Regra federal sobre teor de gordura coloca em risco receita da Linguiça Blumenau

Publicado em 02/06/2026 16:20
Mudança reduz limite de gordura no embutido e provoca reação de produtores e lideranças em Santa Catarina.

Uma determinação do Governo Federal, baseada em orientações do Ministério da Agricultura e Pecuária, acendeu um alerta entre produtores do Vale do Itajaí ao alterar parâmetros da Linguiça Blumenau, embutido tradicional reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina. A medida reduz de 42% para 30% o percentual máximo de gordura permitido na composição do produto, atingindo diretamente a receita original.

A mudança provocou reação imediata de produtores e representantes do setor, que defendem a preservação das características históricas do alimento. Em entrevista ao Portal ND Mais, o diretor financeiro da Associação das Indústrias Produtoras de Linguiça Blumenau (Alblu), João Rodrigues de Souza Júnior, afirmou que a entidade pretende intensificar o diálogo com órgãos públicos para buscar uma solução.

“Temos a plena certeza de que seremos atendidos e teremos restabelecidos os parâmetros tradicionais da nossa linguiça Blumenau, que atende rigorosamente o caderno de especificações técnicas da Indicação Geográfica e da Norma Interna Regulamentadora oficial”, disse. Segundo ele, tanto a Secretaria de Agricultura, por meio da SAPE/Cidasc, quanto o Ministério da Agricultura são parceiros do setor, o que reforça a expectativa de entendimento.

Identidade regional

A Linguiça Blumenau possui selo de Indicação Geográfica concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial desde 2024, reconhecimento que consolida suas características históricas, territoriais e físico-químicas. Produzido há quase um século em 16 municípios do Vale do Itajaí e do Alto Vale, o embutido é elaborado exclusivamente com cortes suínos como paleta, pernil e toucinho.

O processo de fabricação inclui pelo menos dois dias em defumadores abastecidos com carvão e serragem, etapa considerada essencial para garantir o sabor e a identidade do produto. O selo obtido junto ao INPI, na categoria Indicação de Procedência, reforça justamente a ligação entre o método tradicional e a região de origem.

Diante da repercussão, o deputado estadual Napoleão Bernardes apresentou na Assembleia Legislativa de Santa Catarina uma Proposta de Sustação de Ato para tentar barrar os efeitos da Portaria nº 14/2026, editada pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária para atender às novas exigências federais.

“A Linguiça Blumenau não é apenas um alimento. Ela representa a história, a cultura, a imigração e a identidade do nosso povo. Não faz sentido uma decisão burocrática tomada em Brasília desfigurar uma receita tradicional construída há gerações e reconhecida oficialmente”, afirmou o parlamentar.

Na avaliação do deputado, a medida cria um conflito entre o reconhecimento da receita tradicional e a exigência técnica imposta. “Os produtores podem ficar no meio de um impasse absurdo: se seguem essa orientação, descaracterizam um produto protegido por Indicação Geográfica; se mantêm a receita original, ficam sujeitos a questionamentos sanitários e regulatórios. É uma insegurança jurídica completamente inaceitável”, disse.

Autor da lei que reconheceu a Linguiça Blumenau como patrimônio cultural catarinense, Napoleão Bernardes criticou o que classificou como interferência burocrática em uma tradição consolidada. A expectativa é de que a proposta avance na Alesc e amplie o debate sobre os limites da regulação federal em produtos tradicionais reconhecidos por sua origem.

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Clique Aqui para receber em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Por:
ND+
Fonte:
ND+

RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS DE DESTAQUE NO SEU E-MAIL CADASTRE-SE NA NOSSA NEWSLETTER

Ao continuar com o cadastro, você concorda com nosso Termo de Privacidade e Consentimento e a Política de Privacidade.

0 comentário