Paulo, e Sybille de La Hamaide, em Paris)
0 comentário
Na mira da União Europeia, falta de gestão sobre as emissões de carbono pode limitar exportações brasileiras
Cadeia produtiva do feijão vive uma das maiores transformações da história
Membro do BCE faz alerta sobre inflação subjacente apesar da queda do petróleo
Crescimento do setor de serviços dos EUA desacelera em junho; emprego se recupera
Setor que movimenta mais de 25% do PIB brasileiro vira porta de entrada para profissionais do mercado financeiro; evento gratuito em Curitiba mostra como
Minério de ferro sobe com redução de estoques portuários e sinais de estímulo