Custo da soja sobe e rentabilidade deve cair 35% na safra 26/27, aponta estudo do Imea/Senar MT

Os dados foram apresentados aos produtores rurais em Brasnorte e fazem parte do Projeto Custo de Produção Agropecuário de Mato Grosso
Publicado em 10/09/2026 11:02

O custo total para produzir soja em Mato Grosso deve chegar a R$ 8,17 mil por hectare na safra 2026/27, enquanto a rentabilidade projetada deve recuar 35,05% em relação ao ciclo anterior. Os dados integram o Projeto Custo de Produção Agropecuário de Mato Grosso (CPA MT), realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso (Senar MT) e pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), e foram apresentados nesta quarta-feira (9), em Brasnorte, aos produtores rurais.

Segundo o Imea, o CPA apresenta informações que permitem avaliar desde os custos necessários para implantação das lavouras até os resultados econômicos projetados para diferentes sistemas de produção. 

Para a safra 2026/27, os dados mostram um cenário de maior atenção para as margens da soja e do milho, enquanto a pecuária de corte apresenta recuperação de rentabilidade em meio ao ciclo de alta da atividade. 

Em relação à soja, por exemplo, a área cultivada para a próxima temporada está estimada em 13,04 milhões de hectares no estado, um crescimento de 0,25%. No entanto, a produtividade projetada recua 5,43%, para 62,44 sacas por hectare, levando a uma produção estimada de 48,88 milhões de toneladas, queda de 5,19%.

Ao mesmo tempo, os custos para o sojicultor avançaram. O custeio da lavoura chegou a R$ 4.323,22 por hectare, alta de 3,39%, enquanto o Custo Operacional Efetivo (COE) alcançou R$ 6.012,39/ha e o Custo Total (CT) chegou a R$ 8.171,41/ha, aumento de 16,69%.

Nesse cenário, a receita bruta projetada não é suficiente para cobrir o Custo Total da atividade. O indicador de rentabilidade, o Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Lajida), está estimado em R$ 1.069,47 por hectare, queda de 35,05% em relação à safra anterior e de 53,50% ante a média das últimas cinco safras.

Apesar do cenário de margens mais apertadas, a comercialização da safra da soja segue avançada no estado. Até agosto de 2026, 39,12% da produção projetada para 2026/27 já havia sido negociada, em ritmo superior ao registrado no mesmo período do ciclo anterior.

De acordo com a analista de custos de produção do Imea, Milena Habeck, o levantamento da soja para a próxima temporada está praticamente concluído, enquanto um dos principais pontos de atenção está no milho da segunda safra, especialmente pelo impacto dos fertilizantes sobre o custeio. 

“Hoje nós temos um cenário em que a receita bruta não cobre o Custo Total, que inclui até o custo de oportunidade do capital investido para o produtor. Mas temos que olhar o cenário de COE, onde as margens ficam um pouco mais apertadas. É interessante que os produtores continuem monitorando os próximos passos de rentabilidade, acompanhando os outros pilares, que são preço e produtividade, para fechar a rentabilidade da temporada”, diz.

Em relação ao milho, que encerrou a safra 2025/26 com recorde histórico em Mato Grosso, a produtividade consolidada chegou a 130,11 sacas por hectare, enquanto a produção atingiu 58,04 milhões de toneladas.

Para a safra 2026/27, segundo previsão do Imea, a área deve avançar 0,59%, para 7,48 milhões de hectares. A produtividade, entretanto, está projetada em 119,64 sacas por hectare, um recuo de 8,05%, resultando em uma produção de 53,68 milhões de toneladas.

Além da perspectiva de menor produtividade, o produtor enfrenta custos mais elevados. O custeio do milho de alta tecnologia subiu 13,83%, chegando a R$ 3.778,76 por hectare. A receita bruta estimada em R$ 5.388,93/ha não cobre o Custo Operacional Efetivo e fica R$ 1.987,15 abaixo do Custo Total, calculado em R$ 7.376,08/ha. Já o Lajida projetado para o sistema é de apenas R$ 122,26 por hectare, queda de 88,16% em relação ao ciclo anterior.

Outro ponto destacado pelo levantamento é a transformação do mercado de milho em Mato Grosso. O consumo interno deve crescer 16,23% na safra 2026/27, chegando a 27,04 milhões de toneladas, impulsionado principalmente pela expansão das indústrias de etanol de milho.

Quais seriam as alternativas para o produtor?

Segundo o Imea, o CPA-MT compara diferentes sistemas e culturas como forma de avaliar alternativas de rentabilidade. Na próxima safra, o sistema Soja + Algodão apresenta Lajida projetado de R$ 4.273,64/ha, 258,61% acima do sistema Soja + Milho, estimado em R$ 1.191,73/ha. 

O estudo, porém, destaca que o algodão demanda maior investimento inicial e apresenta maior exposição a riscos. Enquanto isso, Soja + Gergelim também aparece acima do sistema Soja + Milho, com Lajida projetado em R$ 1.718,48/ha.

Entre as culturas analisadas, o feijão de terceira safra apresenta uma das projeções mais positivas, com Lajida estimado em R$ 2.832,97 por hectare, alta de 216,60%, favorecido pela valorização do preço médio de venda, estimado em R$ 297,48 por saca.

Na outra ponta, a cana-de-açúcar enfrenta pressão sobre a rentabilidade, influenciada pela queda de 22,96% no preço projetado da tonelada, para R$ 123,38/t. O Lajida estimado para a cultura é negativo em R$ 698,08 por hectare.

Para o diretor de Relações Institucionais da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Ronaldo Vinha, que também acompanhou o lançamento do CPA MT em Brasnorte, o levantamento publicado é um guia de apoio à tomada de decisão no campo. 

“O CPA é de suma importância para o produtor rural, porque traz informações que ajudam a entender o cenário da produção e a tomar decisões com mais segurança. Ter acesso aos custos e aos indicadores de rentabilidade é fundamental para planejar a próxima safra, identificar os pontos que precisam ser ajustados e buscar uma atividade cada vez mais eficiente e sustentável”, pontuou.

De acordo com o presidente do Sindicato Rural de Brasnorte, Sandro Manosso, as projeções apresentadas pelo Imea e Senar são uma referência para comparar os resultados da própria propriedade e identificar pontos que podem ser ajustados antes da próxima safra. Ele avalia que custos acima da média e resultados abaixo do esperado devem servir como sinal para revisar o planejamento e o manejo da produção.

“Se a gente tiver abaixo nos resultados e os custos de produção acima da média, então é hora de o produtor parar e ver onde errou para tentar acertar. Com esses dados do Imea a nível de estado, é muito importante para a gente tomar essas decisões”, destaca.

Na avaliação do produtor, os custos de produção, o clima e principalmente a oscilação dos preços das commodities estão entre as principais preocupações para a próxima temporada, fatores que podem reduzir a margem e aumentar a insegurança na tomada de decisão.

“Hoje a gente tem o custo de produção e preocupa um pouquinho o clima. Mas o mais importante aí é o preço das commodities, que fica variando, trazendo insegurança ao produtor e diminuindo a rentabilidade”, finaliza.

Representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também participaram do evento e acompanharam a apresentação dos resultados do CPA MT e apresentaram dados do Circuito de Resultados do Projeto Campo Futuro 2026, realizado nas cinco regiões do país.

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