Como a MerX está transformando rastreabilidade e dados agrícolas em receita para usinas e produtores rurais
Apesar do potencial do Renovabio para remunerar a descarbonização, muitas usinas brasileiras ainda operam com baixos índices de fração elegível, e utilizam parâmetros médios para calcular as emissões evitadas de carbono. Na prática, isso limita a capacidade de capturar valor dentro do programa, e reduz os benefícios econômicos que poderiam ser compartilhados ao longo da cadeia produtiva.
Foi nesse cenário que a MerX desenvolveu uma metodologia voltada à rastreabilidade e ao uso de dados primários da produção agrícola em certificações. Combinando tecnologia, governança e inteligência aplicada às cadeias agroindustriais, a agfintech apoia usinas na ampliação da fração elegível da matéria-prima e no aumento do potencial de geração de CBIOs.
Um dos exemplos mais recentes foi desenvolvido junto à Usimat, empresa do Grupo Sipal, conglomerado com receitas anuais acima de R$ 15bi, primeira usina flex do Brasil na produção de etanol de cana e milho. O trabalho envolveu mais de 190 produtores rurais, 478 propriedades monitoradas, cerca de 1,9 milhão de toneladas de biomassa e 500 mil hectares plantados livres de desmatamento após Novembro de 2017 — data limite para supressão de vegetação nativa do programa Renovabio.
O resultado foi um salto de 68,91% para 95,61% na fração elegível da operação, com 100% de uso de dados primários da fase agrícola — o maior índice entre as usinas integradas de milho e cana certificadas pela ANP — com potencial de gerar até R$ 15m anualmente com a emissão de CBIOs.
Mais do que uma certificação, o projeto demonstra que a rastreabilidade pode se transformar em um mecanismo de geração de valor para toda a cadeia. Ao comprovar a origem da matéria-prima e estruturar as informações dos dados primários, mensurando as emissões de carbono na fase agrícola, as usinas ampliam sua capacidade de gerar CBIOs e criam condições para compartilhar parte desse benefício econômico com os produtores participantes.
O valor escondido nos dados do campo
O diferencial do projeto desenvolvido para a Usimat foi a utilização de dados primários da produção agrícola. Em vez de trabalhar apenas com parâmetros médios, a certificação considerou informações diretamente coletadas junto aos produtores, incluindo uso de insumos e fertilizantes, produtividades reais, práticas agrícolas e conformidade ambiental.
Segundo Sarah Silva, da área de certificações e sustentabilidade da MerX, o principal desafio não está na disponibilidade dos dados, mas na capacidade de organizá-los, validá-los e transformá-los em informações auditáveis.
"Existe uma percepção de que as cadeias de grãos são complexas demais para trabalhar com dados primários. O projeto da Usimat mostrou que, com metodologia, tecnologia e governança, é possível transformar um grande volume de informações em valor para a cadeia. No caso da Usimat, atingimos uma pegada de carbono até 60% menor do que o benchmark do órgão regulador."
Para ela, quando os dados do campo passam a fazer parte da estratégia das usinas, a sustentabilidade deixa de ser apenas um requisito regulatório, e se torna uma ferramenta de competitividade, capaz de ampliar a geração de valor para o campo.
Mais valor com menos etanol
Com os novos parâmetros aprovados pela ANP, a Usimat passa a evitar a emissão de 1 tonelada de CO₂ a cada 757 litros de etanol comercializado, em comparação ao combustível fóssil substituído.
O resultado reflete diretamente a elevada eficiência ambiental do etanol produzido pela usina. De acordo com a certificação RenovaBio, o biocombustível da Usimat apresenta uma intensidade de carbono 74% inferior à do combustível fóssil de referência.
Os números ajudam a dimensionar o impacto desse desempenho. Considerando um potencial de produção de 450 milhões de litros de etanol por ano, a operação evita a emissão de até 594 mil toneladas de CO₂ equivalente, reconhecidas pela certificação do Renovabio e convertidas em CBIOs negociados na B3.
Para efeito de comparação, esse volume equivale a quase metade das emissões mensais de gases de efeito estufa da cidade de São Paulo. Segundo o 19º Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Município de São Paulo, divulgado pela Prefeitura, a capital paulista emitiu 14,7 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2024, sendo o setor de transportes responsável por cerca de dois terços desse total.
Em outras palavras, o potencial de descarbonização da Usimat corresponde a aproximadamente 49% de tudo o que a maior cidade do país emite em um mês.
Quando sustentabilidade deixa de ser custo
Uma das principais transformações provocadas pelo projeto está na forma como o produtor passa a enxergar a sustentabilidade. Ao fornecer informações que comprovam a origem da matéria-prima e ajudam a medir com maior precisão a pegada de carbono da produção, os agricultores passam a participar diretamente da geração de valor da cadeia, criando condições para que os benefícios econômicos da descarbonização também cheguem ao campo.
A proposta desenvolvida entre MerX e Usimat prevê mecanismos para que parte dos benefícios econômicos gerados pelo programa seja compartilhada com os produtores participantes.
Para Ricardo Lavarias, gerente administrativo do Grupo Sipal, a certificação representa mais do que um reconhecimento ambiental.
"Conseguimos construir uma cadeia altamente rastreável e demonstrar resultados concretos para o mercado. O mais importante é que esse modelo cria valor não apenas para a usina, mas também para os produtores que participam do processo. Sem dúvidas, durante este processo, reforçamos a conexão com nossos parceiros e fornecedores."
O próximo passo
Para Guilherme Dominici, sócio da MerX, o caso da Usimat representa apenas o início de novos paradigmas para a cadeia agrícola ligada aos biocombustíveis.
"Durante muito tempo, o mercado trabalhou com médias e referenciais. Com uso intensivo de tecnologia e IA, começamos a enxergar o valor dos dados reais. O produtor brasileiro já é mais eficiente do que muitos imaginam, estamos apenas provando isso com dados concretos. O desafio agora não é apenas produzir mais. É conseguir medir, comprovar e remunerar essa eficiência."
A próxima etapa será conectar rastreabilidade, redução de emissões e instrumentos financeiros capazes de ampliar os incentivos econômicos para produtores e indústrias. "Estamos estruturando um modelo que une rastreabilidade, inteligência de dados e mecanismos de crédito incentivado. O futuro do setor passa pela capacidade de transformar informações do campo em geração de valor econômico. Além de gerar valor com a certificação, a construção dos dados mitiga riscos de crédito e dá visibilidade financeira entre as partes."
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