El Niño em 2026/27 pode redesenhar custos, oferta e equilíbrio climático no agro global
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As projeções de um El Niño mais intenso entre o fim de 2026 e o início de 2027 começam a reordenar as expectativas do agronegócio global, sobretudo pelo potencial de afetar simultaneamente clima, produção agrícola e formação de custos ao longo da cadeia alimentar. De acordo com a NOAA, há cerca de 63% de probabilidade de ocorrência de um evento forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, cenário que pode alterar o equilíbrio produtivo em diferentes regiões do mundo.
No Brasil, o ponto de atenção se concentra na combinação entre clima e insumos estratégicos da pecuária intensiva. Milho e farelo de soja, bases da alimentação de aves e suínos, podem sofrer variações de oferta, qualidade e preços em caso de instabilidade climática prolongada. Esse movimento tende a se refletir rapidamente nos custos de produção e nas margens das cadeias mais dependentes de ração.
Além da dimensão econômica, o padrão climático associado ao fenômeno também levanta preocupações regionais importantes. Informações do INMET indicam que episódios de El Niño costumam reduzir as chuvas no Norte e Nordeste, ao mesmo tempo em que aumentam os volumes pluviométricos na Região Sul, criando desequilíbrios que impactam diretamente o calendário agrícola.
Janela de plantio pode concentrar primeiros impactos da próxima safra
Apesar do cenário ainda estar em monitoramento, especialistas avaliam que os efeitos mais imediatos podem surgir já na fase de implantação da próxima safra agrícola. O analista da Safras & Mercado, Gabriel Viana, destaca que as lavouras atuais apresentam condições relativamente favoráveis, mas que esse quadro pode se modificar conforme a evolução do fenômeno climático.
Segundo ele, o principal risco está na sincronização entre clima e calendário agrícola. Mudanças na regularidade das chuvas podem afetar diretamente o início do plantio, especialmente em regiões de forte peso produtivo.
“O impacto mais relevante, caso o El Niño se intensifique, está no atraso do plantio e em possíveis dificuldades no desenvolvimento das lavouras no Centro-Oeste e também no Sul do país”, afirmou Viana.
Grãos podem sofrer efeitos em produtividade e qualidade
A preocupação com milho e soja vai além do volume colhido. O economista agroindustrial da Embrapa, Ari Jarbas Sandi, chama atenção para o fato de que o clima também influencia diretamente a qualidade sanitária dos grãos.
Em cenários de maior umidade ou instabilidade climática, cresce o risco de proliferação de micotoxinas, como aflatoxinas, fumonisinas, zearalenona e DON. Esses compostos afetam diretamente a nutrição animal, podendo reduzir o consumo de ração, prejudicar a conversão alimentar, diminuir ganho de peso e elevar taxas de mortalidade em sistemas intensivos.
Além do impacto biológico, há um efeito operacional relevante. A indústria de rações pode precisar ampliar controles laboratoriais e intensificar o uso de aditivos tecnológicos, aminoácidos sintéticos, enzimas e matérias-primas alternativas para manter padrões de desempenho e segurança alimentar.
Risco climático se espalha por toda a cadeia produtiva
Para Sandi, o ponto central não está apenas na produção agrícola isolada, mas na forma como diferentes elos da cadeia reagem ao mesmo tempo a um choque climático.
“O risco não é apenas produtivo. Ele ocorre quando produção, qualidade, disponibilidade e logística são afetadas simultaneamente. Em sistemas de aves e suínos, essa sincronização é crítica porque o ciclo biológico não permite ajustes rápidos”, explicou.
Na prática, isso significa que oscilações climáticas podem gerar efeitos em cascata: aumento do custo de alimentação animal, pressão sobre contratos de fornecimento, dificuldades logísticas e até atrasos no abate. Em sistemas integrados, qualquer desorganização tende a se amplificar.
Mercado de grãos deve reagir antes mesmo da colheita
As possíveis mudanças climáticas também influenciam decisões antecipadas no mercado agrícola, incluindo investimentos em tecnologia, expansão de área e estratégias de manejo. Gabriel Viana observa que o comportamento do clima pode alterar o nível de confiança dos produtores em relação à próxima safra.
Ele também alerta para impactos na qualidade final da produção. Condições adversas podem resultar em grãos com maior variação de padrão, o que afeta armazenamento, comercialização e precificação.
No mercado de soja, o analista Rafael Silveira destaca que os efeitos podem se prolongar até 2027, com potenciais ajustes na formação de preços do grão e, principalmente, do farelo utilizado na nutrição animal, componente central na cadeia de proteína.
Clima também afeta pastagens, custos e ambiência animal
Um levantamento técnico da equipe de pecuária do Cepea, ligado à Esalq/USP, reforça que os efeitos do El Niño devem ser analisados de forma integrada, envolvendo agricultura, pecuária e logística.
Entre os pontos de atenção estão a produção de forragens, a disponibilidade de água, o comportamento das pastagens e o conforto térmico dos animais. Tanto o excesso quanto a falta de chuva podem comprometer o manejo das propriedades rurais, afetando produtividade e custos.
Outro fator relevante é o aumento da demanda energética em períodos de calor mais intenso, já que sistemas de produção intensiva precisam reforçar a climatização das instalações para reduzir estresse térmico.
Aves e suínos são os sistemas mais sensíveis ao cenário climático
Dentro do setor pecuário, aves e suínos aparecem entre as cadeias mais expostas a variações climáticas e de insumos. Isso ocorre pela alta dependência de ração balanceada e pela sensibilidade fisiológica desses animais às condições ambientais.
Segundo o Cepea, temperaturas elevadas tendem a reduzir o consumo alimentar, afetando diretamente o desempenho produtivo e reprodutivo. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos de alimentação pode pressionar margens e comprometer a competitividade dos sistemas.
Diante desse quadro, especialistas reforçam a necessidade de monitoramento constante do clima, dos mercados de grãos e da disponibilidade de insumos. O El Niño, nesse contexto, passa a ser tratado como uma variável estratégica no planejamento do agronegócio.
Essa matéria foi reeditada com informações da AviNews.
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