Geopolítica dita o rumo dos mercados agrícolas e sustenta preços de soja e milho, avalia especialista
Soja e milho seguem influenciados pela política e economia em todo mundo; BR segue com oportunidades
As oscilações e tendências dos preços internacionais das commodities agrícolas continuam fortemente atreladas ao cenário geopolítico global. A avaliação foi feita por Ronaldo Fernandes, diretor da Royal Rural, em entrevista à jornalista Carla Mendes no programa Bom Dia Agronegócio. Segundo o analista, fatores como a intensificação da guerra entre Rússia e Ucrânia, disputas comerciais entre Estados Unidos e China e o ambiente eleitoral norte-americano estão sobrepondo fundamentos produtivos, como a evolução da colheita nos Estados Unidos.
De acordo com Fernandes, o mercado de grãos em Chicago deveria estar enfrentando pressão de baixa com o avanço rápido e tecnificado da colheita norte-americana. No entanto, o recrudescimento dos ataques entre Rússia e Ucrânia contra infraestruturas portuárias e armazéns de grãos em regiões estratégicas como Odessa, Kherson e Zaporíjia voltou a trazer prêmio de risco para os preços.
"Se não fosse o cenário de guerra e o cenário político, os preços estariam em outro nível. A gente só tem esse nível de preço de soja e de milho por causa da geopolítica", destacou o diretor da Royal Rural, lembrando que em 2022, no auge dos ataques a instalações semelhantes, a soja atingiu patamares de US$ 17 por bushel e o milho bateu US$ 8 por bushel em Chicago.
Outro ponto de atenção no radar geopolítico envolve os possíveis desdobramentos de negociações entre os líderes norte-americanos e chineses, especialmente diante da proximidade das eleições nos Estados Unidos e das tratativas sobre tarifas e vendas de armamentos a Taiwan. Segundo Fernandes, a soja figura como uma moeda de troca tradicional nessas disputas comerciais.
Atualmente, a China mantém uma tarifa de 10% sobre a soja norte-americana para indústrias privadas, de modo que as aquisições recentes nos EUA foram realizadas diretamente pelo governo chinês. O especialista pontuou que o mercado aguarda se haverá retirada dessas sobretaxas ou novos acordos que garantam demandas adicionais aos norte-americanos. Por outro lado, para o Brasil, a relação de fornecimento com Pequim segue consolidada, visto que nenhum outro competidor possui capacidade de suprir sozinho o volume total importado pelo país asiático.
No mercado físico brasileiro, os preços da soja disponível operam de forma lateralizada, com valores ao redor de R$ 163 por saca no Porto de Santos, sustentados pela forte demanda das indústrias internas. Já para a safra futura (2024/25 e posteriores), as referências no porto giram entre R$ 151 e R$ 155 por saca para entregas no primeiro semestre.
Fernandes reforçou uma recomendação de cautela e disciplina nas vendas antecipadas: "Venda um pouquinho de soja futura nesses preços de porto, mas não venda tudo. A frase de atenção é: pouquinho. Não é para travar muito". A justificativa reside no fator climático e na incerteza da produtividade da próxima safra. "Se o El Niño vier com força total e a produção não for tão boa, R$ 150 ainda não é o teto. Se tiver quebra de produtividade, a história muda", alertou, orientando o produtor a fazer médias em pequenos lotes.
Mercado de milho e o avanço inédito do sorgo brasileiro
Sobre o milho, o analista relembrou suas projeções feitas no meio do ano, quando previu a valorização das cotações em plena colheita no Brasil devido a quebras produtivas em estados como Goiás, Minas Gerais e São Paulo. Atualmente, o mercado interno tenta desacelerar os preços para conter o ímpeto exportador e garantir abastecimento antes de outubro.
A partir do próximo mês, o foco global volta-se para a temporada de exportação de milho da Ucrânia. Caso o fluxo ucraniano seja interrompido por conta do conflito, os compradores – como Europa e China – terão que direcionar suas compras para os Estados Unidos ou para o Brasil.
Por fim, Ronaldo Fernandes chamou a atenção para um movimento histórico na exportação brasileira: o embarque expressivo de sorgo para o mercado internacional, impulsionado pela mudança na formulação de rações na China, que busca alternativas ao farelo de soja e ao milho com o uso de sorgo e DDG. O país já exportou mais de 230 mil toneladas no acumulado do ano e conta com mais de 1 milhão de toneladas programadas na fila dos portos em setembro, consolidando uma nova e relevante via de demanda externa para o agronegócio nacional.
*Com auxílio da IA
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