Brasil e Guiana vendem 20% mais petróleo à Europa no ano, embarque à China cai, diz Argus
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Por Marta Nogueira
RIO DE JANEIRO, 30 Jul (Reuters) - As importações europeias de petróleo do Brasil e da Guiana cresceram aproximadamente 20% no acumulado de 2026 até 28 de julho, à medida que refinarias do continente aumentam a preferência por barris latino-americanos mais baratos em substituição a cargas da África Ocidental, afirmou Lina Bulyk, responsável pela precificação de petróleos da consultoria Argus em Londres.
Segundo dados da Argus, as importações europeias de petróleo de ambos os países somaram em média cerca de 1,035 milhão de barris por dia (bpd) neste ano até 28 de julho, contra 865 mil bpd no mesmo período do ano passado. No caso do Brasil, as exportações para a Europa somaram 478 mil bpd, alta de 8,6% na mesma comparação, enquanto a Guiana vendeu 557 mil bpd, avanço de 31%.
"O petróleo brasileiro está cada vez mais atraente para refinarias europeias, oferecendo uma alternativa mais barata ao produto da África Ocidental em um momento em que os compradores buscam diversificar fontes de suprimento e proteger margens de refino", disse Bulyk à Reuters, pontuando que a commodity da América Latina é "consideravelmente" mais barata do que a da África Ocidental.
A especialista explicou que a diferença de preços reflete, em parte, características de qualidade dos diferentes tipos de petróleo. Os petróleos da África Ocidental costumam apresentar maior rendimento de derivados de valor agregado e menores teores de contaminantes, disse ela.
"Se uma refinaria consegue processar petróleo com as características da América Latina -- e a maioria das refinarias europeias consegue -- pode ser mais lucrativo utilizar esse tipo de matéria-prima", acrescentou.
O avanço acontece em um ano com forte volatilidade no mercado de petróleo Brent, incluindo máximas de cerca de US$120/barril, desde meados de 2022, por conta da guerra no Irã.
Entre as correntes disputadas no mercado internacional, Bulyk destacou que, ao longo dos últimos 12 meses, o petróleo do campo de Búzios -- com densidade intermediária e baixo teor de enxofre -- teve custo médio de US$5,50 por barril inferior ao do petróleo nigeriano Forcados, considerando a entrega no noroeste da Europa.
"Os petróleos Búzios e Forcados possuem grau API e teor de enxofre semelhantes. Forcados oferece rendimento ligeiramente maior de diesel -- atualmente o derivado de maior valor -- e contém menos componentes indesejáveis, como nitrogênio", explicou.
Também favorece o crescimento das exportações para a Europa a maior disponibilidade, tanto do Brasil, com novos recordes de produção no pré-sal, enquanto a Guiana se tornou nos últimos anos um "player" mais relevante no setor, com o desenvolvimento de descobertas no Atlântico equatorial.
RECUO DA CHINA
A procura mais fraca da China nos últimos meses também tem contribuído para a maior disponibilidade de barris para a Europa. De acordo com Bulyk, as margens de refino na Ásia perderam atratividade em relação às registradas no mercado europeu.
"Negociações monitoradas pela Argus apontam que as refinarias chinesas reduziram as compras de petróleo brasileiro para entrega em agosto e setembro em mais de um terço em comparação com os meses anteriores. As compras de produto para entrega em outubro também estão lentas", disse Bulyk.
"Comprar petróleo caro e vender derivados para exportação tornou-se economicamente menos viável para refinarias chinesas, levando-as a reduzir as compras tanto de petróleo latino-americano quanto de petróleo da África Ocidental."
Principal produtora de petróleo do Brasil, a Petrobras informou em relatório nesta semana que a participação da China nas suas exportações de petróleo caiu para 35% no segundo trimestre, ante 62% no primeiro trimestre, principalmente devido às medidas do país asiático para reduzir as importações diante do atual cenário de preços no mercado internacional.
Enquanto isso, a fatia da Europa nas exportações de petróleo da Petrobras cresceu para 18% no segundo trimestre, versus 8% no trimestre anterior, e da Índia subiu para 22% no segundo trimestre, contra 15% no período anterior.
Para a Argus, a presença brasileira no mercado europeu tende a aumentar nos próximos anos, impulsionada também pelo crescimento esperado da produção nacional.
"O Brasil já é um fornecedor regular de petróleo para a Europa, e sua posição tende a se fortalecer", afirmou Bulyk. "Diversas refinarias estão buscando aumentar suas compras de petróleo do Brasil e/ou da Guiana."
Com a expansão da oferta brasileira, ela avalia que os preços dos barris do país podem também sofrer pressão baixista, tornando-os ainda mais competitivos no mercado europeu.
(Reportagem de Marta Nogueira; edição de Roberto Samora)