Petróleo volta a superar US$ 105 após ameaças na ONU e mantém pressão sobre logística e empresas
O petróleo voltou a subir com força nesta quinta-feira (24), depois que discursos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aumentaram a percepção de que um acordo para encerrar o conflito ainda está distante.
O Brent, referência internacional, chegou a US$ 106,39 por barril durante a madrugada, alta de 3,21%, antes de reduzir parte dos ganhos. O WTI também avançava e era negociado próximo de US$ 94. Na véspera, o Brent havia subido quase 4%, depois de cinco sessões consecutivas de queda.
O movimento mostra a sensibilidade do mercado às perspectivas diplomáticas. Depois de sinais de que Estados Unidos e Irã poderiam avançar em negociações, os discursos na ONU foram interpretados pelos investidores como indicação de que as partes continuam distantes. Segundo analistas ouvidos pela imprensa internacional, a consequência foi a retomada das expectativas de um período mais prolongado de preços elevados do petróleo.
Além da questão diplomática, permanecem os riscos físicos para a oferta e o transporte. O Estreito de Ormuz continua operando muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito, enquanto ataques contra embarcações e a possibilidade de abertura de novas frentes aumentam a incerteza sobre as rotas marítimas.
Para as empresas brasileiras, o problema não está restrito ao preço do barril. Petróleo mais caro, diesel pressionado, fretes internacionais elevados, seguros mais caros, mudanças de rotas e prazos de entrega maiores podem atingir custos, margens e capital de giro.
ONU recoloca risco geopolítico no preço do petróleo
O mercado vinha acompanhando com atenção as negociações indiretas entre Washington e Teerã e a possibilidade de algum acordo que permitisse reduzir as restrições no Estreito de Ormuz. Essa expectativa ajudou a derrubar o Brent para cerca de US$ 100 no início da semana. Em 20 de setembro, o contrato chegou a fechar a US$ 100,34, queda de 3,4%, em meio à expectativa de avanço diplomático e à recuperação parcial dos embarques sauditas.
O quadro mudou após os discursos na ONU. Trump havia ameaçado, em seu discurso, destruir o regime iraniano caso não houvesse um acordo. No dia seguinte, Pezeshkian afirmou que o Irã não se renderia à pressão americana e reiterou a posição de Teerã no conflito. O mercado interpretou a troca de declarações como sinal de maior dificuldade para uma solução diplomática no curto prazo.
“O que o mercado está precificando não é apenas a declaração feita na ONU, mas a possibilidade de que ela represente uma distância maior entre as partes e, consequentemente, um conflito mais prolongado. Para as empresas, essa diferença é importante porque muda a perspectiva de duração do choque de custos”, afirma Mauro Lourenço Dias, presidente do Fiorde Group.
Segundo ele, a dificuldade de estabelecer um horizonte para a crise aumenta a complexidade das decisões empresariais. “Uma alta temporária pode ser administrada. O problema é quando a empresa não consegue estabelecer uma referência para os próximos meses. Fica mais difícil definir preços, negociar contratos, programar compras e decidir o nível adequado de estoque”, explica Mauro.
Ormuz continua no centro do problema
A reação do petróleo também está relacionada ao risco sobre o Estreito de Ormuz, uma das principais passagens mundiais para o transporte de petróleo e gás. Antes da guerra, cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás passava pela região. Desde o início do conflito, o tráfego de embarcações caiu drasticamente, e o bloqueio ou a restrição prolongada da passagem continua sendo um dos principais fatores de risco para o mercado.
A situação voltou a ganhar dimensão logística nesta semana depois que uma embarcação comercial foi atingida no estreito, deixando um tripulante morto e provocando a evacuação de outros trabalhadores, segundo informações divulgadas pela Marinha de Omã.
Os Estados Unidos também informaram que seu bloqueio naval já havia redirecionado 115 embarcações comerciais que entravam ou saíam de portos iranianos. Para as empresas, o problema passa a ser tanto o preço quanto a disponibilidade e a previsibilidade do transporte.
“Hoje, não basta saber quanto custa transportar uma carga. É preciso saber quanto tempo ela vai levar, qual rota será utilizada e qual será o custo efetivo no momento do embarque. A previsibilidade passou a ter valor econômico para as empresas”, afirma Mauro.
East-West voltou a operar, mas não significa normalização
Um dos elementos que ajudaram a aliviar a pressão sobre o petróleo nos últimos dias foi a recuperação parcial dos embarques da Arábia Saudita. O país aumentou o volume de petróleo transportado pelo Estreito de Ormuz depois dos ataques que atingiram instalações associadas ao oleoduto East-West. Dados de rastreamento indicaram que o fluxo de petróleo saudita pelo estreito chegou a aproximadamente 2,9 milhões de barris por dia em determinado período, contra cerca de 700 mil barris por dia em agosto.
A recuperação dos embarques contribuiu para a queda do Brent para perto de US$ 100 no início da semana. Mas a melhora não eliminou o risco. Enquanto a situação militar e diplomática continuar indefinida, operadores de navios, seguradoras e empresas de logística precisam trabalhar com a possibilidade de novas restrições.
“É importante diferenciar recuperação de normalização. Alguns fluxos estão voltando, mas as empresas continuam tomando decisões em um ambiente de risco elevado. Enquanto as rotas não recuperarem uma condição de previsibilidade, o mercado continuará incorporando um prêmio de risco”, afirma Mauro.
Diesel e frete levam o problema para a economia brasileira
No Brasil, o impacto do petróleo internacional aparece principalmente por meio dos combustíveis e da logística. O preço médio do diesel S-10 chegou a R$ 7,13 por litro na semana passada, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), alta de 2,3% em uma semana e maior valor desde maio. Cerca de 30% do diesel consumido no país é importado, o que deixa o mercado doméstico exposto às condições internacionais.
A pressão sobre o combustível pode atingir transportadoras e empresas de diferentes setores, especialmente aquelas que dependem intensamente do transporte rodoviário. “Quando o petróleo sobe em um ambiente de conflito, a preocupação das empresas não deve ficar restrita ao combustível. O impacto se espalha pelo transporte, pelos insumos e pela própria formação de preços. Isso reduz margem e aumenta a dificuldade de projetar custos para os próximos meses”, afirma Mauro.
A pressão também chega ao transporte marítimo. Fretes e seguros podem aumentar à medida que as companhias evitam determinadas áreas, adotam rotas alternativas ou incorporam o risco de interrupções aos preços cobrados dos clientes.
Importadores sentem pressão em duas pontas
Empresas brasileiras que dependem de componentes, matérias-primas ou produtos provenientes da Ásia e do Oriente Médio estão entre as mais expostas. Uma alteração de rota pode aumentar simultaneamente o frete e o tempo de trânsito. Para uma indústria, isso pode significar necessidade de estoque adicional, maior capital de giro e risco de interrupção da produção.
“O importador pode sentir a pressão em duas pontas: no valor da mercadoria e no custo para transportá-la. Mesmo quando existe produto disponível, uma rota mais longa ou mais arriscada pode aumentar o frete, o seguro e o prazo de entrega”, explica Mauro.
Exportadores também precisam considerar o cenário. Preços internacionais mais altos podem favorecer determinados produtos brasileiros, mas esse eventual benefício pode ser parcialmente compensado pelo aumento dos custos logísticos e pela menor previsibilidade das rotas.
O efeito não se limita às empresas que comercializam diretamente com o Oriente Médio. Alterações nas principais rotas marítimas podem afetar cadeias que conectam Ásia, Europa e América Latina.
Risco logístico passa a fazer parte da formação de preços
O principal desafio para as empresas é a perda de previsibilidade. Mesmo que não ocorra uma interrupção completa das rotas, a percepção de risco pode alterar fretes, seguros, prazos e decisões de estoque.
Nesse ambiente, uma empresa que trabalha apenas com o custo atual pode ficar exposta a uma mudança brusca nas condições de transporte. “Não significa necessariamente aumentar estoque de forma indiscriminada. Significa saber quais produtos são críticos, quais fornecedores podem ser substituídos, quais rotas existem e qual é o impacto financeiro de cada alternativa. A empresa precisa conhecer seu grau de exposição ao risco logístico”, afirma Mauro.
A revisão de contratos de transporte e fornecimento, a diversificação de fornecedores, a avaliação de estoques estratégicos e o acompanhamento dos custos de seguro e frete ganham importância.
Petróleo mais caro pode alimentar pressão sobre inflação
A persistência do petróleo acima de US$ 100 também aumenta a preocupação com a inflação. O efeito pode ocorrer por diferentes canais. Combustíveis mais caros elevam custos de transporte, enquanto energia e derivados de petróleo influenciam diversos insumos utilizados pela indústria.
Para o Brasil, o cenário tem uma particularidade. O país é produtor e exportador de petróleo, o que pode favorecer receitas relacionadas à commodity, mas não o isola da formação internacional de preços.
“O Brasil ter produção própria de petróleo é uma vantagem importante, mas não significa isolamento. O preço internacional influencia combustíveis, logística e diversas cadeias produtivas. Se essa pressão permanecer, o efeito pode chegar a custos, inflação, crédito e consumo”, afirma Mauro. A preocupação aumenta porque um choque persistente de energia pode dificultar a trajetória de desinflação e, consequentemente, reduzir o espaço para uma queda mais rápida dos juros.
Empresas precisam trabalhar com cenários
A principal mudança para as companhias, diante desse ambiente, é deixar de trabalhar com uma única projeção para petróleo, frete e prazo de entrega. O planejamento precisa considerar diferentes combinações de preços de energia, custos logísticos e disponibilidade de fornecedores.
“Não é possível controlar o preço internacional do petróleo ou o que acontece em uma rota marítima. O que a empresa consegue controlar é o grau de preparação. É preciso saber quais produtos são críticos, quais fornecedores podem ser substituídos e quais alternativas logísticas existem”, afirma Mauro.
A construção de cenários também permite medir previamente o impacto sobre as margens. “Planejamento não significa tentar prever exatamente o que vai acontecer. Significa entender o impacto financeiro de diferentes possibilidades. Se o petróleo fica em US$ 95, vai para US$ 105 ou volta a US$ 110, a empresa precisa saber antecipadamente como cada cenário afeta sua margem e suas decisões”, explica.
Crise diplomática também virou variável econômica
A alta desta quinta-feira reforça uma característica particular do atual mercado de petróleo: as cotações estão reagindo não apenas a interrupções efetivas de oferta, mas também à percepção de risco sobre o que pode acontecer nos próximos dias e semanas. A expectativa de avanço diplomático ajudou o Brent a recuar para perto de US$ 100. Já a percepção de que as negociações podem se prolongar, reforçada pelos discursos na ONU, devolveu o barril para acima de US$ 105.
Para as empresas brasileiras, isso significa que acompanhar apenas a cotação do petróleo deixou de ser suficiente. É necessário observar também as negociações entre Estados Unidos e Irã, o funcionamento do Estreito de Ormuz, os ataques contra embarcações, os fluxos de petróleo saudita, os fretes internacionais e os custos de seguro.
“O desafio não é acertar exatamente o próximo movimento do petróleo. É reduzir a surpresa quando ele acontecer. A empresa que conhece seus custos, fornecedores, contratos e alternativas logísticas consegue reagir mais rapidamente quando o cenário muda”, conclui Mauro Lourenço Dias.
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