Trigo brasileiro perde ainda mais qualidade em ciclo já marcado por maior dependência das importações

Conab e Deral apontam danos e classificação inferior em regiões produtoras, Cepea já identifica menor oferta de trigo tipo 1 e dificuldades no Mar Negro desafiam cenário externo
Publicado em 06/10/2026 13:15

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A colheita da safra brasileira de trigo avança em meio a perdas de produtividade e, principalmente, de qualidade em diferentes regiões produtoras. Enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta danos irreversíveis em áreas do Rio Grande do Sul e trigo abaixo do padrão esperado em São Paulo, o Departamento de Economia Rural (Deral) relata predominância de classificação de menor qualidade em parte das áreas remanescentes do Paraná.

O cenário ganha importância em um momento no qual o mercado brasileiro já registra menor disponibilidade de trigo de melhor padrão, enquanto a indústria projeta maior dependência das importações para complementar o abastecimento nacional.

Segundo a Conab, 36,4% da área brasileira de trigo havia sido colhida até 2 de outubro. O ritmo supera os 31,0% registrados no mesmo período do ano passado e também a média de 34,6% das últimas cinco safras, mas deixa quase dois terços das lavouras ainda por colher em um cenário de excesso de umidade e novas precipitações previstas para a região Sul.

No Rio Grande do Sul, as primeiras áreas colhidas reforçam o indicativo de redução de produtividade e qualidade. Nas regiões da Campanha e das Missões, tempestades e granizo provocaram danos considerados irreversíveis pela Conab, principalmente em lavouras que estavam nas fases de enchimento de grãos e maturação.

Além dos eventos extremos, a sequência de dias nublados, a elevada umidade e as temperaturas amenas vêm favorecendo doenças de espiga, como giberela e brusone.

No Paraná, segundo maior produtor nacional, a colheita chegou a 70% da área até 5 de outubro, deixando 30% ainda no campo. Entre as lavouras avaliadas pelo Deral, 60% apresentavam boas condições, 34% estavam em situação média e 6% eram classificadas como ruins.

O relatório estadual destaca que as chuvas persistentes têm paralisado ou retardado os trabalhos, especialmente nas áreas que permaneceram por mais tempo expostas à elevada umidade. Também foram registradas produtividades abaixo do esperado e predominância de classificação de menor qualidade em parte das áreas remanescentes.

O risco permanece nas lavouras mais tardias. Segundo o Deral, nas áreas ainda em formação de grãos há pressão de doenças e possibilidade de novas perdas. Das lavouras paranaenses, 63% estavam em maturação, 34% em frutificação e 3% ainda em floração no levantamento de 5 de outubro.    

Em Santa Catarina, a Conab também aponta impactos provocados pela elevada umidade. Nas regiões Oeste e Extremo Oeste, as chuvas frequentes dificultaram aplicações de fungicidas, elevaram o risco fitossanitário e favoreceram ocorrências de acamamento, além de prejudicarem os grãos. Houve ainda registros pontuais de granizo.

Em São Paulo, o quadro relatado pela companhia é mais crítico. Segundo o monitoramento, as fortes chuvas comprometeram as lavouras e praticamente todo o volume já colhido apresenta qualidade abaixo do padrão esperado. As áreas que permanecem no campo aguardam condições mais favoráveis para a entrada das máquinas.

E a ameaça climática continua. Para os próximos dias, a previsão agrometeorológica da Conab indica volumes elevados de precipitação na região Sul, com acumulados que podem alcançar 200 milímetros em áreas do Norte do Rio Grande do Sul, Oeste de Santa Catarina e Centro-Sul do Paraná.

Menor oferta de trigo de qualidade amplia atenção sobre abastecimento

Os problemas registrados nas lavouras começam a aparecer também na composição da oferta. Levantamento divulgado pelo Cepea nesta terça-feira (6) aponta maior disponibilidade de trigo tipos 2 e 3 e de lotes com PH mais baixo no mercado brasileiro. Em contrapartida, a oferta de trigo tipo 1 é menor, cenário que tem levado vendedores detentores de produto de melhor qualidade a elevar os valores pedidos.

A diferença é importante para a indústria porque o volume total produzido não necessariamente representa a quantidade de trigo disponível com as características exigidas para diferentes tipos de moagem.

Esse quadro ocorre em um ciclo no qual a indústria brasileira já projeta maior necessidade de abastecimento externo. Em material divulgado nesta terça-feira, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) aponta que a quebra da produção nacional ampliou a dependência das importações e estima que as compras externas possam alcançar até 9 milhões de toneladas no ciclo atual.

Os dados disponíveis, porém, não permitem afirmar que a deterioração recente das lavouras seja responsável pela projeção de importações da Abitrigo. A maior necessidade de compras externas está relacionada ao quadro mais amplo da safra brasileira.

A qualidade do trigo que ainda será colhido passa, entretanto, a ser uma variável adicional para o abastecimento. Conab e Deral mostram uma parcela relevante da produção ainda exposta às condições adversas, enquanto o Cepea já identifica menor disponibilidade de produto tipo 1 no mercado.

Maior dependência externa encontra mercado internacional sob atenção

A necessidade de importações aumenta enquanto importantes fornecedores internacionais enfrentam seus próprios desafios.

Eduardo Vanin, analista da Agrinvest, destacou em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta segunda-feira (5) que Rússia e Ucrânia possuem trigo disponível, mas enfrentam dificuldades para colocar o cereal no mercado internacional diante dos problemas envolvendo o escoamento pelo Mar Negro.

Segundo o analista, o fluxo russo vinha abaixo do observado no ano anterior justamente durante um período importante do programa de exportações do país. No caso da Ucrânia, a capacidade de embarque também foi afetada pelos conflitos na região.

O cenário não significa necessariamente falta física de trigo no mercado internacional. Vanin ressaltou que parte importante do cereal existe e poderia voltar ao mercado caso as condições de escoamento fossem normalizadas. Por outro lado, a persistência das dificuldades pode restringir a oferta efetivamente disponível aos importadores.

Para o Brasil, portanto, o avanço da colheita nas próximas semanas será importante não apenas para definir o tamanho final da safra, mas também quanto trigo de melhor qualidade estará disponível à indústria nacional em um ciclo de maior dependência do mercado externo.

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