Setor do milho vai cobrar próximo governo por infraestrutura, crédito e políticas que considerem diferenças regionais
O setor de milho chega à disputa presidencial com preocupações que vão muito além do aumento da produção. Enquanto a Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) cobra investimentos em armazenagem, irrigação e logística, além de um Plano Safra com horizonte plurianual, o analista Roberto Carlos Rafael, da Germinar Corretora, destaca problemas anteriores a qualquer política setorial, como o ambiente macroeconômico e o custo do crédito. Regionalmente, as pautas também variam. No Sealba, região que engloba Sergipe, Alagoas e Bahia, por exemplo, o produtor Gleiton Medeiros elenca Proagro e seguro rural como os principais entraves à continuidade da produção.
As diferentes prioridades mostram que o próximo governo terá de lidar não apenas com gargalos nacionais da cadeia, mas também com realidades regionais nas quais os mesmos problemas ganham pesos diferentes.
Infraestrutura e planejamento para sustentar o crescimento
Para o presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, uma das primeiras tarefas do próximo governo deveria ser retirar entraves que dificultam o avanço do setor produtivo e ampliar os investimentos em infraestrutura.
“Nós temos uma dificuldade enorme e cada vez mais crescente na questão da armazenagem de grãos, na questão também da irrigação, na logística de rodovias, ferrovias e portos, que são investimentos provenientes de uma política pública”, afirmou.
A armazenagem aparece como um dos exemplos mais evidentes desse descompasso. Em fórum promovido recentemente pela Abramilho, representantes do setor alertaram que a capacidade estática de armazenagem cresce em ritmo muito inferior ao avanço da produção de grãos, aumentando a necessidade de escoamento justamente nos períodos de maior concentração da oferta.
Para o milho, essa limitação ganha peso adicional por se tratar de um produto de menor valor agregado e mais sensível aos custos logísticos. A ampliação da industrialização dentro do país, com o avanço de segmentos como etanol de milho e produção de DDG, também aumenta a necessidade de manter o cereal disponível ao longo do ano para abastecer a demanda interna.
A irrigação é outro ponto defendido pela entidade. Em debates recentes realizados pela Abramilho, os principais entraves citados envolveram licenciamento ambiental, outorga de uso da água, disponibilidade de energia e infraestrutura hídrica. Mais do que ampliar a produção, participantes das discussões também apontaram a irrigação como ferramenta para reduzir riscos e aumentar a estabilidade produtiva.
Bertolini também defende uma mudança na lógica do Plano Safra. Para ele, a política deveria ser anunciada em conjunto com o Orçamento da União, no início do ano, e contar com um horizonte mais longo.
“Uma vez ao ano, lá em janeiro, você anuncia, mas que ele tenha uma durabilidade maior, um plano plurianual, olhando o Brasil de uma forma mais estratégica, visando uma ação mais profunda”, disse.
Na visão do presidente da Abramilho, um planejamento de maior duração permitiria olhar de forma mais estratégica para investimentos e necessidades que ultrapassam uma única safra.
Juros elevados podem travar até os investimentos considerados prioritários
Para o analista da Germinar Corretora, Roberto Carlos Rafael, porém, a discussão sobre infraestrutura começa antes: no ambiente macroeconômico e no custo do dinheiro necessário para financiar esses investimentos.
Na avaliação dele, o próximo governo deveria priorizar austeridade fiscal, controle da inflação e redução dos juros.
“É inconcebível ter um país como o nosso com 9% de juros real. Isso é impraticável”, afirmou Rafael, relacionando o atual custo do capital ao aumento das dificuldades financeiras observadas em diferentes setores da economia e também dentro do agronegócio.
Segundo o analista, uma economia com juros mais baixos ajudaria a destravar crédito, investimentos e capital de giro ao longo de toda a cadeia.
“Eu acho que o que a gente precisa é de um país com mais mercado e menos governo”, resumiu. Para ele, esse ambiente deveria incluir também menor carga tributária e maior espaço para atuação da iniciativa privada.
Apesar dessa defesa de menor dependência do Estado, Rafael vê papel importante para o governo na abertura de mercados e no estímulo à industrialização. O analista questiona a concentração das exportações brasileiras em produtos ainda pouco processados e defende políticas que incentivem maior agregação de valor dentro do país.
“Por que a gente vende tanta soja em grão, tanto milho em grão? Será que a gente não consegue implementar, com uma política junto com o governo, a ampliação do nosso parque de esmagamento, de refino, de industrialização, de produção de aves, suínos, bovinos?”, questionou.
Na avaliação dele, ampliar a transformação doméstica permitiria ao Brasil oferecer ao mercado internacional não apenas milho em grão, mas também carnes, etanol e DDG.
Rafael também cita a necessidade de ampliar e baratear o seguro rural e defende investimentos em armazenagem e logística, inclusive com linhas de financiamento mais acessíveis. Para ele, porém, a melhora dessas políticas depende primeiro de um ambiente econômico que reduza o custo do crédito.
No Sealba, o gargalo é outro
A hierarquia dos problemas muda quando a análise chega ao campo. Na região do Sealba, que reúne áreas de Sergipe, Alagoas e Bahia, o produtor Gleiton Medeiros coloca o seguro rural no topo da lista de demandas ao próximo presidente.
“O principal desafio para produzir milho no Sealba hoje é o seguro rural. O Proagro, principalmente, é o que sustenta toda a nossa pequena e média produção aqui da região”, afirmou.
Segundo Medeiros, as mudanças promovidas no programa reduziram sua capacidade de atender os produtores locais. Ele também critica o desenho do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que, na avaliação dele, não contempla adequadamente a produtividade da região.
“As políticas nacionais de crédito, seguro rural e gestão de risco hoje não atendem mais às nossas demandas. Principalmente as mudanças que fizeram na política do Proagro”, disse.
Questionado sobre qual seria a principal demanda a ser levada ao próximo presidente, Medeiros não hesitou. “Seguro rural e Proagro. Resolvendo a questão do Proagro e do PSR já resolve 80% dos problemas aqui dos produtores”, afirmou.
A prioridade atual contrasta com outros gargalos que já tiveram peso maior na região. Medeiros reconhece que ainda existem limitações na armazenagem, mas afirma que infraestrutura e acesso à tecnologia avançaram nos últimos anos e deixaram de ser os principais obstáculos.
“A infraestrutura já está melhorando bastante. A armazenagem ainda é em silo-bolsa devido ao custo da armazenagem em silo metálico e também tem muita área arrendada. Muita gente não investe no armazém metálico, mas o acesso à tecnologia já melhorou bastante”, explicou.
Assim, embora a armazenagem continue aparecendo como uma limitação, Medeiros relaciona o uso do silo-bolsa tanto ao custo das estruturas metálicas quanto à presença de áreas arrendadas na região.
No caso do Sealba, a preocupação com o seguro rural também não é nova. Em participações anteriores no Notícias Agrícolas, Medeiros já havia associado mudanças no Proagro à redução da área plantada e às dificuldades de acesso ao crédito na região. O tema permaneceu recorrente ao longo das últimas safras e agora aparece como a principal reivindicação levada ao debate presidencial.
As três visões mostram que a agenda do milho para o próximo governo dificilmente caberá em uma única política. Infraestrutura e planejamento de longo prazo aparecem entre as prioridades levantadas pela representação nacional do setor, enquanto o analista coloca juros e crédito na origem da capacidade de financiar esses investimentos.
No Sealba, porém, a discussão começa em outro ponto: na existência de instrumentos de gestão de risco que, segundo os produtores da região, permitam manter a atividade viável.
Para o próximo presidente, o desafio será lidar com demandas nacionais do setor sem perder de vista problemas que mudam de peso de uma região produtora para outra.
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