Após dobrar área no RS, canola tem lavouras em que produtores avaliam se compensa colher
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A canola mais que dobrou sua área cultivada no Rio Grande do Sul em 2026, impulsionada pela busca por alternativas de renda e diversificação das culturas de inverno. Entretanto, com o avanço da colheita, os primeiros resultados mostram diferenças importantes entre as regiões produtoras e colocam à prova as expectativas econômicas que acompanharam a expansão da oleaginosa. Em áreas atingidas por granizo, agricultores avaliam se o rendimento obtido será suficiente para cobrir sequer o custo da operação de colheita.
Segundo a Emater/RS-Ascar, a área plantada alcançou 353.397 hectares nesta temporada, diante de 174.394 hectares em 2025, crescimento de aproximadamente 102,6%. A produtividade média estadual permanece estimada em 1.619 quilos por hectare, projeção mantida no Informativo Conjuntural divulgado na quinta-feira (15).
Apesar da estabilidade da estimativa estadual, os resultados apresentam grande variabilidade regional. Na região de Santa Rosa, onde 35% das áreas haviam sido colhidas, produtores atingidos por granizo avaliam que o rendimento de algumas lavouras pode não ser suficiente para compensar as despesas necessárias à retirada dos grãos do campo.
A situação não significa, necessariamente, que essas propriedades deixarão de realizar a colheita, mas evidencia a gravidade das perdas localizadas. Também é importante distinguir o custo específico da operação de colheita do custo total de implantação e condução da lavoura, que envolve outras despesas acumuladas ao longo do ciclo.
O cenário contrasta com as perspectivas favoráveis que estimularam a expansão da cultura e reforça que o aumento da área plantada não necessariamente se traduz em resultados econômicos positivos para todos os produtores.
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Granizo, umidade e debulha afetam resultados regionais
O Informativo Conjuntural da Emater mostra que a colheita evolui em ritmos diferentes nas principais regiões produtoras do Rio Grande do Sul. Em Santa Rosa, o avanço havia alcançado 35% das lavouras, com danos provocados por granizo comprometendo o potencial produtivo em áreas específicas e levando agricultores a avaliar a viabilidade econômica da operação.
Nas lavouras que ainda apresentam síliquas intactas, a Emater informa que os agricultores pretendem realizar a colheita para mitigar prejuízos e fracionar a palha da cultura, facilitando a implantação do próximo cultivo. A decisão evidencia que, além do rendimento dos grãos, a operação também pode ter implicações para o manejo da propriedade na sequência da safra.
Na região de Ijuí, 16% das áreas haviam sido colhidas. Os trabalhos vêm sendo realizados mesmo com umidade elevada dos grãos, em uma tentativa de limitar perdas por debulha e germinação nas síliquas, estruturas que abrigam as sementes de canola. Essa condição também representa um desafio para a comercialização, uma vez que o produto úmido pode exigir secagem e sofrer descontos conforme as condições de recebimento.
No município de Tenente Portela, uma pequena área teve a colheita concluída, com produtividades entre 1.140 e 1.620 quilos por hectare. Embora os rendimentos tenham ficado abaixo das expectativas iniciais, os produtores avaliaram o resultado positivamente em comparação com o trigo, segundo a Emater.
O contraste mostra que o desempenho econômico de uma cultura de inverno também precisa ser analisado diante das alternativas disponíveis em cada propriedade, embora os dados apresentados não permitam calcular a rentabilidade efetiva dessas lavouras.
Em outras regiões, a colheita está mais avançada. Frederico Westphalen e Passo Fundo haviam alcançado 50% das áreas, enquanto Erechim registrava 35% e Soledade, 20%. As diferenças de ritmo e de rendimento reforçam o caráter heterogêneo da safra, sem permitir, neste momento, uma conclusão sobre a intensidade das perdas no conjunto do Estado.
Expectativas de renda e diversificação impulsionaram expansão
O crescimento da canola no Rio Grande do Sul foi acompanhado por avaliações favoráveis de representantes do setor, que vêm defendendo a oleaginosa como alternativa para ampliar as oportunidades de renda no inverno, diversificar o sistema produtivo e reduzir a dependência dos cereais tradicionais.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas em outubro de 2025, Vantuir Scarantti, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Canola (Abrascanola), relatou produtividades positivas e boas condições de rentabilidade na comercialização da safra daquele ano. O cenário apresentado na ocasião ilustrava o potencial econômico da cultura, que vinha conquistando espaço entre os agricultores gaúchos.
Já em fevereiro de 2025, durante o CropShow, o engenheiro agrônomo e pesquisador Gilberto Tomm destacou ao Notícias Agrícolas os benefícios indiretos da canola para os sistemas de rotação. Na avaliação apresentada por ele, o cultivo pode proporcionar ganhos à propriedade mesmo quando a análise não se limita à receita obtida com a comercialização dos grãos, incluindo a diversificação das culturas de inverno e os efeitos agronômicos sobre o sistema produtivo.
Mais recentemente, em março de 2026, Pedro Lima, engenheiro agrônomo e gerente de marketing da Advanta Seeds, apresentou ao Notícias Agrícolas a expectativa de continuidade da expansão da canola no Brasil, apoiada em avanços no melhoramento genético, demanda pelo produto e possibilidades de composição da renda e do fluxo de caixa do agricultor. Naquele momento, a perspectiva era de romper a marca de 300 mil hectares cultivados, patamar superado pelos números atuais da Emater para o Rio Grande do Sul.
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As avaliações anteriores ajudam a compreender por que a canola ganhou espaço nas decisões de plantio. Entretanto, não representam uma garantia de rentabilidade para todas as áreas da safra 2026, especialmente diante de condições climáticas adversas e diferenças de produtividade entre as lavouras. Também não significam que os benefícios agronômicos da cultura deixem de existir quando uma propriedade enfrenta dificuldades econômicas em determinada temporada.
Preços regionais mostram oportunidades, mas não definem margem
Além dos resultados produtivos, o desempenho econômico da canola depende dos preços recebidos, dos custos acumulados durante o ciclo e das condições de comercialização. No levantamento divulgado em 15 de outubro, a Emater registrou cotação de R$ 141,00 por saca de 60 quilos na região de Ijuí, com referências entre R$ 135,00 e R$ 150,00.
Em Santa Rosa, o preço informado foi de R$ 144,53 por saca, enquanto Bagé e Dom Pedrito apresentaram referência de R$ 143,00. Em relação à semana anterior, o valor de Ijuí subiu de R$ 139,10 para R$ 141,00, ao passo que o de Santa Rosa recuou de R$ 145,94 para R$ 144,53. Em Dom Pedrito, permaneceu em R$ 143,00.
Esses números mostram diferenças entre as regiões, mas não podem ser interpretados diretamente como valores líquidos recebidos por todos os produtores. Descontos por umidade, despesas de secagem, custos operacionais e condições contratuais podem alterar o resultado da comercialização. Da mesma forma, a produtividade média estadual estimada em 1.619 quilos por hectare não permite estabelecer uma margem econômica representativa para o conjunto dos agricultores.
Nas áreas atingidas por granizo, a preocupação relatada pela Emater é ainda mais imediata: avaliar se a quantidade de grãos que poderá ser recuperada justifica o gasto adicional para realizar a colheita.
Conclusão da colheita vai dimensionar impacto das perdas
Apesar das dificuldades localizadas, a Emater manteve a projeção de produtividade média da canola gaúcha em 1.619 quilos por hectare no levantamento de 15 de outubro, mesmo patamar informado em 8 de outubro. A manutenção da estimativa não significa ausência de perdas, mas indica que os problemas identificados até agora não resultaram em uma revisão do rendimento médio projetado para o Estado.
A avaliação poderá mudar conforme a colheita avance e os resultados efetivamente obtidos nas diferentes regiões sejam incorporados aos próximos levantamentos.
A primeira abertura nacional da colheita da canola, realizada em Ijuí no dia 13 de outubro, destacou o crescimento da oleaginosa e seu potencial como alternativa de renda e matéria-prima para a produção de biodiesel. Os dados mais recentes de campo acrescentam outra dimensão a esse cenário: depois da expansão acelerada da área, a atenção se volta para a produtividade efetivamente colhida, as perdas provocadas pelo clima e o resultado econômico nas propriedades.
O desenvolvimento da canola como cultura de inverno permanece associado a oportunidades de diversificação e novos mercados. A safra 2026, entretanto, mostra que a confirmação dos resultados econômicos dependerá de condições produtivas e comerciais que podem variar significativamente entre os agricultores.
Mais do que medir a expansão territorial da oleaginosa, a conclusão da colheita permitirá avaliar até que ponto esse crescimento também se traduziu em resultados satisfatórios no campo.
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