Trump não vai ganhar Nobel da Paz deste ano, mas pode influenciar decisão, dizem especialistas

Publicado em 01/10/2026 09:35 | Atualizado em 01/10/2026 10:43

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Por Gwladys Fouche

OSLO, 1 Out (Reuters) - O presidente dos EUA, Donald Trump, não receberá o Prêmio Nobel da Paz deste ano, uma vez que está em guerra com o Irã, mas sua influência ainda será sentida pelo comitê que escolhe o laureado, segundo especialistas.

A concessão do prêmio no ano passado à venezuelana María Corina Machado foi única nos 125 anos de história do prêmio, ocorrendo em meio a repetidas pressões de Trump para obter o prêmio. Semanas depois, Machado entregou sua medalha de ouro do Nobel a Trump, em uma tentativa de conquistar apoio para seus esforços em prol de uma Venezuela democrática.

Este ano, o comitê de cinco membros terá o cuidado de escolher alguém capaz de resistir à pressão de Trump, segundo Haakon Gjerloew, diretor interino do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo.

“Acho que os eventos do ano passado em torno do Prêmio Nobel da Paz, com María Corina Machado entregando-o a Trump posteriormente, afetarão algumas das considerações que eles farão”, disse ele à Reuters.

“Uma preocupação que o comitê possa ter é se a concessão do prêmio a alguém poderia colocá-lo sob pressão de Donald Trump... Acho que o comitê vai avaliar se o prêmio traz mais prejuízos do que benefícios.”

Isso poderia significar a concessão do prêmio ao papa Leão, ao Tribunal Penal Internacional, à Corte Internacional de Justiça ou a Francesca Albanese, relatora especial da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados, afirmam especialistas. O anúncio está previsto para 9 de outubro.

Leão, o primeiro papa nascido nos Estados Unidos, afirmou que continuaria a se manifestar contra a guerra, depois que o presidente o chamou de “fraco” por criticar o conflito dos EUA com o Irã.

A encíclica do papa sobre IA, sua defesa do diálogo e da resolução pacífica de conflitos, seus apelos pelo respeito aos imigrantes e seu trabalho humanitário poderiam justificar a concessão do prêmio.

“O papa representa mais do que apenas uma figura religiosa. Ele se destacou como um importante líder intelectual”, disse Karim Haggag, diretor do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, à Reuters.

Já a italiana Albanese tem sido alvo de críticas dos EUA e de Israel por suas críticas à conduta de Israel na guerra contra o Hamas em Gaza e à ocupação da Cisjordânia.

ESCOLHA MAIS SEGURA?

É certo que os eventos chocantes do ano passado podem ter o efeito oposto sobre o comitê: optar por uma escolha segura e incontroversa, menos propensa a antagonizar Trump, que culpou a Noruega — onde o prêmio é decidido — por não ter lhe concedido a honraria da última vez.

Isso poderia significar reconhecer as Salas de Resposta a Emergências do Sudão — uma rede sudanesa de grupos comunitários que prestaram ajuda durante a guerra civil — ou a organização não governamental Save the Children, por ajudar crianças em conflitos.

Mas o comitê também está sob escrutínio para enfrentar os desafios de Trump à ordem internacional que o comitê valoriza, disse Oeivind Stenersen, historiador que escreveu sobre o Prêmio Nobel da Paz.

“Eles enfrentam uma certa pressão... para serem firmes contra Trump”, declarou ele à Reuters. “Nesta grave situação internacional, este ano exige um Prêmio da Paz em defesa da democracia liberal, do direito internacional e dos direitos humanos.”

Isso poderia significar homenagear o TPI em um momento em que Washington está preparando sanções abrangentes contra o tribunal global, segundo fontes, enquanto uma concessão do prêmio à CIJ apoiaria o respeito à soberania dos Estados-nação e a resolução pacífica de disputas.

Trump teria sido indicado pelos líderes do Camboja, de Israel e do Paquistão, mas suas chances são “bastante baixas”, segundo Gjerloew.

A pressão de Trump sobre o Comitê Norueguês do Nobel surpreendeu muitos, incluindo a ganhadora do Prêmio Nobel da Paz Maria Ressa, jornalista filipina e norte-americana, que disse ter assistido ao que aconteceu no ano passado com “horror”.

“Os valentões não mandam no mundo”, disse ela à Reuters durante uma visita a Oslo em setembro. “Existem princípios pelos quais nos regemos. O poder não justifica tudo.”

(Reportagem adicional de Tom Little em Estocolmo)

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