Bom Dia Agro - Geopolítica dita o ritmo dos grãos entre colheita nos EUA e incertezas climáticas no Brasil

Em meio a tensões no Leste Europeu e expectativas de acordos comerciais entre EUA e China, analista recomenda cautela e vendas fracionadas para a safra futura. Com a participação de Ronaldo Fernandes, diretor da Royal Rural.
Publicado em 22/09/2026 09:03 | Atualizado em 22/09/2026 09:59
Carla Mendes

O mercado de commodities agrícolas inicia a semana sob forte influência do cenário macroeconômico e de tensões geopolíticas internacionais. Enquanto o avanço acelerado da colheita nos Estados Unidos tende a exercer pressão sazonal de baixa sobre as cotações na Bolsa de Chicago, a intensificação dos conflitos bélicos entre Rússia e Ucrânia e as negociações bilaterais de alto nível sustentam os preços em patamares elevados.

Tensões internacionais e colheita norte-americana

Apesar do ritmo satisfatório dos trabalhos de campo no cinturão agrícola dos Estados Unidos, o impacto baixista da oferta vem sendo neutralizado por fatores externos. Ataques recentes a infraestruturas portuárias e armazéns de grãos na Ucrânia, além de ataques com drones em território russo, reativaram o prêmio de risco no mercado financeiro global. Paralelamente, os desdobramentos diplomáticos e a expectativa de diálogo entre o ex-presidente Donald Trump e o líder chinês Xi Jinping em Washington colocam as relações comerciais e as tarifas de importação no radar dos operadores.

Segundo Ronaldo Fernandes, diretor da Royal Rural, a geopolítica é atualmente o principal vetor de sustentação das cotações. "A geopolítica está dando o preço dos grãos e a eleição está dando o preço do câmbio. Nós deveríamos assistir a um dia de queda para os preços por conta do avanço da colheita americana, mas o mercado recuperou por causa de guerra. Enquanto essa guerra intensificar, a tendência é de alta e está longe de bater no teto", destacou o analista.

Recomendações para a comercialização de soja no Brasil

No cenário doméstico brasileiro, os preços nos portos operam com certa estabilidade, com negócios para a safra disponível na faixa de R$ 163,00 por saca, e cotações para a safra futura entre R$ 150,00 e R$ 155,00 para entrega em fevereiro e março com pagamento em abril. Contudo, as indefinições meteorológicas trazidas pelo padrão climático geram cautela quanto à produtividade final.

Fernandes alerta o produtor para que adote uma estratégia disciplinada de proteção de preços, evitando compromissos excessivos antes da definição da safra: "A minha sugestão é: venda um pouquinho de soja futura nesses preços de porto, mas não venda tudo. Se o clima piorar e tivermos uma quebra, vender a R$ 150,00 colhendo 70 sacos por hectare é ótimo, mas colhendo 60 sacos a história é outra. Façam travas que deixem margem para ir travando mais à frente".

Mercado de milho e avanço recorde nas exportações de sorgo

O milho atravessa um período de disputa entre o abastecimento das indústrias internas e a janela de exportações. Historicamente dependente do escoamento do segundo semestre, o produto nacional monitora a capacidade da Ucrânia em embarcar volumes para Europa e Ásia, bem como a competitividade do grão norte-americano nos próximos meses.

Um ponto inédito no comércio exterior brasileiro é o salto expressivo nos embarques de sorgo, impulsionado pela alteração na formulação de rações na China, que busca substituir parcialmente o milho e o farelo de soja. Os números apontam cerca de 1 milhão de toneladas registradas na programação de navios (line-up) para setembro. "Nunca na história do Brasil nós exportamos tanto sorgo como estamos exportando agora. É uma demanda nova que tira do milho e que tende a ser perene", ressaltou Fernandes.

Implicações para o setor

O atual ciclo exige dos agricultores e tradings uma gestão de risco apurada. A volatilidade cambial somada aos riscos logísticos no Mar Negro e à evolução do clima no Centro-Oeste brasileiro continuarão calibrando as margens operacionais. Vendas escalonadas e o acompanhamento diário das condições agronômicas de plantio permanecem como as melhores ferramentas para garantir rentabilidade em um ambiente global instável.

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