Sentimento de aversão ao risco e a oferta abundante mantêm o açúcar sob pressão
A combinação entre maior aversão ao risco nos mercados globais e uma oferta mundial de açúcar mais abundante intensificou a pressão baixista sobre o adoçante na última semana, apesar de uma breve recuperação após o alívio das tensões comerciais entre Estados Unidos e União Europeia (UE).
Já na última quinta-feira (22), o sentimento de aversão ao risco mudou depois que Trump anunciou a suspensão dos planos de impor novas tarifas à UE e esclareceu que os EUA não usariam a força para adquirir a Groenlândia. Isso foi, de forma geral, favorável às commodities, com exceção do complexo energético, que vinha se beneficiando da incerteza persistente. Os preços do açúcar se recuperaram 1,5% na quinta-feira, fechando a semana em um nível mais baixo de 14,7 c/lb na sexta feira (23).
Do ponto de vista de fundamentos, o mercado de adoçantes permanece praticamente inalterado, com a produção brasileira ainda prevista para ser sólida. De acordo com o último relatório da UNICA, as usinas do Centro-Sul moeram 2,17 milhões de toneladas de cana na segunda quinzena de dezembro, acima dos 1,71 milhão de toneladas no mesmo período da safra 2024/25. Desde o início da safra 2025/26, a moagem acumulada atingiu 600,40 Mt, apenas 2,28% abaixo do ano passado, sugerindo que, se esse ritmo se mantiver, a região poderá terminar a safra perto de 608 Mt.
“Nossa visão é um pouco mais otimista, colocando a produção final mais perto de 610 Mt. Com uma mistura de açúcar de 50,6%, a produção total do adoçante se aproximaria de 40,5 Mt, ajudando a explicar o tom baixista predominante no mercado”, diz Lívea Coda, coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets.
“Conforme destacado no relatório anterior da Hedgepoint Global Markets, a recuperação em várias origens importantes, principalmente na Índia, soma-se a um cenário de oferta global já ampla”, complementa.
O México também deve ter um bom desempenho, com a Conadesuca projetando uma recuperação de 12% na produção de açúcar. A Tailândia deve adicionar cerca de 500 kt à sua produção anual, embora ainda operando abaixo de seu potencial histórico, enquanto a China deve atingir 11,2 Mt, segundo estimativas da China Sugar Association.
“Outras regiões, incluindo os EUA e a UE, devem apresentar resultados sólidos, embora não excepcionais. Nos EUA, a produção de açúcar deve ser 0,6% menor do que no ano passado, mas permanecerá 0,8% acima da média de cinco anos. Para a UE mais o Reino Unido, espera-se que a produção líquida de açúcar caia 4% em comparação com 2024/25, mas ainda assim permaneça cerca de 2% acima da média de cinco anos”, afirma.
A UE, tem sido manchete no comércio de commodities, já que o acordo entre o grupo e o Mercosul parece estar chegando à fase final de aprovação. No entanto, a analista da Hedgepoint prevê que ele deve trazer apenas ajustes modestos nos fluxos comerciais de açúcar da região.
“O acordo introduz um acesso ampliado isento de impostos para o açúcar, incluindo uma cota de 180 kt com tarifa zero para o Brasil e uma cota isenta de impostos de 10 kt para o Paraguai, enquanto os açúcares especiais continuam excluídos e nenhuma preferência adicional é concedida à Argentina ou ao Uruguai. Espera-se que essas medidas intensifiquem as pressões competitivas sobre o setor açucareiro da UE e possam amplificar as fraquezas estruturais existentes, aumentando a probabilidade de instabilidade do mercado, especialmente devido às dúvidas contínuas sobre a eficácia dos mecanismos de salvaguarda atuais”, diz Coda.
Mercado de Etanol
O acordo diferencia o etanol destinado ao uso industrial daquele utilizado como combustível. No caso do etanol industrial, uma tarifa zero seria aplicada dentro da cota de 450 kt/ano, aumentando significativamente a competitividade brasileira. Já para o etanol combustível, o acordo prevê a redução ou eliminação dos impostos de €190/m³ dentro da cota de 200 kt/ano, ampliando diretamente as oportunidades de arbitragem de importação.
Isso reforçaria a posição competitiva do Brasil no continente, especialmente em relação ao produto dos EUA. No entanto, uma vez atingido o limite da cota, as tarifas integrais da UE voltariam a ser aplicadas.
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