Direto do Campo: pecuária brasileira se torna vitrine para países africanos em busca de tecnologia

Publicado em 22/04/2026 14:39
Propriedade no interior de SP abre as porteiras e mostra, na prática, o avanço da genética e da tecnologia na pecuária.

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“O nosso propósito é claro: produzir com eficiência, sustentabilidade e excelência genética.” Foi assim que Izabelle Jardim, médica veterinária e gestora do Grupo Quatro Santas, definiu a linha de atuação da organização, da qual faz parte a Fazenda Santa Rita, localizada em Bofete, no interior de São Paulo.

A propriedade recebeu cerca de 80 produtores africanos e também da Ásia, dando início ao primeiro dia de campo que integra o projeto Brazilian Cattle, na última segunda-feira, 20. “Nosso objetivo foi recebê-los para mostrar, na prática, como o Brasil organiza sua produção pecuária, reunindo gestão, uso de tecnologias como o melhoramento genético, bem-estar animal, manejo de solo e pastagens, além do cuidado com a água, em um sistema com foco em produtividade e sustentabilidade”, explicou.

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Dia de campo em Bofete, interior de São Paulo com missao africana​​​

Além disso, o sistema produtivo da Fazenda Santa Rita é baseado na integração lavoura-pecuária. Dividida entre cria, recria e engorda, a operação alia a produção de grãos à pecuária de corte, garantindo melhor aproveitamento da área e maior regularidade nos resultados.

O Brazilian Cattle se destaca como um projeto setorial fruto da parceria entre ABCZ e Apex Brasil, voltado à promoção das exportações e investimentos da pecuária brasileira. A iniciativa conecta diferentes elos da cadeia, desde a produção até as soluções que sustentam o desempenho no campo. Para Raquel Borges, gerente do projeto, o momento é estratégico. “Essas tecnologias podem gerar novos negócios para o Brasil. As oportunidades e possibilidades são infinitas”, afirmou, destacando o interesse crescente de outros países pelo sistema brasileiro.

Genética acelera evolução do rebanho

Diante desse avanço, o melhoramento genético se consolida como um dos principais motores da pecuária nacional. Nesse contexto, a inseminação artificial em tempo fixo (IATF) vem ampliando o acesso às tecnologias reprodutivas dentro das propriedades.

“A inseminação artificial em tempo fixo permite inseminar os animais após um tratamento de sincronização da ovulação, o que possibilita massificar o uso da inseminação artificial em um país inteiro”, afirmou Ed Hoffmann, professor doutor da Universidade de São Paulo e um dos palestrantes do Dia de Campo.

De acordo com dados da Universidade de São Paulo, desde 2002, o mercado de IATF no Brasil apresentou forte evolução, com taxa média de crescimento anual de 25,8%, saindo de cerca de 100 mil protocolos — apenas 1% das inseminações — para mais de 26 milhões em 2021, quando passou a representar 86% do total, consolidando-se como principal biotecnologia reprodutiva no país. Após recuos em 2022 e 2023, acompanhando a queda na comercialização de sêmen, o setor retomou o crescimento em 2024 e 2025, com altas de 3,5% e 6,2%, respectivamente, reforçando a recuperação e a adoção consistente da tecnologia pelos produtores.

Hoffmann observa que, antes dessa evolução, o processo dependia da observação de cio, o que limitava sua aplicação. “Observávamos os animais pela manhã e inseminávamos à tarde, ou o contrário. Ainda assim, isso permitia inseminar apenas de 5% a 6% do rebanho brasileiro até aproximadamente 2002”, explicou.

Com a adoção da IATF, o cenário mudou significativamente. “Hoje temos praticamente 20% das fêmeas sendo inseminadas no Brasil, com cerca de 27 milhões de procedimentos por ano e o nascimento de aproximadamente 15 milhões de bezerros”, destacou.

Tecnologia encurta ciclos e amplia resultados

Além de ampliar o uso, a tecnologia também impacta diretamente o desempenho produtivo. “Há um aumento de cerca de 8% no número de bezerros nascidos em propriedades que utilizam a inseminação. Os animais nascem mais cedo na estação de monta, são mais pesados e as fêmeas mais precoces”, afirmou Ed Hoffmann.

Da mesma forma, há ganhos na organização do sistema. “A IATF promove um encurtamento de cerca de 22 dias na estação de monta, concentrando os nascimentos no início do período”, disse.

Esse avanço acompanha um cenário mais amplo no país. “Estamos vivendo um momento único na pecuária brasileira”, destacou Bento Mineiro, diretor da ABCZ. Segundo ele, as ferramentas reprodutivas têm impacto direto na evolução dos rebanhos. “Quando utilizamos a inseminação artificial, há 50% de contribuição genética melhorada. A partir do momento em que se trabalha com transferência, utiliza-se o melhor touro com o que há de melhor do ponto de vista da fêmea”, explicou.

Interesse internacional mira adaptação ao modelo brasileiro

A presença de produtores africanos reforça o potencial de internacionalização do sistema produtivo brasileiro. “Essa é a primeira vez que temos uma iniciativa desse tipo”, destacou Fabiana Villa Alves, adida agrícola na Etiópia.

De acordo com ela, o intercâmbio vai além da observação técnica. “O que temos para oferecer à África, levando nossa tecnologia, é algo indescritível”, afirmou. No entanto, a adaptação às condições locais é essencial. “Não queremos levar uma receita de bolo, porque o que funciona aqui pode precisar de ajustes lá”, explicou. A criação de uma unidade de referência tecnológica na Etiópia já começa a testar essas soluções.

Tecnologia ainda precisa avançar no campo

Apesar da evolução, a adoção das ferramentas ainda não alcança todo o setor. “Os produtores que querem melhorar o rebanho precisam, прежде de tudo, do apoio de um técnico especializado”, afirmou Marcelo Oliveira, analista de pecuária de corte da Alta Genetics. Cada sistema exige decisões específicas. “Nem sempre o touro utilizado em uma propriedade será utilizado em outra, porque existem objetivos diferentes”, observou.

Os dados mostram avanço consistente. “Há algum tempo, o uso de inseminação artificial era inferior a 10%. Atualmente, está em cerca de um quarto das matrizes de corte do Brasil”, explicou.

Manejo e estrutura sustentam o resultado

Na prática, a eficiência produtiva resulta da combinação de estratégias. O grupo Santa Rita investe em pastagens rotacionadas, análise de solo e suplementação mineral ao longo do ano, promovendo melhor aproveitamento da área.

“A sanidade é baseada em prevenção, com vacinação e controle parasitário em diferentes fases do rebanho, reduzindo riscos e mantendo o desempenho. A integração lavoura-pecuária complementa o sistema, com produção de soja e sorgo, fortalecendo a sustentabilidade e o uso eficiente da terra”, concluiu Izabelle.

Água de qualidade também impacta produtividade

Por fim, a infraestrutura também exerce papel importante nos resultados. “O Hidrosilo é uma alternativa para o armazenamento de água no campo muito mais econômica”, explicou Ruan Carvalho, representante da Pacifil.

Segundo ele, a qualidade da água influencia diretamente o desempenho animal. “Quanto mais potável, fresca e de melhor qualidade, maior será a produção de leite e carne”, afirmou. Além disso, o sistema contribui para reduzir perdas. “Comparado ao açude, ele não perde água por evaporação”, disse, reforçando a eficiência no uso dos recursos.

Ao reunir produtores de diferentes países e apresentar soluções aplicadas no campo, a iniciativa reforça o protagonismo do Brasil na pecuária tropical. O modelo evidencia caminhos viáveis para produzir com eficiência e sustentabilidade em diferentes realidades.

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Por:
Michelle Jardim
Fonte:
Notícias Agrícolas

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