Eleitores vão às urnas com expectativa de resultado apertado entre Lula e Flávio em eleição polarizada

Publicado em 04/10/2026 07:50

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Por Eduardo Simões

SÃO PAULO, 4 Out (Reuters) - Marcada por polêmicas envolvendo desde o Judiciário até a padroeira do Brasil, passando por denúncias generalizadas de corrupção e temores de interferência externa, a campanha eleitoral para a Presidência da República chega ao dia do primeiro turno, neste domingo, com a disputa totalmente em aberto entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), em mais um pleito marcado pela polarização.

Os mais de 158,7 milhões de brasileiros aptos a votar começaram a ir às seções eleitorais nesta manhã -- as urnas abriram às 8h e fecham às 17h pelo horário de Brasília -- após meses de embates muitas vezes em nível pessoal de cada lado, em que as propostas para governar o país pelos próximos quatro anos não foram protagonistas.

Tanto Lula quanto Flávio vêm afirmando nos últimos dias que esperam vencer a eleição já no primeiro turno, embora as pesquisas de intenção de voto divulgadas no sábado apontem para uma nova rodada de votação, marcada para 25 de outubro.

Para a eleição acabar neste domingo, é preciso que um dos candidatos conquiste mais de 50% dos votos válidos, quando são desconsiderados os votos brancos e nulos.

"Eu estou convencido que a gente vai ganhar as eleições no domingo. Não há por que ter segundo turno se a gente pode matar a desgraça no primeiro turno e é domingo que a gente vai ter que ganhar as eleições", disse Lula durante evento de campanha no Rio de Janeiro na sexta-feira.

Na mesma linha, Flávio, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro -- que está atualmente em prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado --, também vem mostrando confiança em um triunfo já neste domingo e apelado ao voto útil dos que desaprovam Lula.

"Eu tenho a convicção também que tem tudo pra que a gente ganhe essa eleição já no primeiro turno. Então, ‘vambora’ sair de casa pra votar", disse o senador a apoiadores no sábado durante motocarreata no interior de São Paulo.

A despeito do que afirmam os dois principais candidatos, pesquisas divulgados no sábado, véspera do primeiro turno, mostraram que a eleição não deve ser definida neste domingo.

Levantamentos do Datafolha e da Quaest colocaram Lula e Flávio em empate técnico no primeiro turno nos votos válidos, com vantagem numérica do atual presidente de 3 pontos na primeira e de 1 ponto na segunda. Uma outra pesquisa, do MDA, colocou Lula com 47,8% dos votos válidos contra 42,1% de Flávio.

A campanha também chega ao fim se quem Lula e Flávio tenham se enfrentado diretamente. No debate da TV Bandeirantes, ambos decidiram não ir, deixando os púlpitos vazios com seus nomes para serem criticados por Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD), que estavam presentes. Romeu Zema (Novo) completa a lista dos outros candidatos cujos partidos têm representação no Congresso, mas cujas intenções de voto jamais se aproximaram da dos dois líderes.

Já o debate da TV Globo, que tradicionalmente encerra as campanhas, acabou sendo cancelado após uma série de decisões judiciais e da desistência de última hora de Flávio. Lula havia dito dias antes que não compareceria.

TEMOR DE INTERFERÊNCIA

A eleição também ocorre em meio a renovados temores sobre uma possível interferência estrangeira na eleição presidencial brasileira. A Reuters revelou na última semana que autoridades francesas e alemãs ouviram de membros da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que já estariam acontecendo tentativas de interferência dos Estados Unidos e da Rússia no pleito.

Além disso, na quinta-feira, a embaixada dos EUA no Brasil anunciou a suspensão dos serviços consulares a partir da última sexta-feira, alegando preocupações não especificadas de segurança. Além disso, a embaixada pediu aos seus funcionários que trabalhassem de casa na sexta após uma ameaça. A embaixadora da Austrália também anunciou o fechamento da representação diplomática do país em Brasília citando o alerta norte-americano. 

A medida foi criticada pelo presidente do PT, Edinho Silva, que viu tentativa do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, de influenciar a opinião pública brasileira.

A relação com os EUA e com Trump foi, inclusive, um dos principais marcadores da diferença entre Lula e Flávio. Enquanto o presidente alertou o homólogo norte-americano publicamente a não interferir no Brasil, o senador procurou mostrar proximidade com Trump, inclusive visitando-o na Casa Branca.

"É uma relação tensa porque o Brasil não quer se ver dentro da zona de influência dos EUA. Tradicionalmente a nossa diplomacia é independente. O Lula acredita que, pela boa relação com a China, especialmente a comercial, que manter essa independência é fundamental", disse Leonardo Barreto, cofundador da Think Policy.

"O Flávio tenta fazer dos EUA uma espécie de fiador das eleições. A família Bolsonaro acredita que as eleições não são feitas em condições de liberdade. Desconfiança em relação a urna, meios de comunicação, administração do Judiciário. Buscam no apoio dos americanos uma espécie de pressão para garantir o mínimo de neutralidade das autoridades brasileiras, percebem nos americanos uma espécie de seguro", acrescentou.

BETS, STF E PADROEIRA

Em meio a denúncias de corrupção como as do Banco Master e o escândalo do INSS, que atingiram tanto Flávio quanto o filho mais velho de Lula, além de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a campanha também foi marcada pelo apelo do senador ao seu pai, ao mesmo tempo em que buscava se mostrar mais moderado do que o ex-presidente, enquanto Lula seguiu batendo na tecla dos seus três mandatos na Presidência e lançando mão de medidas populares às vésperas do pleito.

Entre elas, o governo anunciou o reajuste de 15% nos benefícios do Bolsa Família, a edição de uma medida provisória para proibir as casas de apostas online, as chamadas bets, e o anúncio da intenção de distribuir gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) as chamadas canetas emagrecedoras, três medidas aprovadas pelo eleitorado, segundo as pesquisas de opinião.

Mas a polêmica que marcou a reta final da campanha ficou por conta de rumores de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, o que foi negado com veemência pelo senador. Flávio classificou os boatos de "fake news", enquanto Lula disse que, enquanto for presidente, ninguém irá "avacalhar" com Nossa Senhora.

Além do presidente, os eleitores também escolherão neste domingo os governadores dos 26 Estados e do Distrito Federal, além de 54 dos 81 senadores e dos 513 deputados e dos integrantes das Assembleias Legislativa de 26 Estado e da Câmara Distrital do Distrito Federal.

A eleição para o Senado estará sob o foco, em um momento de pressão sobre ministros do STF, que podem sofrer impeachment pelos integrantes da Casa, e em um momento em que estão vagas funções em órgãos reguladores, como o Banco Central, cujos nomes precisam ser aprovados pelo Senado.

(Reportagem de Eduardo Simões; Reportagem adicional de Luciana Magalhães, em São PauloEdição de Pedro Fonseca)

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