Altas no diesel são injustificáveis, abusivas e colocam agronegócio brasileiro sob mais um alerta

Publicado em 10/03/2026 10:41 e atualizado em 10/03/2026 14:35
Alta do petróleo e dificuldades de abastecimento em alguns estados elevam preocupação com custos de transporte, colheita e próxima safra.

Logotipo Notícias Agrícolas

A escalada do conflito no Oriente Médio e a paralisação do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz fizeram o preço internacional do petróleo se aproximar de US$ 120 por barril nesta semana, patamar que não era visto desde 2022. O movimento ocorre em meio às tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã, reduzindo a oferta global de combustível e pressionando os mercados de energia. No Brasil, o cenário já acende um alerta para aumento no preço do diesel e possíveis reflexos diretos nas atividades do agronegócio.

A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) informou que a defasagem entre os preços praticados nas refinarias da Petrobras e os valores do mercado internacional atingiu níveis recordes. Como o Brasil importa cerca de 30% do diesel consumido no país, qualquer alteração no mercado global tende a repercutir no abastecimento interno. Para o produtor rural, isso significa risco de aumento em um dos insumos mais utilizados no campo.

O diesel está presente em praticamente todas as etapas da produção agrícola, desde o preparo do solo até o transporte de grãos para armazéns e portos. Por isso, oscilações no preço do combustível podem elevar os custos operacionais do produtor. Em um momento de colheita da safra de verão e planejamento da próxima temporada, o tema passou a ser acompanhado com mais atenção pelo setor produtivo.

Aumento do diesel já aparece em algumas regiões do país

Os primeiros sinais de pressão no preço do combustível já começam a surgir em algumas regiões produtoras. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), produtores rurais relataram aumento no preço do diesel em estados do Centro-Oeste. Em áreas de Goiás, por exemplo, houve registros de elevação de até R$ 1 por litro nas bombas, impactando diretamente as operações mecanizadas.

De acordo com a entidade, o diesel se tornou uma das maiores preocupações do setor neste momento, pois influencia tanto o funcionamento das máquinas quanto o transporte de insumos e da produção. A CNA também alertou para riscos relacionados ao abastecimento e à possibilidade de repasses excessivos ao longo da cadeia logística.

Diante desse cenário, a entidade solicitou ao governo federal a elevação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 15% para 17%. A proposta busca reduzir a dependência do combustível fóssil e ajudar a conter eventuais pressões de preços no mercado doméstico.

Logística do agro é a mais exposta à alta do petróleo

Atualmente, cerca de 65% de toda a carga transportada no Brasil utiliza o modal rodoviário. Isso significa que o diesel tem peso significativo no custo para levar insumos às fazendas e escoar a produção até os portos.

O especialista em logística do Esalq-LOG, Fernando Bastiani, explica que os reflexos do aumento do petróleo internacional já começam a aparecer no mercado brasileiro de combustíveis. “Algumas refinarias e importadores já elevaram preços, mesmo antes de um eventual reajuste da Petrobras. Temos o preço aumentando do diesel e da gasolina em algumas refinarias do Brasil”, afirma.

Segundo Bastiani, a Petrobras ainda não alterou oficialmente os valores nas refinarias e aguarda uma definição mais clara do cenário internacional. “A companhia vai avaliar se esse cenário vai se manter nas próximas semanas e se isso pode trazer algum risco de desabastecimento para o Brasil”, explica. Caso o petróleo permaneça elevado por mais tempo, o diesel nacional pode registrar aumento entre 15% e 20%.

A preocupação com o abastecimento também aparece no campo. Além da pressão sobre os preços, há relatos pontuais de dificuldades no abastecimento em algumas regiões. No Rio Grande do Sul, produtores já registraram paralisação temporária de operações de colheita por falta de diesel.

De acordo com informações da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), agricultores que cultivam principalmente arroz e soja enfrentaram problemas na entrega de combustível pelos Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs). 

Esses distribuidores são responsáveis por levar o diesel até as propriedades rurais.O economista da Farsul, Antônio da Luz, relata que os primeiros alertas surgiram poucos dias após o início do conflito no Oriente Médio, justamente em meio ao período de colheita no Rio Grande do Sul. Segundo ele, produtores começaram a relatar dificuldades para receber combustível nas propriedades. “Três dias depois que a guerra estourou nós começamos a receber mensagens de produtores apavorados, tentando entender o que fazer, porque os TRRs informavam que não tinham combustível para entregar”, afirma.

O economista relata que, além das dificuldades na entrega, produtores também passaram a registrar forte aumento nos preços do combustível em algumas regiões. Segundo ele, houve casos em que o diesel saltou rapidamente nas negociações com distribuidores. “O diesel que estava perto de R$ 6,60 começou a aparecer a R$ 7, depois R$ 7,50 e já temos relatos de produtores mostrando mensagens com preço de R$ 9 por litro”, afirma.

Frete agrícola pode subir com diesel mais caro

A elevação do diesel tende a impactar diretamente o custo do frete agrícola. No transporte rodoviário brasileiro, o combustível representa praticamente metade das despesas operacionais dos caminhões. Qualquer reajuste relevante acaba sendo repassado ao valor do transporte.

Fernando Bastiani destaca que a participação do diesel no custo logístico é muito elevada. “No custo de um caminhão hoje, praticamente 40% a 50% é diesel. Se a gente tem um aumento de 20% no preço do combustível, isso pode gerar uma alta de 8% a 10% no custo do transporte”, afirma.

Esse cenário afeta especialmente produtores localizados longe dos portos exportadores, como nas regiões do Centro-Oeste e do Matopiba. Além do transporte da produção, o aumento do diesel também encarece a chegada de fertilizantes, defensivos e sementes às propriedades rurais.

Abastecimento acende alerta e já preocupam produtores

A situação preocupa especialmente porque ocorre em um período crítico da safra. O Rio Grande do Sul responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz, e qualquer interrupção no abastecimento pode comprometer o ritmo da colheita.

Segundo Antônio da Luz, a escassez do combustível se tornou um fator ainda mais preocupante que o próprio aumento de preços, justamente por afetar diretamente as operações no campo. “A questão da escassez é muito mais grave do que o preço. Nós estamos em plena colheita e um dia a mais ou a menos no campo, principalmente no arroz, faz muita diferença em termos de produtividade”, explica.

Relatos semelhantes também começam a aparecer no setor de distribuição de combustíveis. Luís César Pereira, que atua na área comercial atendendo postos de combustível, afirma que os clientes já enfrentam dificuldades para encontrar diesel a preços competitivos. “Dificuldade de encontrar e principalmente em questão alto valor do combustível, então começa a corrida pelo preço”, relata.

Segundo ele, os primeiros sinais começaram há cerca de uma semana e atingem grande parte dos clientes do setor. “Mesmo um cliente que atuo, que possui cerca de 80 postos de combustível, está difícil encontrar preço”, afirma.

Impacto depende da duração da crise no petróleo

Apesar das preocupações, especialistas ressaltam que o impacto para o agronegócio depende principalmente da duração da alta no mercado internacional de petróleo. Oscilações pontuais costumam gerar efeitos limitados, enquanto períodos prolongados de preços elevados ampliam os custos ao longo da cadeia produtiva.

O especialista em análise de mercados Carlos Cogo explica que o Brasil faz parte de um mercado global de energia. Por isso, movimentos persistentes no preço do petróleo tendem a chegar ao mercado doméstico. “Existe sim o risco de alguma pressão adicional sobre o diesel se a alta do petróleo se mantiver por mais tempo”, afirma.

Segundo ele, o repasse para os combustíveis brasileiros não ocorre de forma imediata. “Ele depende de fatores como câmbio, dinâmica do mercado interno e política de preços das refinarias”, explica.

Mesmo assim, caso o petróleo permaneça elevado por vários meses, o agronegócio pode sentir o impacto na próxima safra. “Se o petróleo permanecer em níveis elevados por um período prolongado, pode haver pressão adicional sobre os custos da próxima safra, principalmente na logística”, afirma.

Para Antônio da Luz, ainda há pontos que precisam ser esclarecidos na cadeia de distribuição de combustíveis. O economista avalia que o combustível disponível no país não deveria reagir de forma tão rápida a um conflito recente no exterior. “Esse diesel que está no Brasil já chegou ao país há meses. Como ele pode refletir uma guerra que começou há poucos dias?”, questiona.

Nesse cenário, produtores e entidades do setor acompanham constantemente a situação internacional. A evolução do conflito no Oriente Médio poderá definir o comportamento dos custos de produção e logística do agronegócio brasileiro nos próximos meses.

O MME foi procurado pela equipe do Notícias Agrícolas mas até o momento não se pronunciou.

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Clique Aqui para receber em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Tags:
Por:
Priscila Alves e Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

Ao continuar com o cadastro, você concorda com nosso Termo de Privacidade e Consentimento e a Política de Privacidade.

0 comentário