Como será setembro com o El Niño e a chegada da primavera?
O mês de setembro começa com um cenário de contrastes para o produtor rural. Enquanto áreas do Sul e parte do Sudeste devem receber chuvas mais frequentes e acima da média, regiões importantes para a produção agrícola no Centro-Norte do Brasil ainda terão que lidar com déficit hídrico, calor e baixa regularidade das precipitações.
A mudança ocorre justamente em um período de transição para a primavera e de fortalecimento do El Niño, fenômeno que tende a intensificar seus efeitos sobre o regime de chuvas no Brasil ao longo dos próximos meses.
De acordo com a meteorologista Amanda Balbino, da Ampere Consultoria, setembro ainda apresenta algumas diferenças em relação ao padrão clássico esperado para um El Niño, mas o contraste entre as regiões produtoras deve ficar cada vez mais evidente.
“Setembro é um mês de transição para a primavera. Nós ainda teremos o principal destaque, o El Niño, trazendo seus efeitos mais clássicos, especialmente durante a estação da primavera, concentrando a chuva no Sul do país e trazendo um padrão mais seco para o Centro-Norte”, explica.
Sul e Sudeste podem ter recuperação da umidade do solo
No Sul, o padrão mais úmido deve continuar ao longo de setembro. A previsão também aponta condições mais favoráveis para o Sudeste e algumas áreas do Centro-Oeste, com possibilidade de chuvas acima da média.
Segundo Amanda, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina estão entre as áreas que podem apresentar uma recuperação mais consistente da umidade do solo durante o mês.
“Para as áreas do Sul, o padrão ainda continua bastante úmido, mas não só por lá. Sudeste e partes do Centro-Oeste também têm um cenário um pouco melhor, com chuvas acima da média”, afirma.
No Sudeste, o cenário é ainda mais favorável. A expectativa é de ocorrência de excedente hídrico, especialmente entre Minas Gerais e São Paulo.
Algumas áreas do Centro-Oeste também podem voltar a receber chuva, como Mato Grosso do Sul e Goiás. No entanto, a distribuição das precipitações será importante para definir o impacto efetivo sobre o solo e as atividades agrícolas.
Brasil Central segue com atenção voltada ao déficit hídrico
Se o cenário é mais favorável em parte do Sul e do Sudeste, o mesmo não ocorre nas regiões mais ao norte do país. Áreas do Mato Grosso, Goiás, Tocantins, oeste da Bahia, Piauí, Maranhão, Pará e Matopiba continuam no radar de atenção.
Nessas regiões, o tempo seco e quente deve continuar acelerando a perda de umidade do solo, principalmente durante a primeira quinzena de setembro.
“Esse padrão de tempo mais seco e quente acelera a perda de umidade do solo, e isso ainda deve persistir, pelo menos até a primeira quinzena de setembro, nessas regiões entre Mato Grosso, Matopiba e Pará”, alerta Amanda.
A expectativa é de que algumas chuvas comecem a aparecer de forma mais frequente na segunda metade do mês. O problema, segundo a meteorologista, é que inicialmente essas precipitações podem não ser suficientes para reverter o déficit.
“Em setembro, o principal destaque fica para a segunda quinzena do mês. Nós teremos algumas ocorrências de chuva dentro dessas regiões, mas muito pontuais, bastante irregulares, e não será uma chuva capaz de trazer uma diferença na umidade do solo”, explica.
Uma recuperação mais consistente, segundo a especialista, deve ocorrer a partir de outubro.
Produtor de soja precisa acompanhar as janelas de plantio
O cenário aumenta a preocupação dos produtores que se preparam para o início da safra de verão, especialmente os sojicultores do Brasil Central.
Em regiões como Mato Grosso, norte de Goiás, Tocantins e oeste da Bahia, a chegada das primeiras chuvas pode criar uma falsa impressão de regularização do regime hídrico.
“Pode haver dias com ocorrência de precipitação, com ocorrência de chuva, mas logo em seguida pode haver tempo seco novamente persistindo”, ressalta Amanda.
Por isso, a recomendação é que o produtor não considere apenas a ocorrência de uma chuva isolada, mas acompanhe a evolução das precipitações e as previsões de curto e médio prazo antes de definir as operações de campo.
“É importante que o produtor, dentro dessas regiões, esteja atento às previsões do tempo, para entender como vai ser a evolução da chuva ao longo do mês, identificar melhor as janelas de plantio e também, ao longo da primavera, identificar períodos onde a cultura pode encontrar maior risco”, orienta.
Primavera deve ampliar o contraste entre as regiões
Com a chegada da primavera, o padrão associado ao El Niño tende a ganhar força. Para o Brasil Central, a perspectiva é de uma estação mais seca, principalmente em determinados períodos da primavera.
Amanda destaca que o déficit hídrico pode ganhar força entre novembro e dezembro, atingindo importantes áreas produtoras.
“Esse déficit hídrico nessa porção mais central do país pode ultrapassar mais de 200 milímetros e fica um ponto de atenção, especialmente entre Mato Grosso e Goiás, regiões do noroeste de Minas, oeste da Bahia, Piauí, Tocantins, Maranhão e Pará”, afirma.
O cenário merece atenção principalmente para culturas como a soja, que podem atravessar fases mais sensíveis do desenvolvimento justamente durante períodos de menor disponibilidade de água.
“É um período em que a soja pode apresentar momentos mais sensíveis do seu estágio fenológico, mais sensíveis à disponibilidade de água”, explica a meteorologista.
Para o produtor, portanto, o desafio não estará apenas em decidir quando iniciar o plantio, mas também em acompanhar a distribuição das chuvas durante o desenvolvimento das lavouras.
El Niño deve ficar mais intenso
Outro fator que aumenta a preocupação para a primavera é o fortalecimento do El Niño. Segundo Amanda, o fenômeno já apresenta uma intensidade excepcional e deve ganhar ainda mais força a partir de setembro.
“O El Niño já está em proporções sem precedentes. Nós estamos numa temperatura, ali na região do seu monitoramento, que é no Pacífico Equatorial, acima do que já foi registrado desde a década de 80. Então, nós não temos um precedente como esse”, afirma.
A intensidade do fenômeno também dificulta as comparações com anos anteriores. Ainda assim, o comportamento mais conhecido do El Niño aponta para chuvas mais concentradas no Sul e maior tendência de tempo seco no Centro-Norte.
“O que a gente sabe do El Niño, principalmente quando ele está mais forte, é que ele traz seu efeito clássico: chuva concentrada no Sul, na primavera, e nas áreas do Centro-Norte do Brasil, um padrão mais seco, de déficit de precipitação”, explica.
A tendência é de que o fenômeno permaneça forte até o início de 2027. “No primeiro trimestre de 2027, nós ainda teremos um fenômeno de, pelo menos, forte intensidade”, afirma Amanda.
Calor também será um fator de atenção
Além da chuva irregular, o produtor terá que monitorar as temperaturas. O aquecimento observado no planeta, combinado à atuação do El Niño, pode favorecer a ocorrência de ondas de calor mais frequentes durante a primavera.
O alerta é maior para áreas do Sudeste e Centro-Oeste, onde a combinação entre menor disponibilidade de água e temperaturas elevadas pode aumentar o estresse sobre as lavouras.
“Nós teremos temperaturas bem mais elevadas, bem mais acima do que é o normal para essa época do ano”, destaca Amanda.
Segundo ela, o cenário reúne dois fatores de risco para a agricultura: chuva mais escassa em determinadas áreas e temperaturas elevadas.
“É uma combinação que acende também um alerta: tempo mais seco, ou seja, uma chuva um pouco mais escassa nessas áreas centrais e temperaturas bastante elevadas, um padrão mais quente. Então, um cenário que tende a favorecer mais o estresse hídrico para as culturas, para as lavouras a campo”, explica.
0 comentário
Outono começa com boa umidade no solo e condições favoráveis para a produção agrícola no Brasil, aponta Nottus
Nordeste enfrenta estiagem no interior enquanto chuva segue concentrada no litoral e extremo norte
El Niño aperta o cerco sobre o Nordeste e agrava seca em áreas agrícolas do Matopiba
El Niño deve trazer excesso de chuva ao Sul e seca ao Norte; como o fenômeno pode mexer a sua lavoura
El Niño deve elevar temperaturas no Centro-Oeste e agravar perda de umidade no campo