Dia do Pecuarista: Na virada do ciclo pecuário, o crédito passa a valer tanto quanto a arroba
Todo ciclo pecuário cria oportunidades. A diferença é que nem sempre elas são aproveitadas por quem produz mais, mas por quem consegue agir mais rápido.
Depois de um período marcado pelo elevado abate de fêmeas, a pecuária brasileira entra em uma nova fase. A retenção de matrizes começa a reduzir a oferta futura de animais, enquanto a demanda pela carne bovina brasileira segue consistente nos mercados interno e internacional. Esse novo cenário tende a valorizar ainda mais a eficiência dentro da porteira, mas também exige uma mudança na forma como o pecuarista administra seu capital.
Na minha visão, essa será uma das grandes diferenças deste novo ciclo. O crédito deixa de ser uma solução para momentos de necessidade e passa a ser uma ferramenta estratégica de crescimento.
Durante muitos anos, o pecuarista precisava esperar o encerramento de um ciclo produtivo para iniciar outro. O capital permanecia imobilizado até a venda dos animais. Hoje, essa lógica já não faz mais sentido para uma pecuária cada vez mais intensiva e profissional.
É justamente nesse contexto que o boitel assume um papel diferente daquele que ocupava no passado. A “ferramenta” permite reduzir o tempo entre um investimento e outro. Quando um lote entra em fase de engorda, o agroinvestidor já consegue estruturar operações de crédito para adquirir novos animais e iniciar um novo ciclo produtivo. Isso significa colocar o capital para trabalhar continuamente, sem depender exclusivamente da liquidação de um lote para financiar o seguinte.
Essa talvez seja a principal mudança que estamos acompanhando no mercado.
O boi sempre foi um dos maiores patrimônios do pecuarista, mas nem sempre foi reconhecido pelo mercado financeiro como um ativo capaz de gerar liquidez durante o ciclo produtivo. Para quem vive dentro da porteira, essa visão já existe há um tempo, o que permite uma evolução importante nesse modelo. O crédito acompanha cada vez mais a dinâmica da atividade e permite que o pecuarista transforme patrimônio em capacidade de investimento.
Na prática, isso significa maior velocidade de giro, melhor aproveitamento das áreas de pastagem, aumento da escala de produção e mais competitividade.
Os números mostram que essa transformação já está em curso. O levantamento mais recente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) projeta que Mato Grosso deverá confinar aproximadamente 1,44 milhão de bovinos em 2026, um crescimento superior a 55% em relação ao ciclo anterior. O estudo também aponta melhora na relação de troca entre boi gordo e milho, redução dos custos da alimentação e maior utilização de instrumentos de comercialização antecipada e proteção de preços, demonstrando uma pecuária cada vez mais orientada pela gestão de risco e pela eficiência econômica.
Esse novo ambiente exige uma visão diferente também das instituições financeiras. Em um cenário de juros elevados, maior rigor na concessão de crédito e necessidade crescente de garantias consistentes, torna-se fundamental desenvolver soluções que acompanhem o ciclo da pecuária. O desafio já não é apenas oferecer recursos. É fazer com que o crédito esteja disponível no momento em que o criador de gado precisa tomar decisões estratégicas.
Quando isso acontece, o impacto vai muito além da operação financeira. O pecuarista consegue antecipar a compra de animais de reposição, aproveitar melhores oportunidades de mercado, aumentar o giro da fazenda e capturar com mais eficiência os ganhos proporcionados pela inversão do ciclo pecuário.
Na minha avaliação, a próxima evolução da pecuária brasileira será menos marcada pelo aumento do rebanho e muito mais pela eficiência na utilização dos ativos.
O Brasil continua investindo em genética, nutrição, sanidade e tecnologia. Mas o diferencial competitivo estará, cada vez mais, na capacidade de integrar produção, gestão financeira e crédito dentro de uma mesma estratégia. Porque, na pecuária moderna, a rentabilidade não depende apenas da arroba produzida. Ela depende, principalmente, da velocidade com que o pecuarista consegue transformar patrimônio em novas oportunidades de crescimento.
Henrique Schardong é diretor comercial da Plantae Agrocrédito, instituição financeira com clientes 100% agro. Possui experiência em modelos de financiamento para cadeias agroindustriais, com foco em operações ancoradas em contratos, eficiência de capital e gestão de risco. Atua especialmente nos segmentos sucroenergético e de grãos, acompanhando de perto o impacto do cenário macroeconômico nas decisões de investimento do setor.
0 comentário
Dia do Pecuarista: Na virada do ciclo pecuário, o crédito passa a valer tanto quanto a arroba
Do campo à mesa: como as cooperativas conectam o Brasil que produz ao Brasil que consome
Soja “a fixar” e a Reforma Tributária: valor de mercado no fornecimento, IBS/CBS e impactos no caixa das indústrias
El Niño acende alerta para a navegação no Arco Norte
Silvicultura brasileira cresce, passa por modernização e se torna referência em produtividade e sustentabilidade em três décadas
Incertezas: como transformar riscos em oportunidades