Produtor brasileiro já comprou 90% dos fertilizantes para a soja 2026/27, mas apenas 45% para milho do ano que vem
Produtor brasileiro já comprou 90% dos fertilizantes para a soja 2026/27, mas apenas 45% para milho do ano que vem
O produtor brasileiro entra no período de plantio da safra 2026/27 de soja com cerca de 90% dos fertilizantes já adquiridos, enquanto a preparação para a segunda safra de milho de 2027 avança em ritmo bem mais lento, com aproximadamente 45% das compras realizadas. Os números são estimados por Jeferson Souza, analista de fertilizantes da Agrinvest, que destaca diferenças importantes entre as regiões produtoras e aponta o crédito como principal limitador para novas aquisições neste momento.
No caso da soja, Mato Grosso está praticamente preparado para iniciar a semeadura a partir da segunda quinzena de setembro, caso as condições climáticas permitam. No Rio Grande do Sul, onde o calendário de plantio é mais tardio, cerca de 65% das compras foram realizadas, deixando maior espaço para novas negociações nas próximas semanas.
Segundo Souza, esse produtor encontra hoje condições de troca melhores do que as observadas há alguns meses. A valorização recente da soja ajudou a compensar parte do custo dos fertilizantes, enquanto alguns produtos também registraram queda nas cotações. O superfosfato simples, por exemplo, recuou mais de 30% desde abril, segundo o analista.
“Eu não posso dizer para você que o preço é o problema do fertilizante fosfatado”, afirmou. “Se eu fosse elencar o principal fator hoje para eu ter uma limitação no uso de fósforo e de fertilizantes no Brasil, eu diria que é crédito.”
Apesar da melhora das relações de troca, Souza avalia que muitos produtores não devem rever decisões tomadas anteriormente de reduzir a aplicação de fósforo nesta temporada. Segundo ele, a alta dos fosfatados observada anteriormente deteriorou o poder de compra e levou agricultores a redefinirem o manejo.
“Portanto, nesse ano de 2026 para a temporada 2026/2027, o produtor brasileiro vai usar menos fósforo na lavoura. Isso é algo que eu já tenho 100% de certeza”, destacou.
O analista ressalta ainda que este deve ser o terceiro ano consecutivo de racionalização do uso de fósforo por parte de alguns produtores. A continuidade desse movimento, porém, dependerá das condições individuais de cada propriedade. Dependendo da fertilidade do solo e da extração acumulada, algumas áreas poderão precisar rever a estratégia e aumentar novamente a reposição a partir da temporada 2027/28.
Safrinha tem 55% das compras ainda em aberto
Para a segunda safra de milho de 2027, o cenário é mais aberto. A estimativa da Agrinvest é de que aproximadamente 45% das necessidades de fertilizantes estejam contratadas no país, mas o avanço varia significativamente entre as regiões.
Mato Grosso aparece mais adiantado, próximo de 65%, enquanto Paraná e Mato Grosso do Sul estão ao redor de 40%. Goiás permanece abaixo de 30% e, em Maranhão, Piauí e Tocantins, as compras ainda não chegam a 20%.
Nesse último grupo de estados, Souza relaciona o menor avanço também às dúvidas sobre a área que efetivamente será destinada ao milho. A incerteza climática e seus possíveis impactos sobre a janela da segunda safra fazem produtores evitarem assumir antecipadamente compromissos para uma área que ainda pode ser revista.
Do ponto de vista econômico, porém, o cenário atual não é considerado desfavorável pelo analista. A valorização do milho melhorou o poder de compra e colocou a relação de troca com fertilizantes dentro dos padrões históricos.
“Não é a melhor de todos os tempos, não posso dizer para você que o preço está fantástico, mas nós tivemos uma queda bem forte de abril até agora”, afirmou.
Para Souza, ainda existe tempo para avançar nas aquisições destinadas à safrinha, embora essa avaliação precise considerar as particularidades logísticas de cada região. O produtor também precisa acompanhar o risco de esperar por condições melhores em um mercado no qual o Brasil permanece fortemente dependente das importações.
Nitrogenados exigem atenção
Esse risco aparece principalmente nos nitrogenados. Souza afirma que a oferta brasileira está mais ajustada do que no ano passado após os impactos dos conflitos no Oriente Médio sobre o comércio internacional.
Segundo o analista, cerca de 40% da ureia importada pelo Brasil em 2025 teve origem no Oriente Médio. Neste ano, as compras brasileiras de nitrogenados provenientes da região recuaram aproximadamente 50% na comparação anual.
Apesar disso, Souza ressalta que não há falta de produto no mercado brasileiro neste momento. A menor importação foi parcialmente compensada pelo aumento da produção doméstica e também encontra uma demanda mais retraída.
“Nós não temos um excesso de oferta, hoje, de nitrogenado no Brasil, porém, eu também não vejo falta. Nós temos que considerar esses dois pontos”, explicou.
A continuidade das tensões geopolíticas mantém, contudo, um fator adicional de risco para quem ainda precisa comprar. Para o analista, o problema não está apenas na disponibilidade atual, mas no encurtamento progressivo da janela para tomada de decisão.
“Se eu tivesse todo o tempo do mundo para esperar, ok, uma hora essa guerra acaba ou encontra-se uma saída. Mas eu não tenho todo esse tempo. Cada dia que passa, minha janela vai se encurtando. E o Brasil é um país importador.”
Uma possível ampliação das exportações chinesas de ureia pode aliviar novamente a oferta mundial nas próximas semanas. Souza destaca, porém, que ainda não é possível assegurar uma nova rodada de vendas chinesas e que os próximos 30 dias serão importantes para avaliar seus efeitos sobre as cotações.
Assim, tanto para os produtores que ainda finalizam as compras da soja quanto para aqueles que começam a definir os insumos da segunda safra de milho, o cenário atual combina relações de troca mais favoráveis com limitações de crédito e riscos de esperar demais em um mercado internacional ainda instável.
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