Controle do carrapato é um desafio para a pecuária gaúcha
O carrapato bovino, pequeno em tamanho, porém gigante em impacto, é um dos maiores desafios sanitários da pecuária brasileira. Estimativas apontam que o parasita acarreta prejuízos anuais superiores a US$ 3,9 bilhões no País, comprometendo produtividade, bem-estar animal e rentabilidade das propriedades.
No Rio Grande do Sul, as perdas chegam a R$ 300 milhões por ano, segundo dados da Emater/RS-Ascar, em série de entrevistas sobre o tema no programa de rádio da Instituição, acessado em https://www.youtube.com/watch?v=vWIGJht7WWc.
Além da queda no ganho de peso e na produção de leite, o carrapato é vetor da tristeza parasitária bovina, considerada a principal causa de morte de bovinos no Estado. Embora registros oficiais indiquem cerca de dez mil mortes anuais, técnicos afirmam que o número real pode ser dez vezes maior, devido à subnotificação.
AVANÇOS TÉCNICOS E ALTERNATIVAS PARA SUPERAR A RESISTÊNCIA
Outro fator alarmante é a resistência crescente aos carrapaticidas. Levantamento do Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF), ligado à Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), revela que 70% das propriedades gaúchas já apresentam multirresistências, ou seja, os parasitas não respondem a pelo menos quatro das sete classes de produtos disponíveis. Em 5% das propriedades, não há eficácia em nenhum dos produtos comercializados, tornando o controle praticamente inviável.
Especialistas destacam que o problema não está apenas nos animais, mas principalmente no ambiente. Mais de 95% da população de carrapatos permanece no solo e no pasto, o que exige estratégias de manejo que vão além da aplicação de químicos. O ciclo do parasita, que se intensifica do verão ao outono, multiplica a infestação de forma exponencial, se não houver medidas preventivas já na primavera.
O pecuarista Ruberlei Jacques Dondé, de André da Rocha, cria bovinos de corte desde 2008 e alterna manejos convencionais e integrados, como a homeopatia que, segundo relata, ajudou a diminuir o intervalo entre as aplicações dos acaricidas químicos, chegando quase a zerar a incidência de ectoparasitas em seu rebanho de 150 animais. "Começamos o manejo no início da primavera e fazemos aplicações em sequência até dezembro e isso tem garantido uma baixa população de ectoparasitas. Mas no alto verão, como agora, aumenta o desafio, com novas gerações apresentando carrapatos. Aí entramos com mais um produto que ajuda no controle de carrapatos que podem já estar nos animais. O importante é o produtor conhecer como os produtos funcionam e posicionar conforme a necessidade de cada um. O que funciona para um produtor pode não funcionar para outro", destaca.
Para enfrentar o desafio, o biocarrapaticidograma surge como ferramenta essencial. O exame gratuito, realizado pelo IPVDF, identifica quais produtos ainda funcionam em cada propriedade, permitindo um controle mais direcionado e eficiente. A coleta de carrapatos engurgitados e o envio ao laboratório garantem um laudo detalhado sobre a eficácia dos diferentes grupos químicos.
PRÁTICAS DE CONTROLE
Nos últimos quatro anos, a Emater/RS-Ascar realizou mais de 2.500 visitas técnicas e promoveu 60 eventos em parceria com o IPVDF, alcançando cerca de 60 mil produtores rurais. Além do uso racional de carrapaticidas, iniciativas como rotação de piquetes, homeopatia e fitoterapia vêm sendo testadas para reduzir a infestação e minimizar impactos ambientais.
Conforme a extensionista da Emater/RS-Ascar, veterinária Thaís Michel, o trabalho da Emater/RS-Ascar no controle do carrapato bovino baseia-se em uma estratégia integrada que reduz a dependência exclusiva de carrapaticidas químicos. A Emater promove o controle integrado, combinando uso estratégico e rotacionado de carrapaticidas, manejo produtivo (rotação de piquetes, ajuste da carga animal e redução da contaminação), adoção de raças mais resistentes, quarentena sanitária e práticas complementares como homeopatia. Essa abordagem busca eficiência, sustentabilidade e equilíbrio entre saúde animal, ambiental e econômica nas propriedades rurais", conclui.
Apesar dos esforços, especialistas reforçam que o carrapato é um problema permanente e sem possibilidade de erradicação. O caminho, afirmam, é a integração entre pesquisa, assistência técnica e defesa sanitária, para que os produtores possam conviver com o parasita de forma sustentável e menos onerosa.
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