Brasil pode enfrentar “vazio” nas exportações à China e volatilidade no preço da arroba no segundo semestre
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O avanço acelerado das exportações brasileiras de carne bovina para a China em 2026 acendeu um sinal de alerta para o setor pecuário. De acordo com dados de importação da China (GACC), já entraram no país 372,1 mil toneladas de carne bovina do Brasil até fevereiro, o que corresponde a 33,6% da cota estabelecida, de 1,1 milhão de toneladas. Com essa porcentagem preenchida (33,6%) cresce a expectativa de que o limite seja atingido ainda no início do segundo semestre. Esse cenário levanta dúvidas importantes sobre o comportamento do mercado nos próximos meses, principalmente para o produtor rural.
A possibilidade de aplicação de uma tarifa de até 55% sobre os embarques que ultrapassarem a cota torna o ambiente ainda mais desafiador. Diante disso, especialistas avaliam que o setor deve passar por um período de ajustes, com mudanças nos destinos das exportações e impactos diretos sobre os preços da arroba no mercado interno.
Mesmo com essas incertezas, o bom desempenho das exportações no início do ano mostra que a demanda internacional segue aquecida. No primeiro bimestre, o Brasil movimentou 557,24 mil toneladas e faturou US$ 2,865 bilhões, com crescimento de 22% em volume e 39% em receita na comparação anual, reforçando a relevância da carne bovina brasileira no cenário global.
Ritmo acelerado da china antecipa mudança no mercado
De acordo com Hyberville Neto, diretor da HN AGRO, o ritmo atual indica que o limite será atingido rapidamente. “Acreditamos que a nossa cota seja atingida no início do segundo semestre, entre julho e agosto”, afirma.
Essa visão é compartilhada por Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, que reforça o encurtamento desse prazo. “O ritmo atual que nós temos essa cota brasileira ela pode acabar entre os meses de maio no máximo ali no comecinho de julho é o nosso prazo de validade para exportação para a China”, explica.
Lygia Pimentel, CEO da Agrifatto, também aponta para um esgotamento antecipado. “Sim. Dado o ritmo atual de exportações (aproximadamente 110 mil toneladas embarcadas para a China ao mês), atingiremos a cota entre junho e julho”, destaca.
Terceiro trimestre pode trazer pressão sobre preços
Com o possível fim da cota, o mercado deve enfrentar um período de menor fluxo de exportações para a China, especialmente no terceiro trimestre. Esse intervalo preocupa analistas, principalmente pelo impacto sobre os preços da arroba no momento de maior saída de animais confinados.
Iglesias alerta para esse movimento. “Basicamente, o que nós vamos ver são nove meses do país exportando muito ativamente. O primeiro semestre e o último trimestre, enquanto vai se formar um vazio durante o terceiro trimestre do ano, isso pode gerar um efeito muito negativo em relação a preços da arroba na saída de confinados para o mercado que é justamente o terceiro trimestre do ano.”
Pimentel também reforça esse risco. “O atual contexto trará muito risco e volatilidade. Se atingida a cota em julho, viveremos um hiato de exportação para a China entre agosto e outubro, de modo que teremos que intensificar os embarques para outros países então.”
Segundo ela, esse período coincide com maior oferta de animais. “Isso tende a pressionar as cotações em um momento em que há animais saindo dos confinamentos”, afirma.
Diversificação de mercados será essencial
Diante da limitação imposta pela China, o Brasil deve intensificar a busca por novos mercados. Para Hyberville Neto, a redistribuição dos destinos será inevitável. “A carne brasileira é muito competitiva, mas frente a essas tarifas, se efetivamente forem mantidas, a tendência é que haja uma alteração da composição dos destinos das exportações brasileiras.”
Ele destaca ainda o papel de mercados alternativos. “Hong Kong historicamente funcionou como uma porta de entrada indireta para a China e continua sendo um mercado relevante que pode ganhar importância em cenários de restrição comercial.”
Outro ponto relevante envolve parceiros comerciais indiretos. “O Uruguai tem uma cota generosa, de 324 mil toneladas, e no primeiro bimestre usou apenas 10,9% deste total. É um país que tem comprado mais do Brasil e pode se abastecer com a nossa carne, liberando parte maior da sua produção para atender a China”, explica.
O especialista da Safras e Mercado reforça o movimento de diversificação. “O Brasil está buscando diversificação, está buscando novas alternativas dentro desse contexto global, tem a missão japonesa chegando ao Brasil. agora temos também que considerar outros países relevantes como Estados Unidos, Vietnã, Indonésia, a própria Filipinas que tem comprado mais, a União Europeia e os Estados Unidos”, afirma.
Oferta menor pode equilibrar mercado interno
Apesar das incertezas externas, o mercado interno pode não sofrer excesso de oferta. Isso porque o Brasil vive um momento de retenção de fêmeas, o que reduz a produção de carne.
Hyberville Neto explica esse cenário. “As expectativas são de redução da produção de carne no Brasil devido à retenção de fêmeas, já observada nos primeiros meses de 2026. Com isso, apesar dessa questão das cotas ser muito relevante, uma produção menor de carne, associada ao redirecionamento de embarques de parte da produção podem ajudar a manter o mercado doméstico sem excesso.”
A Agrifatto também vê espaço para absorção interna. “Certamente”, afirma Lygia ao ser questionada se o volume não exportado pode ser direcionado ao mercado doméstico.
Esse equilíbrio entre menor oferta e redirecionamento de exportações pode ajudar a evitar quedas mais acentuadas nos preços, mesmo com o impacto do “vazio” nas vendas externas.
Volta da China pode impulsionar preços no fim do ano
Se por um lado o terceiro trimestre pode ser desafiador, o último trimestre traz perspectivas mais positivas. A expectativa é de retomada das compras chinesas, o que pode aquecer novamente o mercado.
Fernando Henrique Iglesias projeta um movimento forte. “E aí quando a gente olha pra último trimestre, quando a China voltar a comprar a carne bovina brasileira pensando na cota de 2027, a gente pode ver o mercado subir de uma maneira agressiva.”
Lygia Pimentel também aponta para esse cenário. “Em novembro os chineses precisarão voltar a comprar (pois o que é embarcado em novembro chegará na China por volta de janeiro), o que trará novamente uma onda de compras fortalecida e talvez até mesmo compensatória.”
No entanto, a dependência do mercado chinês continua sendo um ponto de atenção. Iglesias resume bem essa preocupação: “Enquanto não tiver uma gestão de cotas nós vamos seguir reféns dessa situação: corrida muito acelerada pela exportação, seguido de um vazio de vendas para esse que é o nosso principal mercado.”
Cenário global segue favorável, apesar dos riscos
Mesmo com os desafios impostos pela China, o cenário internacional ainda oferece oportunidades. Os Estados Unidos, por exemplo, devem importar cerca de 2,5 milhões de toneladas em 2026, mantendo forte demanda pela carne brasileira.
Outros mercados também seguem em crescimento, como Chile, Rússia, Egito, Emirados Árabes, México e Arábia Saudita. Além disso, há expectativa de abertura e consolidação de mercados como Vietnã, Indonésia, Japão e Coreia do Sul.
Ainda assim, fatores externos como conflitos internacionais podem impactar custos logísticos. Mesmo assim, o Oriente Médio representa uma fatia relativamente pequena das exportações brasileiras, limitando os efeitos negativos.
Para Lygia Pimentel, a competitividade brasileira segue como trunfo. “A competitividade do Brasil se dará enquanto o seu preço estiver mais baixo em relação aos concorrentes. Projetamos que seguirá assim ainda ao longo de 2026. E, claro, fatores como padronização, protocolos sanitários (que respeitamos à risca) e um bom marketing para levar nossa mensagem aos clientes.”
O que o pecuarista deve observar
Diante desse cenário, o produtor rural deve ficar atento à volatilidade e às oportunidades de proteção de preços. O mercado futuro pode ser uma ferramenta importante para garantir previsibilidade.
Fernando Henrique Iglesias destaca esse ponto. “Tem que ter muita atenção essa volatilidade que essa medida de salvaguardada que a China está colocando sobre o mercado pode causar. Ela pode trazer muitas instabilidades no nível de preços na B3. Hoje, por exemplo, ele é interessante e possibilita uma boa condição de travamento.”
Para ele, esse ambiente pode favorecer o planejamento. “Dá uma boa perspectiva para você travar preço pra você fazer um RED bem feito e vai dar uma condição bem interessante ao pecuarista, pra ele trabalhar dentro desse mercado e ter previsibilidade em relação ao fluxo de caixa.”
No fim das contas, 2026 deve ser marcado por um mercado mais dinâmico e sensível a fatores externos. Entre o risco de um “vazio” nas exportações e a expectativa de retomada forte no fim do ano, a palavra-chave para o pecuarista será gestão.
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