Agricultores na Índia temem que novas usinas de etanol restrinjam acesso a água
Uma onda de protestos está se espalhando por áreas rurais da Índia contra a instalação de usinas de etanol. Moradores temem que as instalações restrinjam o acesso a água e terra.
A Índia, que importa 80% de seu petróleo e gás, pôs o etanol no centro de seus planos de energia limpa e de segurança energética.
O país aumentou a proporção de etanol na gasolina de 1% em 2014 para 20% no ano passado. Mas a maior parte do etanol é produzida a partir de milho e cana-de-açúcar, culturas que exigem quantidades significativas de terra e água, o que tem provocado resistência em várias regiões rurais.
Um exemplo é a cidade de Tibbi, no estado de Rajasthan. No fim do mês passado, centenas de agricultores marcharam contra a proposta de instalação de uma usina de etanol.
“Essa fábrica vai tirar nossa água. Ninguém nos consultou antes de começar as obras”, disse o agricultor Madan Dugesar, envolvido em uma série de protestos contra a usina.
Em novembro, segundo moradores, a polícia prendeu líderes do protesto e dispersou uma manifestação. Em vez de desestimular os atos, as ações policiais levaram mais pessoas às ruas.
Os moradores de Tibbi disseram que só perceberam que uma grande usina de etanol estava sendo construída com a chegada de máquinas e o início de perfurações no ano passado.
Alguns dos agricultores viajaram para o estado vizinho de Punjab para conhecer o impacto de uma usina semelhante lá e como os protestos levaram o governo estadual a fechar uma usina de etanol.
“A água subterrânea foi poluída. As pessoas começaram a adoecer, e foi aí que os protestos começaram”, disse o líder rural Roman Brar, da cidade de Zira, foco dos protestos em Punjab.
Moradores organizaram ocupações, bloquearam estradas e recorreram ao Tribunal Nacional Verde, o principal órgão de proteção ambiental da Índia, que analisa o caso.
“Não somos contra a indústria”, disse Brar. “Somos contra indústrias que poluem nossa água e nossa terra”.
Mais protestos
Em Tibbi, os moradores se opõem ao que consideram um projeto de uso intensivo de água em uma região que depende de canais e águas subterrâneas para irrigação.
Mahangu Singh Sidhu, morador da cidade, disse que o lençol freático estava sendo afetado e que uma usina de etanol o esgotaria ainda mais, competindo com as plantações pela água e poluindo o abastecimento.
Os moradores formaram um grupo de protesto e apresentaram uma petição ao governo local em abril do ano passado, mas disseram que não receberam resposta, o que levou a um protesto no local em agosto.
Em dezembro, milhares de pessoas se reuniram e marcharam em direção à usina. A construção acabou interrompida.
Procurados pela reportagem, a administração distrital e o Ministério do Meio Ambiente não responderam.
Protestos semelhantes surgiram em outros estados, incluindo Telangana, Maharashtra e Uttar Pradesh, à medida que a expansão do etanol avança para regiões com estresse hídrico.
Pressão e resistência
Moradores de Tibbi afirmaram que a exclusão deles do processo de tomada de decisões sobre a usina era uma das principais questões que revoltavam as comunidades.
Por meio de uma emenda de 2021 às normas ambientais, a Índia permitiu que usinas de etanol à base de grãos deixem de cumprir avaliações detalhadas de impacto e audiências públicas desde que forneçam etanol para as metas nacionais de mistura de combustíveis e cumpram as normas de Descarga Líquida Zero (ZLD, na sigla em inglês).
ZLD é um processo de tratamento de água que recicla e reutiliza toda a água residual, garantindo que nenhum resíduo líquido, repleto de ácidos e metais pesados, saia da instalação.
Moradores e ativistas, no entanto, dizem que essas salvaguardas nem sempre são confiáveis.
Em Zira, Brar afirmou que resíduos não tratados eram desviados para o subsolo. Posteriormente, as autoridades encontraram evidências de práticas ilegais de descarte, incluindo o bombeamento de efluentes para águas subterrâneas, segundo reportagens da mídia local.
Para sustentar sua mistura de etanol, a Índia pode precisar de 4 milhões a 8 milhões de hectares adicionais de terra para o cultivo de milho até 2030, de acordo com uma análise do Centro de Estudos de Ciência, Tecnologia e Políticas, um instituto de pesquisa sediado em Bangalore. Isso equivale a aproximadamente sete vezes o tamanho da cidade de Nova York.
Pesquisadores afirmam que isso pode intensificar a competição entre culturas para combustível e alimentos e aumentar a pressão sobre os recursos hídricos.
Narasimha Reddy, especialista em políticas ambientais com sede em Telangana, disse que os protestos refletem preocupações mais profundas. “Os moradores das aldeias não são contra o desenvolvimento, eles são contra serem excluídos das decisões que vão remodelar suas vidas”, afirma.
Ele disse que as comunidades temem perder o acesso à água e às terras férteis. “Por trás dos protestos há um medo mais profundo de que, na corrida para produzir combustível, a capacidade de produção de alimentos do país esteja sendo silenciosamente sacrificada”, completa.
O governo afirma que sua política de etanol economizou 1,06 trilhão de rúpias (US$ 12 bilhões) em importações de petróleo bruto e evitou 54,4 milhões de toneladas de emissões de carbono ao longo da década até 2025.
Para alcançar isso, a Índia está destinando quantidades recordes de cana-de-açúcar, milho e arroz para a produção de combustível, reduzindo a disponibilidade de grãos para a população e para a criação de gado, e afastando o uso da terra das culturas alimentares, segundo analistas.
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