Sorgo ganha mercado, supera milho em preço e pode colocar Brasil entre os líderes globais da cultura
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O sorgo começa a viver uma mudança importante de patamar no Brasil, tanto de produção, como de mercado. Antes visto por muitos produtores como uma alternativa de menor custo - e, em muitos casos, apenas como um substituto do milho, principalmente na segunda safra - o cereal passa a conquistar mercado próprio, maior liquidez e novas oportunidades de comercialização, tanto dentro do país quanto no exterior.
Nos últimos meses, o mercado de grãos no Brasil viveu momentos em que o sorgo já pagava melhor do que o milho no porto de Santos, por exemplo, com preços cerca de R$ 2,50 por saca a mais, como relatou o diretor da Pátria Agronegócios, Cristiano Palavro. As condições dependiam dos prazos de entrega e pagamento. Comumente, os preços do sorgo variavam de 70% a 80% dos preços do milho. A realidade vem mudando, no entanto, por um cenário promissor de demandas interna e para exportação.
Em Goiás, maior estado produtor do grão no Brasil, também vinha registrando preços em seu mercado muito próximos aos preços do milho.
Para especialistas, esta expansão está apenas começando. Afinal, esse movimento ocorre paralelamente à abertura de um dos maiores mercados do mundo para o grão. A China, maior consumidora mundial de sorgo, abriu espaço para o produto brasileiro em um contexto de diversificação de fornecedores diante das tensões comerciais com os Estados Unidos, que é o maior exportador mundial, não querendo manter-se dependente de fornecedores limitados. Foi assim também em 2021, quando a nação asiática abriu seu mercado para o milho brasileiro diante da guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo.
Assim, o Brasil já conta com cerca de cinco empresas brasileiras habilitadas para a exportação para o país asiático, enquanto mais de 100 outras já buscam habilitação, ainda segundo Palavro. O país já exportou cerca de 20 navios de sorgo, totalizando 1,2 milhão de toneladas, com a China levando, portanto, 15% do total produzido por aqui.
E a China - maior mercado de sorgo do planeta - apenas acabou de abrir suas portas para o produto brasileiro.
Palavro afirma ainda que o potencial externo não se limita à China. Países do Norte da África e do Sul da Ásia também apresentam espaço para crescimento da demanda, especialmente considerando o avanço populacional dessas regiões. Ainda assim, vê maior potencial de crescimento no mercado interno, principalmente pela combinação entre alimentação animal e etanol. “Vejo mais potencial ainda no mercado interno”, diz o diretor da Pátria.
Confinamento bovino, indústria de rações e, mais recentemente, usinas de etanol vêm ampliando o consumo. “Existem muitos segmentos que já estão trabalhando com o sorgo como preferência e não como substituto”, explica Palavro.
Com mais compradores, novas indústrias consumidoras, genética aprimorada e uma característica agronômica particularmente valiosa diante dos riscos climáticos, o cereal começa a conquistar um espaço próprio na estratégia do produtor brasileiro.
MERCADO CRESCE JUNTO COM A PRODUÇÃO
A expansão da demanda acontece justamente quando o produtor brasileiro aumenta significativamente a área dedicada ao sorgo. Os últimos números da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) apontam que a área 2025/26 registrou um incremento de 32,9%, passando de 1,632 milhão para 2,168 milhões de hectares. Assim, a produção também deu um salto de mais de 20%, saindo de cerca de 6 milhões para quase 8 milhões de toneladas, mesmo diante de uma produtividade menor.
O Notícias Agrícolas já havia, em janeiro, adiantado a tendência e questionado sobre o potencial da demanda. As respostas são, portanto, bastante positivas.
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Goiás lidera esse movimento, com crescimento expressivo da área e produção de mais de 1,5 milhão de toneladas na safra 2025/26. Ao mesmo tempo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul - que foi o estado que liderou o aumento de área nesta temporada -, São Paulo e Mato Grosso também ampliaram o cultivo. A cultura ainda começa a se espalhar por regiões como Bahia, Piauí e Tocantins, aumentando a possibilidade de formação de novos polos de produção e comercialização.
E esta expansão pode ser ainda maior, conforme acredita Paulo Levinski, executivo comercial da Sementes Oilema. Segundo explicou em uma recente entrevista ao Notícias Agrícolas, o Brasil já trabalha com algo entre 2,1 milhões e 2,2 milhões de hectares de sorgo, mas somente o Matopiba poderia absorver aproximadamente 1 milhão de hectares da cultura. Ele estima ainda que somente a Bahia poderia chegar a algo entre 500 mil e 600 mil hectares.
A cultura passou por uma transformação genética importante nos últimos anos. Um dos antigos obstáculos à utilização do sorgo na alimentação animal estava relacionado ao tanino. Levinski destaca que os materiais disponíveis atualmente são muito diferentes dos híbridos utilizados no passado. Segundo o executivo, o trabalho de melhoramento genético reduziu drasticamente o problema, permitindo a utilização do sorgo de maneira muito mais ampla na alimentação animal. “O sorgo que se falava há 5, 10 anos já não é o mesmo que nós temos hoje”, afirma.
Ao mesmo tempo, ele afirma que o sorgo passou a ter características comerciais semelhantes às do milho em importantes mercados, inclusive na própria indústria de etanol, o que também justifica a precificação do grão superando a do milho em determinados momentos. “O sorgo hoje tem as mesmas propriedades comerciais que o milho. Por exemplo, etanol, ele produz a mesma quantidade de litros por tonelada”, afirma.
SEGURO PARA A SAFRINHA?
Do ponto de vista agronômico, a cultura apresenta características especialmente importante para o Brasil, com destaque, principalmente, a maior tolerância ao déficit hídrico e flexibilidade de plantio.
Levinski destaca que o sorgo demanda aproximadamente metade da água necessária pelo milho e pode ser uma alternativa para áreas em que o plantio ocorre mais tarde ou que apresentam menor disponibilidade hídrica.“Sorgo é segurança”, resume o executivo.
Segundo ele, enquanto o milho pode demandar algo próximo de 600 mm de chuva, o sorgo consegue produzir bem com volumes significativamente menores, na faixa de 250 a 300 milímetros, desde que a cultura tenha disponibilidade adequada de água em suas fases mais importantes.
Palavro apresenta raciocínio semelhante. Para ele, o sorgo pode ocupar justamente a janela de maior risco da safrinha, enquanto o produtor prioriza o milho no período mais favorável. A estratégia não significa substituir completamente o milho, mas distribuir o risco dentro da propriedade, plantando primeiro o milho, que é mais sensível à janela, e posteriormente o sorgo, que apresenta maior tolerância ao atraso.
O custo também permanece como uma das vantagens. Enquanto o custo do milho pode se aproximar de R$ 5 mil por hectare, o sorgo pode trabalhar em níveis próximos de R$ 3 mil a R$ 3,5 mil, dependendo da tecnologia e da produtividade buscada, conforme analisam os especialistas. Tais médias ainda variam bastante, porém, já sinalizam vantagens.
E é justamente essa combinação de fatores de produção e mercado que pode transformar a escala da cultura no Brasil.
Para Levinski, o potencial é tão grande que o país pode se tornar, nos próximos anos, um dos maiores produtores e exportadores mundiais de sorgo. Ele projeta que, dentro de três a quatro anos, o país possa assumir a liderança global na produção e também se consolidar como maior exportador.
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