O Brasil está ficando sem vacas? O alerta para a pecuária de corte
Nos últimos anos, a pecuária de corte brasileira vem passando por uma transformação importante. Enquanto os investimentos em recria intensiva e confinamento aumentam em ritmo acelerado, a atividade de cria não acompanhou esse crescimento, limitando a oferta de bezerros e ampliando o desequilíbrio entre a oferta e a demanda por reposição.
Muitos pecuaristas migraram da atividade de cria para sistemas de recria e engorda em busca de maior giro de capital. Ao mesmo tempo, o elevado abate de novilhas para atender à demanda do mercado de carne bovina e a necessidade de geração de caixa em muitas propriedades também contribuíram para reduzir o número de fêmeas destinadas à reprodução.
Os números mostram a dimensão desse movimento. Em 2025, aproximadamente metade dos bovinos abatidos no Brasil foram fêmeas, um recorde histórico. Embora essa estratégia tenha atendido às necessidades do mercado no curto prazo, ela pode trazer consequências importantes para a oferta futura de bezerros.
Essa é justamente a preocupação. Podemos não estar diante de um ciclo pecuário tradicional, marcado por alternâncias relativamente previsíveis entre fases de alta e baixa. O mercado pode estar caminhando para uma mudança estrutural, em que a capacidade de produzir bezerros fique comprometida por vários anos. Recompor um rebanho de matrizes é um processo demorado e amargo.
Esse desequilíbrio já aparece na reposição. O ágio do bezerro permanece acima de 40%, refletindo uma oferta limitada diante de uma demanda aquecida. Se essa tendência continuar, a escassez poderá se intensificar, sustentando preços elevados para a reposição por um período prolongado.
Os Estados Unidos oferecem um exemplo interessante desse processo. Após anos de redução do rebanho, o país convive hoje com preços elevados da carne bovina. Entretanto, quem trabalha exclusivamente com recria e terminação enfrenta margens pressionadas pelo alto custo da reposição. Em contrapartida, quem produz bezerros tem capturado uma parcela cada vez maior da rentabilidade da cadeia.
O Brasil pode estar seguindo uma trajetória semelhante. Se isso ocorrer, a cria tende a assumir um papel ainda mais estratégico dentro da pecuária nacional.
Mais do que acompanhar apenas a cotação da arroba, será cada vez mais importante observar a disponibilidade de matrizes e a capacidade de produção de bezerros. Afinal, quem controla a "fábrica de bezerros" controla a principal matéria-prima da pecuária de corte.
Por isso, acredito que os investimentos em cria, reprodução e melhoramento genético podem representar uma das decisões mais estratégicas dos próximos anos. Em um cenário de oferta restrita, quem produzir bezerros de qualidade terá um ativo cada vez mais disputado pelo mercado. Afinal, a pecuária sempre começa na cria.
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