Pesquisa seleciona cultivares de aveia-preta para recuperação de solos na Serra Gaúcha
Pesquisadores da Embrapa e de vinícolas do Rio Grande do Sul, em parceria com agricultores, estão avaliando cultivares de aveia-preta para recuperar os solos da Serra Gaúcha. A seleção de plantas de cobertura visa reduzir a contaminação do solo e protegê-lo da erosão em áreas de encosta.
Na região serrana do Rio Grande do Sul está concentrada a produção vitivinícola do estado, em áreas típicas de encosta, com solos rasos e declividade acentuada que, em determinadas áreas, pode chegar a 30%. “Manter a cobertura vegetal é decisivo para reduzir as perdas de solo e de água provocadas pelo escoamento superficial”, alerta o engenheiro agrônomo da Embrapa Trigo (RS) Marcelo Klein.
Experimentos conduzidos pela Embrapa mostraram a importância da cobertura vegetal para a conservação do solo nessas áreas. Em uma área de declive, sem cobertura vegetal, monitorada durante 12 anos, foi registrada perda de, aproximadamente, 20 centímetros de solo. Outro experimento, na região de Bento Gonçalves, avaliou a taxa de infiltração de água: foi de 140 mm por hora na área com cobertura de solo, enquanto na área sem cobertura a infiltração caiu para 17 mm por hora. “A água não retida vai embora levando solo, fertilizantes e defensivos que vão se acumular nos rios, encosta abaixo”, relata Klein.
Na cobertura do solo sob as videiras, a cultura tradicionalmente utilizada tem sido o azevém. No entanto, o aumento de populações dessa gramínea resistentes aos herbicidas vem dificultando o manejo da espécie, elevando os custos de controle nas áreas de produção. Em busca de alternativas, pesquisadores da Embrapa Uva e Vinho (RS) e da Embrapa Trigo estão avaliando opções de gramíneas com potencial para cobertura do solo em vinhedos, inclusive nas áreas com altas concentrações de cobre decorrentes do uso de fungicidas cúpricos (à base do metal).
Acúmulo de cobre no solo
Assim como a maioria dos cultivos conduzidos sob o clima subtropical úmido no Sul do Brasil, a viticultura enfrenta elevada pressão de doenças fúngicas, exigindo o uso frequente de fungicidas para prevenção e controle. Entre os produtos tradicionalmente empregados estão os formulados à base de cobre, como a calda bordalesa, amplamente utilizada no manejo fitossanitário da videira, sobretudo em sistemas de produção orgânica.
Segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho George Wellington de Melo, o cobre é um micronutriente essencial ao desenvolvimento vegetal. Mas produtos à base do metal, aplicados de forma continuada ao longo dos anos, podem levar ao acúmulo de cobre no solo dos vinhedos, afetar o sistema radicular das plantas, reduzir a absorção de nutrientes e comprometer processos fisiológicos como germinação, crescimento e fotossíntese. “ Apesar da tolerância a esse metal, a videira pode sofrer inibição de fotossíntese e desequilíbrios nutricionais, que prejudicam o crescimento e a produção”, esclarece.
Cobertura de aveia-preta como alternativa
Entre as alternativas identificadas pela pesquisa, a aveia-preta tem demonstrado potencial de uso em vinhedos, sobretudo para substituir o azevém. “O custo da semente não é alto e o manejo é fácil, garantindo bom volume de matéria verde para cobrir o solo durante os períodos mais chuvosos do ano”, explica Jane Machado, pesquisadora da Embrapa Trigo.
Segundo ela, o desafio da pesquisa é selecionar genótipos (formações genéticas únicas da planta) de aveia-preta que sejam mais tolerantes às altas concentrações de cobre no solo. Tal tolerância é uma característica relevante porque o excesso do elemento pode limitar o desenvolvimento das plantas de cobertura e reduzir a eficiência do sistema. “Já identificamos algumas cultivares de aveia-preta que podem ser utilizadas para proteger o solo sob as videiras, mas seguimos observando novas linhagens que estão sendo selecionadas por meio de melhoramento genético com melhor potencial de crescimento radicular em solo com acúmulo de cobre”. Confira as cultivares identificadas no quadro abaixo.
Materiais promissores
O estudo “Avaliação e seleção de cultivares de aveia-preta para cultivos em solos contaminados por cobre”, conduzido pela Embrapa Uva e Vinho, avaliou diferentes cultivares e seleções de aveia-preta. Identificou sete materiais promissores por sua capacidade de produzir biomassa e tolerar condições de excesso do metal: as cultivares BRS Pampeana, BRS Madrugada e BRS Centauro e as seleções PFA201701, PFA201702, PFA201801 e PFA201803.
Nos resultados foi possível observar que o cobre se acumulou predominantemente no sistema radicular, com translocação reduzida na parte aérea. “Esse comportamento é uma característica importante para a seleção de genótipos tolerantes, uma vez que a retenção do cobre nas raízes pode diminuir sua disponibilidade no sistema solo-planta”, explica Jane Machado.
Melo destaca que a retenção do cobre nas raízes também indica o potencial da aveia-preta como planta de cobertura em vinhedos instalados em solos com teores elevados do metal. “Nessas condições, as plantas podem contribuir para a imobilização do cobre e para a redução de sua mobilidade e, ao mesmo tempo, proteger fisicamente o solo contra os processos erosivos”, esclarece.
O pesquisador lembra que a função pode ser especialmente importante na implantação ou na renovação dos vinhedos, quando a alta disponibilidade de cobre no solo tende a comprometer o desenvolvimento inicial das mudas de videira. “A utilização de aveia-preta como planta de cobertura em sistemas de cultivo de videira, em solos com alto teor de cobre, apresenta potencial para mitigar os efeitos negativos da toxicidade do cobre”, acrescenta.
Ainda de acordo com o pesquisador, além dessa resposta ao cobre, o uso da aveia-preta como cobertura vegetal oferece benefícios já conhecidos para os vinhedos, como proteção contra a erosão, aumento da matéria orgânica, melhoria da estrutura do solo, estímulo à atividade biológica e redução da evaporação de água.
Os resultados da pesquisa indicam que genótipos tolerantes de aveia-preta podem integrar estratégias de manejo de solos com alto teor de cobre. A aveia-preta reúne, assim, duas funções potenciais nos sistemas vitícolas: contribuir para a conservação física do solo, pela formação de cobertura vegetal e pelo aumento da infiltração de água, e auxiliar no manejo de áreas com alta disponibilidade de cobre.
Os pesquisadores alertam que estudos complementares são necessários, pois o trabalho não comprovou a descontaminação do solo. Mas o avanço na identificação de cultivares tolerantes ao metal amplia as alternativas à disposição dos produtores e favorece o desenvolvimento de sistemas vitícolas mais conservacionistas e resilientes na Serra Gaúcha.
Validação em propriedades rurais
Além dos experimentos em condições controladas, a Embrapa avalia o desempenho das plantas de cobertura em propriedades vitícolas da Serra Gaúcha. Para validar as alternativas em condições reais de produção, cooperativas da região participaram de ações de avaliação de cultivares de cereais de inverno em vinhedos. As atividades envolveram produtores associados às cooperativas São João, Nova Aliança e Aurora. A iniciativa busca avaliar opções de gramíneas como aveia e trigo que possam cobrir o solo e ampliar a proteção das áreas agrícolas diante de eventos climáticos extremos.
A ação integra a Plataforma Colaborativa Recupera Rural RS, que reúne iniciativas voltadas à recuperação e ao aumento da resiliência dos sistemas produtivos da região diante de eventos climáticos adversos.
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