Primavera chega sob El Niño forte: o que esperar da próxima estação

Chuva acima da média deve marcar o Centro-Sul, enquanto irregularidade e períodos mais secos exigem atenção em áreas do Matopiba e Norte
Publicado em 18/09/2026 12:16

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A primavera começa oficialmente no Brasil na próxima segunda-feira (22), às 21h05, e deve ser marcada pela atuação de um El Niño forte e por um cenário de chuva bastante desigual entre as regiões do país. Para o agronegócio, a principal questão ao longo dos próximos três meses não será apenas quanto vai chover, mas como essa chuva será distribuída durante o ciclo das lavouras.

Durante coletiva de imprensa realizada pela Nottus nesta quinta-feira (17), o CEO da empresa e meteorologista Alexandre Nascimento destacou que o fenômeno já apresenta anomalia superior a 2°C no Pacífico equatorial e pode ganhar ainda mais intensidade entre o fim de 2026 e o início de 2027. A expectativa é de que o El Niño permaneça atuante durante a primavera e o verão, podendo chegar ao primeiro trimestre de 2027 ainda na categoria muito forte.

Apesar da intensidade do fenômeno, Nascimento ressaltou que não é possível determinar o comportamento do clima brasileiro apenas a partir do El Niño. Outros fatores, como as temperaturas dos oceanos Atlântico e Pacífico e diferentes padrões de circulação atmosférica, também interferem na distribuição das chuvas.

“O El Niño não vai sair lá do Pacífico. Os efeitos dele somados a outros efeitos é que podem fazer com que a região sofra uma coisa ou outra. Existe uma combinação de inúmeros fatores”, explicou.

Centro-Sul deve concentrar as chuvas

De acordo com a previsão apresentada pela Nottus, a primavera deve manter um padrão de precipitações mais frequentes e volumosas entre o Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Em outubro, as chuvas mais intensas devem se concentrar principalmente no Sul, em São Paulo e Mato Grosso do Sul, mas também podem atingir, em alguns períodos, áreas de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Mato Grosso.

Para novembro, a tendência é de manutenção desse corredor de chuvas, com aumento dos volumes em algumas áreas. Em dezembro, o padrão deve continuar, com precipitações acima da média no Sul e avanço das chuvas para outras áreas do Sudeste e Centro-Oeste.

O cenário, segundo Nascimento, é diferente do observado em 2023 e 2024. Naqueles anos, sistemas frontais ficaram bloqueados durante períodos prolongados sobre o Rio Grande do Sul, favorecendo a concentração de grandes volumes de chuva em pouco tempo.

“Esse ano está muito diferente, porque praticamente todas as frentes frias que estão chegando ao Sul estão conseguindo subir, ora até o Paraná, ora até São Paulo. Nos últimos eventos choveu em Minas bastante, choveu bastante no Centro-Oeste”, afirmou.
Isso não significa, porém, ausência de risco de eventos extremos. A distribuição mais ampla da chuva reduz a concentração dos episódios em uma única área, mas volumes elevados ainda podem provocar transtornos localizados.

O meteorologista citou como exemplo o Vale do Ribeira, em São Paulo, que já registrou volumes superiores a 300 milímetros em algumas áreas em setembro.

Excesso de chuva entra no radar do produtor

Para a agricultura, o excesso de umidade pode ser tão relevante quanto a falta dela. No Sul, principalmente em Santa Catarina e Paraná, a expectativa de chuvas acima da média exige atenção às condições de solo, plantio, desenvolvimento das culturas e operações no campo.

O Rio Grande do Sul também permanece no radar, embora o comportamento previsto seja diferente daquele observado nos eventos extremos de 2023 e 2024.

Nascimento destacou, inclusive, uma situação atípica observada em setembro: enquanto várias áreas do Centro-Sul receberam volumes elevados, partes do Rio Grande do Sul registraram chuva abaixo do normal.

“Para o milho, agora que eles já estão semeando, está tendo que ligar pivô para fazer irrigação. Ano de El Niño irrigando lá no Rio Grande do Sul”, comentou.

Chuva favorece início da safra no Centro-Oeste e Sudeste

Já para importantes áreas agrícolas do Sudeste e Centro-Oeste, a previsão é considerada positiva para o início da safra de verão.

A alternância entre períodos de chuva e de maior calor deve favorecer a retomada do desenvolvimento vegetativo. Nascimento avalia que as condições podem contribuir para uma boa safra brasileira, embora o comportamento da chuva ao longo do ciclo continue sendo determinante.

“Entre os estados do Paraná, Sudeste e Centro-Oeste, aí está uma grande porcentagem da safra brasileira. Então a gente tem realmente uma grande chance de ter uma ótima safra esse ano”, afirmou.

Um dos pontos de atenção está relacionado à segunda safra. Caso a estação chuvosa termine mais cedo, o milho safrinha pode encontrar condições menos favoráveis, especialmente em áreas onde o calendário de plantio depender da manutenção da umidade no solo.

Matopiba terá chuva mais irregular

No Matopiba, que reúne áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a situação é diferente.

A previsão indica precipitações mais irregulares e, em determinados períodos, abaixo da média. O mesmo vale para partes do Norte e para áreas do norte de Minas Gerais, Goiás e nordeste de Mato Grosso.

Nascimento fez questão de diferenciar chuva abaixo da média de ausência de chuva.

“Não é sem chuva, é uma chuva um pouco mais irregular, com volumes abaixo da média. A agricultura não precisa chover mais do que o normal. É diferente de energia. Mas precisa chover de forma um pouco regular”, explicou.

Segundo ele, intervalos de cerca de dez dias entre boas chuvas podem ser administráveis em algumas áreas, especialmente quando há boa condição de solo e cobertura com palhada. Ainda assim, a região exigirá acompanhamento mais próximo durante o avanço da estação.

Reservatórios entram na primavera em situação mais confortável

Outro efeito importante do cenário climático está relacionado à disponibilidade de água.

Nascimento destacou que a chuva registrada nos últimos meses ajudou a evitar uma queda mais acentuada dos reservatórios durante o período seco. Segundo ele, a primavera chega com uma espécie de “poupança” de água, em uma situação diferente de anos de El Niño em que o país já vinha de períodos prolongados de déficit hídrico.

Em São Paulo, por exemplo, o meteorologista citou volumes superiores a 250 milímetros registrados em alguns pontos nos primeiros dias de setembro, contribuindo para a recuperação dos níveis dos reservatórios.

Na região metropolitana de Belo Horizonte, também foram registrados volumes elevados de chuva sobre áreas de contribuição dos principais reservatórios.

A expectativa de continuidade das chuvas no Centro-Sul durante outubro, novembro e dezembro pode beneficiar ainda os rios e reservatórios associados à geração de energia.

“Os principais rios e reservatórios do país” estão justamente em áreas que devem receber volumes significativos de chuva, observou Nascimento.

Calor também será destaque

Além das chuvas, a primavera deve apresentar temperaturas acima da média em boa parte do país.

As ondas de calor mais intensas e prolongadas tendem a se concentrar no Norte e Nordeste. No Sudeste e Centro-Oeste, a tendência também é de temperaturas acima do normal, mas com períodos de calor intenso menos persistentes.

O cenário reforça a importância de acompanhar conjuntamente temperatura e umidade, principalmente durante as fases iniciais de desenvolvimento das lavouras.

Para Nascimento, a primavera de 2026 não deve ser interpretada simplesmente como uma estação de “seca” ou “chuva” provocada pelo El Niño. A combinação de diferentes fatores climáticos será determinante para definir onde haverá excesso, falta ou melhor distribuição das precipitações.
 

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