Recorde de recuperações judiciais no agro: o que o produtor precisa saber agora

O agronegócio brasileiro bateu um recorde que ninguém queria
Publicado em 01/09/2026 08:15

Segundo dados da Serasa Experian, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, cerca de 22% a mais do que no mesmo período do ano anterior, com Mato Grosso na liderança, somando 135 solicitações.

O número elevado decorre de um ambiente de crédito mais seletivo, combinado à manutenção de custos elevados de produção e ao maior nível de alavancagem dos produtores, que continua afetando o fluxo de caixa no campo. 

O movimento, contudo, não é isolado. No conjunto da economia, as recuperações judiciais cresceram cerca de 66% entre o 2º trimestre de 2023 e o 2º trimestre de 2026, alta puxada justamente pelo agronegócio, em um cenário marcado por juros elevados e crédito restrito.

Diante desse quadro, surge a pergunta inevitável: por que um setor produtivamente robusto atravessa uma crise jurídico-financeira? A resposta está na fragilidade financeira que se instalou no campo, ainda que a produção siga forte. 

As causas são estruturais e resultam da conjugação de fatores macro e microeconômicos: juros altos e encarecimento do crédito rural, que dificultam a rolagem de dívidas e inviabilizam a reestruturação extrajudicial; restrição na concessão de novos financiamentos, agravada pela percepção de risco dos bancos; compressão das margens, com queda dos preços das commodities e alta dos insumos; e quebras de safra e eventos climáticos, que fragilizam o fluxo de caixa e o adimplemento das cédulas de crédito rural.
Nesse contexto, a recuperação judicial surge como instrumento legítimo e eficiente, desde que bem utilizada.

A opção pelo instituto exige, antes de tudo, um diagnóstico honesto da viabilidade econômica do empreendimento, pois ele não se presta a postergar o inevitável, mas a reorganizar o que é recuperável. 

A análise deve contemplar a capacidade de geração de caixa futura, bem como a compatibilidade do plano de recuperação com a sazonalidade da atividade agropecuária e a real possibilidade de adimplemento das obrigações reestruturadas, devendo o plano observar a peculiaridade do ciclo produtivo rural (safra, entressafra e comercialização), sob pena de se tornar inexequível na prática, ainda que formalmente válido.

Por isso, antes de decidir pelo ajuizamento de uma recuperação judicial, recomenda-se uma análise criteriosa do endividamento, capaz de verificar a possibilidade de renegociação extrajudicial e de identificar precocemente cláusulas onerosas e riscos de inadimplemento. Essa avaliação orienta melhor a decisão do produtor, permitindo que a recuperação judicial seja empregada no momento e na medida adequados como ferramenta de reorganização, e não como último recurso desesperado.

O momento, portanto, é de responsabilidade redobrada, devendo-se separar o uso legítimo da recuperação judicial, do inadimplemento planejado, para preservar a credibilidade do agronegócio e proporcionar a segurança jurídica de todos os envolvidos.

Autora: Samária Zagretti, advogada, sócia da LPADV, supervisora da carteira de Processos Estratégicos.

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