Exportações de carne e alimentos enfrentam pressão com crise no estreito de Ormuz
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O conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz impactaram diretamente o comércio exterior brasileiro desde de março de 2026, afetando especialmente o agronegócio e as exportações de proteína animal para países do Golfo. A situação, que envolve uma das principais rotas marítimas do mundo, elevou custos logísticos, reduziu o ritmo dos embarques e trouxe incertezas para produtores e exportadores. O Brasil, que mantém forte relação comercial com a região, sente os efeitos principalmente na cadeia de alimentos, base importante da balança comercial.
De acordo com Mohamad Mourad, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, o bloqueio do estreito representa um ponto crítico para o fluxo comercial. “É uma via marítima essencial e o principal acesso aos portos de parceiros estratégicos como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Bahrein e Kuwait. Para o Brasil, qualquer instabilidade nesse gargalo logístico impacta diretamente o fluxo de exportações de setores vitais, especialmente o agronegócio e o setor mineral, que possuem no Golfo mercados consolidados e de alta relevância”, explica.
O impacto já aparece nos números, com queda de 31% nas exportações em março desde ano, quando comparado ao mesmo período de 2025. “É importante destacar a resiliência das nossas trocas comerciais: apesar desse revés pontual em março, o acumulado do primeiro trimestre ainda apresenta crescimento em relação ao ano passado nas exportações para os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG)”, observa.
Esse resultado, segundo ele, mostra a força das relações comerciais construídas ao longo dos anos, mas reforça a necessidade de atenção diante da instabilidade que ainda persiste na região.
Queda nos embarques acende alerta no setor de carne bovina
De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) em março de 2026 , o volume exportado para o Oriente Médio caiu para 18.220 toneladas, uma redução de mais de 20% em relação a fevereiro. Em valores, o recuo também foi significativo, com queda próxima de 16%.
Segundo a entidade, a retração foi puxada principalmente pela redução nas compras dos Emirados Árabes Unidos, além de quedas relevantes em países como Jordânia, Catar e Iraque. Ainda conforme a ABIEC, o frete de contêiner refrigerado mais que dobrou nos últimos meses, passando de cerca de US$ 3 mil para mais de US$ 7 mil. Esse aumento pressiona a margem da indústria e pode refletir diretamente no produtor rural, principalmente na formação de preços e na competitividade do produto brasileiro.
Custos mais altos e rotas alternativas entram no radar
A preocupação do setor não se limita ao curto prazo. A logística se tornou o principal ponto de atenção, já que o Oriente Médio representa cerca de 15% das exportações brasileiras de carne bovina. Com rotas comprometidas, empresas têm buscado alternativas para manter o abastecimento e reduzir prejuízos.
Mourad reforça que o momento exige proximidade entre exportadores e parceiros comerciais. Segundo ele, o diálogo é essencial para encontrar soluções conjuntas, como o uso de rotas alternativas via Mar Vermelho ou portos fora da área de conflito, como os de Omã. Em situações mais críticas, o transporte aéreo também pode ser considerado, apesar do custo elevado.
Além disso, o cenário pode acelerar mudanças estratégicas no setor. Uma das alternativas apontadas é a descentralização da produção, com instalação de unidades industriais mais próximas dos mercados consumidores. “Para o futuro, essa situação forçará uma reorganização estratégica, onde a descentralização da produção — com a instalação de plantas produtivas locais, como já fazem empresas como BRF e Seara — torna-se uma alternativa cada vez mais necessária para garantir a permanência no mercado árabe.”, complementou.
Certificação halal mantém ritmo mesmo com crise
No campo das certificações, o impacto tem sido diferente. Omar Chahine, diretor de inteligência comercial da FAMBRAS Halal Certificadora, afirma que o trabalho da entidade segue em ritmo normal, apesar das turbulências na região.
Segundo ele, o mercado halal não está restrito ao Oriente Médio, já que atende comunidades muçulmanas espalhadas pelo mundo inteiro. “Apesar da região ser uma das principais compradoras, ela não é exclusiva, e nosso trabalho de certificação continua normalmente, a todo vapor”, reforçou.
Chahine ressalta que o Brasil, como grande exportador de alimentos, naturalmente sente os efeitos do cenário internacional. No entanto, a certificação continua sendo um diferencial competitivo importante, garantindo acesso a diversos mercados e ampliando as oportunidades para a proteína animal brasileira.
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