MT: Índios e fazendeiros firmam parcerias em plantações de soja no Estado

Publicado em 24/03/2009 11:33

Índios do Estado de Mato Grosso autorizaram a entrada de fazendeiros nas reservas para plantar soja. A produção que se transformou em alternativa de renda, dividiu as lideranças de uma das principais tribos da Amazônia e preocupa estudiosos. O Ministério Público Federal está investigando se existe irregularidade nesta experiência iniciada há quatro anos no Chapadão do Parecis.

São fazendas montadas dentro de áreas indígenas no sudoeste de Mato Grosso, com plantações extensas de soja onde antes haviam vegetação típica do cerrado. Na área dos índios Parecis o ritmo é acelerado para colher a soja plantada no ano passado. O caminhões saem carregados. O índio Pareci, Noraudino Enozokae, disse que é satisfatório ter uma terra deste tipo. "Eu sinto orgulho de conseguir tirar o alimento de dentro da minha própria terra", falou o índio.

A produção de soja é resultado de um acordo firmado entre os índios e um grupo de fazendeiros. Os parecis emprestaram a terra e entraram com parte da mão de obra. Já os fazendeiros forneceram a semente, as máquinas e os insumos.

Da área total de 1,1 milhao hectares, 15.5 mil hectares foram reservados para o plantio da soja. O lucro da safra é dividido. Os fazendeiros ficam com 50% e os índios com a outra metade. De cada R$ 10 que recebem, os Pareci aplicam R$ 5. O depósito é feito diretamente pelos produtores.

Segundo os índios o saldo já é de 2,3 milhões, mas o plantio da soja divide opiniões na tribo. O cacique geral, João Arromazae, afirmou que nem todas as aldeias recebem os benefícios. "Eu sou contra, há quatro anos eu não Vejo resultado nenhum da soja", reclamou o cacique.

Já os índios favoráveis a parceria afirmam que todos são beneficiados. Hoje os índios convivem com o tradicional e o moderno, onde muitas ocas têm aparelhos de televisor, DVD, celular e bomba dágua comprada com o dinheiro da soja. As índias do local gostam da parceria, pois antes elas buscavam água no rio.

O Ministério Público Federal resolveu investigar a sociedade entre os Pareci e os fazendeiros e solicitou cópias dos contratos. A direção regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) informou que a princípio as tribos têm autonomia para decidir o que fazer nas próprias terras, mas que ainda precisa estudar o caso.

De acordo com o administrador regional da Funai, Carlos Márcio Vieira, tudo que tiver como objetivo a autonomia dos índios é favorável. "Esta parceria ainda é um fator novo em experiência, mas estamos avaliando para saber se está sendo positivo ou não", contou o administrador da Funai.

A doutora em antropologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Maria Fátima Roberto Machado, afirmou que o plantio de soja em áreas indígenas é um risco para o meio ambiente e para a cultura dos índios. "A pressão econômica é muito forte e há um entendimento de que a vitória para os índios é, por exemplo, ter uma caminhonete, trocar uma rede de dormir por um sofá. Eu acho que isto é ilusão", disse a doutora Maria.

 

Fonte: Circuito MT

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