Queda do dólar cria descasamento no agro e produtor pode vender safra com câmbio abaixo do usado na compra de insumos

Moeda norte-americana recuou 4,12% nesta segunda-feira, na maior queda diária em mais de oito anos; alívio nos custos pode demorar a chegar ao produtor
Publicado em 06/10/2026 07:19

Logotipo Notícias Agrícolas

A maior queda diária do dólar em mais de oito anos colocou o câmbio novamente no centro das atenções do agronegócio brasileiro. A moeda norte-americana encerrou a segunda-feira (5) cotada a R$ 5,0022, recuo de 4,12%, após o mercado reagir ao resultado do primeiro turno das eleições.

Para o produtor rural, porém, os efeitos de uma moeda norte-americana mais fraca não chegam ao mesmo tempo às duas pontas da atividade. Enquanto a valorização do real pode pressionar a formação dos preços das commodities no mercado doméstico, eventual alívio sobre os custos dolarizados tende a aparecer mais adiante, criando um descasamento entre despesas já realizadas e receitas ainda por serem definidas.

Bruno Capuzzi, pesquisador do Insper Agro Global, destacou ao Notícias Agrícolas que parcela importante dos custos da agricultura brasileira é influenciada pelo dólar, especialmente diante da elevada dependência do país das importações de fertilizantes. Ao mesmo tempo, boa parte da produção agrícola destinada ao mercado externo também tem sua formação de preços relacionada à moeda norte-americana.    

Leia mais:

+ Câmbio foi o primeiro indicador a sentir o reflexo das eleições

Segundo Capuzzi, o risco neste momento está justamente no fato de que parte dos insumos utilizados na atual temporada já foi contratada quando o dólar estava em patamares mais elevados, enquanto ainda existe produção que será comercializada daqui para frente. Assim, produtores podem ter arcado com custos formados por um câmbio mais alto e encontrar uma moeda norte-americana mais fraca no momento de precificar a safra.   

“Esse é o cenário da tempestade perfeita”, afirmou o pesquisador durante entrevista ao Notícias Agrícolas, ao resumir uma situação em que os gastos são realizados com o dólar em alta e a venda ocorre posteriormente com a moeda em patamares menores. Capuzzi pondera que a manutenção de um câmbio mais baixo pode favorecer os custos de produção no futuro, mas avalia que esse benefício deverá aparecer principalmente nas próximas aquisições de insumos, citando especialmente as compras destinadas à safrinha.    

Real mais forte pressiona competitividade

A outra ponta dessa equação apareceu nas avaliações sobre o comportamento dos mercados agrícolas ao longo da segunda-feira. Eduardo Vanin, analista da Agrinvest, destacou que a valorização do real tende a reduzir a competitividade das commodities brasileiras no mercado internacional, ao elevar seus preços em dólar para o comprador externo.

O efeito ganha importância especialmente em mercados fortemente relacionados à paridade de exportação. No milho, por exemplo, o câmbio menos favorável às vendas externas se soma a um cenário no qual o Brasil já enfrenta maior concorrência de outras origens, principalmente Argentina e Estados Unidos, enquanto o programa brasileiro de exportações segue abaixo do registrado no ano passado.

Yeda Monteiro, analista de Inteligência e Estratégia da Biond Agro, também apontou o câmbio como um dos componentes importantes da formação dos preços das commodities. Durante a segunda-feira, enquanto o dólar registrava forte queda, os contratos futuros de milho negociados na B3 operavam no campo negativo, apesar dos ganhos observados naquele momento na Bolsa de Chicago. 

A analista destacou, por outro lado, que o produtor pode aproveitar movimentos de valorização do real para observar oportunidades na fixação de componentes dolarizados dos custos de produção. “É um momento de estratégia também quando a gente olha para os custos”, afirmou Yeda, citando fertilizantes, sementes e outros insumos que podem ser considerados pelo produtor diante das oscilações cambiais.

Alívio nos custos pode vir depois

As avaliações mostram que a queda do dólar não pode ser traduzida simplesmente como positiva ou negativa para o produtor rural. O impacto depende tanto do nível de exposição de cada atividade ao mercado internacional quanto do momento em que compras e vendas foram ou serão realizadas.

Para quem já adquiriu parcela relevante dos insumos da atual temporada com um dólar mais elevado e ainda possui produção sem preço definido, a valorização do real pode atingir primeiro a receita. A eventual vantagem sobre as despesas dependerá das próximas aquisições e também da permanência do câmbio em patamares mais baixos.

Nesse cenário, o movimento exige atenção às duas pontas da margem do produtor: um real mais forte pode pressionar a formação dos preços agrícolas e, ao mesmo tempo, criar oportunidades futuras para a gestão dos custos. A diferença é que esses dois efeitos não necessariamente chegam ao campo no mesmo momento.

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Receba em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Seguir canal

0 comentário