Paraguai lança crédito a 8,5% ao ano e garantia pública para ampliar atração de indústrias brasileiras
O Paraguai colocou em operação uma nova linha de crédito de US$ 100 milhões para financiar investimentos industriais, com juros de 8,5% ao ano em dólares ou 10,5% em guaranis, prazo de até 15 anos e carência de três anos. Os recursos podem ser usados para construir fábricas, ampliar plantas existentes e comprar máquinas, equipamentos e outros itens de tecnologia e estarão disponíveis a partir de 1 de outubro.
Batizado de Paraguay Industrial, o programa acrescenta financiamento de longo prazo à estratégia do país para estimular investimentos produtivos, principalmente de origem internacional. Dados do Ministério da Indústria e Comércio (MIC) apontam 165 firmas do regime de Maquila, na qual exportadores pagam alíquota de 1% de imposto, com participação de capital brasileiro, integral ou misto.
Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações das indústrias maquiladoras alcançaram US$ 1,01 bilhão, crescimento de 26% sobre o mesmo período de 2025. Cerca de 60% tiveram o Brasil como destino. Autopeças responderam por 32% do valor exportado e têxteis e confecções, por 16%.
Para Suelen Raizer, fundadora da Frontexa, consultoria que assessora empresas brasileiras na avaliação e estruturação de operações internacionais para ganho de competitividade, o financiamento adiciona uma nova variável à decisão sobre onde instalar ou ampliar capacidade produtiva.
“O Paraguai já vinha atraindo capital brasileiro por fatores tributários e de custo de produção. Agora, crédito de longo prazo e garantia passam a fazer parte dessa equação. Para uma indústria que está decidindo onde fazer sua próxima expansão, são condições que precisam entrar na comparação”, afirma.
Taxa fica abaixo da média recente dos financiamentos do BNDES
Segundo o Banco Central, a taxa média das novas operações de financiamento de investimentos para pessoas jurídicas com recursos do BNDES ficou em 13,33% ao ano em julho de 2026. A taxa de 8,5% do programa paraguaio está 4,83 pontos percentuais abaixo dessa média.
A diferença nominal, porém, não significa que o financiamento será necessariamente mais barato para qualquer empresa brasileira. Os 8,5% são cobrados em dólares. Uma companhia que assume dívida na moeda americana, mas gera receitas em reais ou guaranis, fica exposta à variação cambial. No Brasil, o custo também varia conforme a linha contratada, o perfil da empresa, a finalidade do investimento, as garantias e a instituição financeira.
“A taxa chama atenção, mas não pode ser analisada isoladamente. É preciso considerar a moeda da dívida e da receita, o custo total do financiamento, prazo, carência e garantias. Para uma indústria exportadora que recebe em dólares, por exemplo, a análise pode ser bastante diferente daquela de uma empresa voltada ao mercado doméstico”, explica Suelen.
Além do crédito, o Paraguai criou o Fundo de Garantia para a Indústria (Fogain), que pode cobrir até 50% do risco em operações de até US$ 2,5 milhões. O mecanismo busca facilitar o acesso de empresas que não disponham de garantias suficientes para a contratação do financiamento.
O Paraguay Industrial é operado pela Agência Financeira de Desenvolvimento (AFD) em parceria com o MIC. Bancos, financeiras e cooperativas credenciados fazem a análise das operações, enquanto o ministério verifica o enquadramento dos projetos. O programa contempla indústrias de médio e grande porte em setores como alimentos e agroindústria, metalmecânica, têxteis e confecções, madeira e outras manufaturas.
Crédito industrial avança no Paraguai
A nova linha chega em um momento de expansão do financiamento à indústria no país. Em 2026, a AFD informou ter aprovado US$ 108,8 milhões para o setor, ante US$ 18 milhões no mesmo período de 2025, alta de 503%. Foram 172 operações aprovadas.
Para Suelen, o avanço do crédito amplia o conjunto de fatores que empresas brasileiras precisam considerar ao comparar projetos industriais nos dois países.
“Durante muito tempo, a discussão sobre produzir no Paraguai ficou concentrada na diferença tributária. Quando entram financiamento de longo prazo e mecanismos de garantia, a análise passa a envolver também como viabilizar o investimento inicial e a expansão da operação”, afirma.
A especialista ressalta que as condições financeiras, embora relevantes, representam apenas uma parte da decisão. Mão de obra, fornecedores, infraestrutura, logística, tributação, câmbio, regras de origem e mercado consumidor podem alterar a viabilidade de cada projeto.
“Não existe uma resposta única sobre onde uma empresa deve produzir. Uma taxa menor pode ser importante, mas não compensa problemas logísticos, falta de fornecedores ou exposição cambial mal dimensionada. A decisão precisa considerar o custo e o risco da operação como um todo”, conclui.
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