Tilápia do Castanhão: pesquisa da UFC impulsiona piscicultura do Ceará
O Açude Castanhão, em Jaguaribara, é o maior polo de produção de tilápia do Ceará, estado que figura entre os principais produtores da espécie no Brasil. Agora, uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Ceará (UFC) no próprio reservatório aponta um caminho para tornar essa cadeia produtiva ao mesmo tempo mais lucrativa e menos agressiva ao meio ambiente. O estudo, financiado pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNCAP) por meio do Programa Cientista Chefe em Economia Azul, testou a inclusão de probióticos na ração de tilápia cultivada em tanques-rede e encontrou resultados promissores que podem beneficiar a cadeia de piscicultores da região.
A motivação da pesquisa parte de um gargalo estrutural da piscicultura. As rações comerciais contêm entre 0,5% e mais de 1% de fósforo, mas os peixes não conseguem aproveitá-lo completamente porque a substância se apresenta na forma de fitato, composto que o organismo dos peixes não processa adequadamente. O resultado é que grande parte desse fósforo vai parar diretamente no reservatório, contribuindo para a eutrofização: o acúmulo de nutrientes que degrada a qualidade da água e compromete todos os seus usuários.
Em conversa com o Movimento Econômico, a coordenadora do projeto, professora Elenise Gonçalves de Oliveira, do Departamento de Engenharia de Pesca da UFC, explica que o problema tem raízes históricas no Castanhão. Entre 2012 e 2019, uma seca prolongada reduziu drasticamente o volume do reservatório, derrubou a qualidade da água e provocou mortandades em massa de peixes, afastando produtores e reduzindo a produção cearense de 36,29 mil toneladas, em 2014, para apenas 2 mil toneladas em 2019.
Hoje, o volume de água dos reservatórios cearenses ainda não foi completamente recuperado, corresponde a 40,62% da capacidade total (7,4 bilhões de m³). A produção de peixes no estado, que chegou a 15,71 mil toneladas em 2025, representa apenas 43,29% do pico de 2014. O cenário reforça a urgência de tecnologias que tornem o setor mais resiliente.
A solução testada: probiótico na ração
O experimento foi conduzido em duas fases no próprio Castanhão. Na primeira etapa, a alevinagem, 54 dias de cultivo foram monitorados entre janeiro e março de 2025. Alevinos de tilápia do Nilo, com peso médio inicial de 5,6 gramas, foram distribuídos em tanques-rede, sendo que metade recebeu ração convencional e a outra metade, ração com o probiótico BM-PRO + Selante PRO-MIX. Os resultados desta fase já estão disponíveis; os dados da fase de engorda, com 189 dias de duração, ainda estão em análise.
Os números da fase inicial chamam atenção: a adição do probiótico levou a uma redução de 10,3% no consumo de ração, com melhor conversão alimentar e maior eficiência proteica. Além disso, a quantidade de fósforo liberada no reservatório foi significativamente menor nos tanques que utilizaram o aditivo.
“O uso de probiótico poderá tornar a piscicultura mais competitiva economicamente, uma vez que melhora a eficiência alimentar. Adicionalmente, haverá menor entrada de fósforo aquícola no reservatório. Com isso, espera-se que, no médio a longo prazo, o ecossistema aquático do Açude Castanhão passe a apresentar um balanço de fósforo mais favorável”, explica o professor da UFC Marcelo Sá.
A professora Elenise destaca ainda que a tecnologia é acessível aos pequenos produtores, dado que os insumos estão disponíveis no mercado e seu uso não exige infraestrutura complexa. Embora em tanques-rede a literatura científica ainda seja mais restrita do que em viveiros, os resultados preliminares do Castanhão reforçam o potencial da abordagem.
Capital da tilápia no Ceará
Para quem vive da tilapicultura no Castanhão, a pesquisa da UFC dialoga diretamente com os desafios do dia a dia. Conhecida como a “capital da tilápia” do Ceará, Jaguaribara tem na piscicultura uma das bases econômicas do município, ao lado da bovinocultura leiteira. O engenheiro de pesca Edson Reis, que atua na região, estima que a atividade impacte cerca de 4 mil pessoas no entorno do reservatório.
Para o engenheiro, contudo, os gargalos ainda são muitos: o licenciamento ambiental trava a expansão do setor, as linhas de financiamento são limitadas e a ausência de unidades de beneficiamento dificulta a certificação sanitária do pescado, o que compromete o acesso a mercados mais exigentes e o poder de barganha dos produtores na hora da venda.
“A piscicultura necessita de protocolo de boas práticas de manejo e sanitário, que é um gargalo para o desenvolvimento da atividade no Brasil. O Castanhão não está livre desses desafios”, aponta.
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