Exportações de milho aceleram e agosto começa com sinais de maior demanda pelo produto brasileiro
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As exportações brasileiras de milho começam a apresentar sinais mais claros de aceleração neste início de agosto, justamente no momento em que o avanço da colheita da segunda safra amplia a disponibilidade do cereal para embarque. Embora julho tenha terminado com volume inferior ao registrado no mesmo mês de 2025, os dados mostram que o ritmo das exportações aumentou semana após semana, enquanto os primeiros embarques de agosto e o line-up apontam para uma demanda externa mais aquecida.
Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o Brasil exportou 1.943.229 toneladas de milho em julho de 2026, equivalente a 79,8% das 2.433.966,1 toneladas embarcadas em julho do ano passado. Nos 23 dias úteis do mês, a média diária ficou em 84.488,2 toneladas, 20,2% abaixo da média de 105.824 toneladas registrada no mesmo período de 2025.
O dado, porém, ganha outra leitura quando observado ao longo das semanas. Nos 13 primeiros dias úteis de julho, a média diária de embarques era de 60.515,8 toneladas. Nos 18 primeiros dias úteis, avançou para 74.882,8 toneladas e terminou o mês em 84.488,2 toneladas por dia.
Ou seja, apesar de o resultado acumulado ainda estar abaixo do ano passado, o fluxo de milho destinado ao mercado externo ganhou força à medida que a colheita da safrinha avançou no Brasil.
Para o analista de mercado da Royal Rural, Ronaldo Fernandes, esse movimento é importante porque o volume mais baixo de julho não representa necessariamente ausência de demanda internacional, mas uma limitação da disponibilidade de milho para embarque.
"O Lineup mostrou que tinha apetite para pelo menos 3 milhões, para mais de 3 milhões de toneladas. Só que não vai tudo isso em julho porque não tinha esse milho colhido, então vai em agosto."
Agosto começa com maior disponibilidade e demanda
O cenário projetado para agosto já é diferente. De acordo com Fernandes, o mês começou com aproximadamente 2,5 milhões de toneladas nomeadas para exportação, volume que ainda pode crescer. O analista também chama atenção para o aumento das nomeações destinadas ao Porto de Santos, que considera um sinal de que o mercado externo começa efetivamente a disputar o milho com a demanda interna.
"Quando começar a ganhar volume o Porto de Santos, aí sim o jogo de exportação já está acontecendo."
Os primeiros dados de agosto reforçam essa percepção. Segundo informações da Agrinvest, nos quatro primeiros dias do mês o Brasil já embarcou 481 mil toneladas de milho para o exterior. Entre os principais destinos estão o Vietnã, com 72 mil toneladas, a Arábia Saudita, com 79 mil toneladas, e a China, com 75 mil toneladas, além de volumes destinados a outros compradores.
Para os analistas da Agrinvest, o movimento mostra que o milho brasileiro está competitivo no mercado internacional.
A avaliação também encontra respaldo na leitura de Enilson Nogueira, da Céleres Consultoria. Segundo ele, a sazonalidade tradicional do comércio internacional de milho passa a favorecer o Brasil justamente a partir de meados de julho e durante agosto e setembro, período em que normalmente há maior intensidade do programa de exportações.
"Tradicionalmente a partir de meados de julho, agosto, setembro, onde a gente tem uma intensidade desse programa de exportação. Eu não vejo 26 como ano diferente dos anos anteriores em relação a essa sazonalidade."
Nogueira estima que, considerando o nível de produção da segunda safra, o Brasil deverá precisar exportar entre 35 milhões e 38 milhões de toneladas no ciclo, dependendo do comportamento da demanda internacional.
Espanha ganha destaque na demanda
Dentro desse cenário, a Espanha aparece como um dos mercados que podem determinar o tamanho das exportações brasileiras ao longo dos próximos meses.
Fernandes aponta que já existem aproximadamente 600 mil toneladas nomeadas para o país entre julho e agosto, sendo cerca de 300 mil toneladas em cada mês. Em julho de 2025, a Espanha havia embarcado 176 mil toneladas de milho brasileiro, enquanto para julho deste ano o volume nomeado já chegava a aproximadamente 300 mil toneladas.
Para agosto do ano passado, as compras espanholas ficaram próximas de 630 mil toneladas.
"Se agosto desse ano a Espanha levar mais que 600 mil toneladas, já pode deixar cravado escrito em pedra que a exportação total vai ser maior que 40 milhões de toneladas."
A competitividade brasileira, entretanto, será importante para transformar essa demanda potencial em embarques efetivos. Fernandes aponta que o milho brasileiro estava cotado ao redor de US$ 220 por tonelada nos portos, ante aproximadamente US$ 217 para o produto norte-americano e US$ 212 para o argentino.
"Line-up e exportação que vai definir a tendência se o milho está barato ou se está caro."
Mercado externo passa a disputar milho com demanda interna
A aceleração das exportações ocorre em um momento em que o mercado brasileiro também começa a olhar com maior atenção para a demanda doméstica.
De acordo com Nogueira, o consumo interno de milho, especialmente pelos setores de ração e etanol, deve crescer neste ciclo. A expectativa é de aumento de 2 milhões a 3 milhões de toneladas no setor de ração e de quase 5 milhões de toneladas no consumo destinado ao etanol de milho em relação ao ano passado.
Ao mesmo tempo, a segunda safra de 2025/26, embora elevada, não apresenta o mesmo nível de produção observado no ciclo anterior. A combinação de uma oferta um pouco menor com uma demanda interna maior tende a reduzir os estoques finais da temporada.
Nesse contexto, o avanço das exportações ganha ainda mais importância para a formação dos preços. Com o mercado já tendo absorvido boa parte da expectativa de uma grande produção brasileira, a atenção passa a se concentrar cada vez mais no comportamento da demanda.
"O olhar seria de fato para demanda, demanda externa e demanda interna. Eu falei também que qualquer movimento de queda que viesse seria rápido já para voltar a subir de novo, essa queda praticamente não veio", afirmou Fernandes.
Mesmo com a colheita da safrinha avançando, os preços do milho encontraram sustentação em julho. Segundo o analista, contratos em algumas regiões chegaram a recuar, mas voltaram a subir, enquanto os preços nos portos permaneceram próximos de R$ 66,00 por saca.
Cenário internacional pode abrir espaço adicional
Além da tradicional sazonalidade das exportações brasileiras, fatores externos podem contribuir para aumentar a demanda pelo milho nacional no segundo semestre.
Nogueira destaca que o Brasil terá de disputar espaço com Estados Unidos e Argentina, que também apresentam produto competitivo no mercado internacional. Por outro lado, a continuidade ou intensificação dos conflitos entre Rússia e Ucrânia pode reduzir a disponibilidade de milho ucraniano para exportação e abrir espaço para outras origens.
Outro fator citado pelo analista é o clima na Europa. Problemas relacionados ao calor intenso e perdas de produtividade nas lavouras de milho podem gerar uma necessidade adicional de importação por parte de países europeus.
"Então, pode ser que a gente tenha alguma surpresa positiva dos países europeus, ou dos países que demandam do milho europeu, comprando milho de outras origens. E bem ou mal, o Brasil tá com esse milho disponível, colhido nos armazéns agora a partir de julho."
Nesse cenário, a disponibilidade física brasileira deixa de ser uma limitação tão importante quanto foi em julho, justamente porque o avanço da colheita aumenta a quantidade de milho disponível para os embarques.
Para Fernandes, o comportamento do line-up nos próximos dias será fundamental para confirmar se a aceleração observada no início de agosto representa uma tendência mais consistente.
Os números da Secex mostram que julho terminou com média diária de 84.488,2 toneladas exportadas, contra 74.882,8 toneladas nos 18 primeiros dias úteis e 60.515,8 toneladas nos 13 primeiros dias úteis. Já os 481 mil toneladas embarcados nos primeiros quatro dias de agosto e o line-up de aproximadamente 2,5 milhões de toneladas apontam para um mês de maior intensidade.
Assim, depois de um julho marcado pela aceleração gradual dos embarques, agosto começa com uma combinação mais favorável: maior disponibilidade de milho no Brasil, demanda internacional ativa e produto brasileiro competitivo nos portos. O desempenho efetivo das exportações, especialmente nos próximos meses, será um dos principais fatores para definir o equilíbrio entre oferta e demanda e, consequentemente, o comportamento dos preços do milho no mercado brasileiro.
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