Inmet: Excesso de chuva e umidade elevada dificulta as operações em campo na Região Sul

El Niño intensifica chuvas e já compromete as lavouras de trigo
Publicado em 20/10/2026 16:35

O fenômeno El Niño segue se intensificando no Oceano Pacífico Equatorial. Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 atingiu +2,06 °C no último mês. De acordo com a atualização divulgada pelo CPC em 8 de outubro, a previsão é de que o fenômeno permaneça nas categorias forte a muito forte até o trimestre janeiro-fevereiro-março de 2027. As projeções indicam 83% de probabilidade, que durante o trimestre outubro-novembro-dezembro, o episódio atual supere, em intensidade, os eventos anteriores de El Niño registrados desde 1950.

Na Região Sul, a ocorrência do El Niño geralmente está associada a chuvas acima da média, especialmente durante o inverno e a primavera, além de aumentar a frequência de eventos extremos e o risco de cheias. O episódio iniciou-se em junho, e os seus efeitos já são evidentes nos principais polos tritícolas da região, onde observa-se maior frequências de precipitação e período prolongado de umidade. Em setembro de 2026, as estações meteorológicas do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) localizadas nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, apresentaram volumes de chuva entre 60% e 135% acima da normal climatológica de 1991–2020 (Figura 1). Os maiores desvios em relação à média histórica foram observados em Dois Vizinhos (PR), Santana do Livramento (RS) e Santa Maria (RS), com 135%, 98% e 94% acima da média (Figura 1). Para o trigo, o excesso de umidade representa um fator limitante, sobretudo nas fases de floração, enchimento dos grãos e maturação. Nessas condições, aumentam os riscos de encharcamento do solo, ocorrência de doenças fúngicas, perda de qualidade dos grãos e dificuldades nas operações de manejo e colheita. Os impactos tendem a ser expressivos nos meses de setembro e outubro, período crítico para a cultura na Região Sul. Os levantamentos recentes indicam que esse cenário já está refletindo na safra 2026.

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Figura 1. Precipitação acumulada na Região Sul e comparação entre os totais observados em setembro de 2026 e a normal climatológica de 1991–2020. Fonte: INMET.

De acordo com o primeiro levantamento da safra de grãos 2026/2027, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), a produção brasileira de trigo está estimada em aproximadamente 5,73 milhões de toneladas, o que representa uma redução de 27,2% em relação à safra 2025/2026. Essa retração está associada à diminuição tanto da área cultivada quanto da produtividade (Figura 2). Até 9 de outubro, a colheita havia alcançado 40,3% da área cultivada no País, percentual próximo à média dos últimos cinco anos (38,8%). Entretanto, o ritmo dos trabalhos apresentava diferenças expressivas entre os estados da Região Sul, refletindo as particularidades do calendário agrícola e as condições meteorológicas observadas ao longo da safra. No Paraná, a colheita atingia 70% da área cultivada, superando a média histórica para o período (65,2%). Em contrapartida, no Rio Grande do Sul, os trabalhos ainda estavam em fase inicial, com apenas 1% da área colhida. Essas diferenças evidenciam a influência das condições meteorológicas e dos estádios de desenvolvimento das lavouras sobre o andamento da colheita nos principais estados produtores da Região Sul.

De acordo com o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar, publicado em 15 de outubro, o Rio Grande do Sul cultivou 814.220 hectares, com produtividade média projetada de 2.701 kg/ha. Neste contexto, a colheita alcançava 9% da área cultivada, percentual inferior à média de 15% dos últimos cinco anos para o período. O avanço das operações ocorreram de forma irregular devido às frequentes interrupções causadas pelas chuvas, que têm dificultado o acesso das máquinas às lavouras e comprometido a continuidade dos trabalhos no campo. Nas lavouras em fase de enchimento de grãos, o excesso de precipitação, elevada umidade do ar e baixa disponibilidade de radiação solar têm limitado a formação e o acúmulo de matéria seca nos grãos. Nas lavouras próximas da maturação, foram relatados descoloração da palha e enrugamento dos grãos. As chuvas nessa fase aumentam o risco de perda de qualidade e de redução do peso hectolítrico (PH), importante indicador da qualidade comercial do trigo. Segundo esse informativo, foi relatada maior incidência de giberela, brusone e bacterioses, além de acamamento das plantas e quebra de espigas após temporais com granizo e ventos fortes, no noroeste do estado. As produtividades observadas variam entre as regiões: em Itaqui, ficaram entre 1.200 e 1.500 kg/ha, abaixo das estimativas iniciais; em Frederico Westphalen e Santa Maria, situaram-se em torno de 2.500 kg/ha; e, em Ijuí, ficaram pouco acima de 2.400 kg/ha.

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Figura 2: Produção e andamento da colheita de trigo em 2026 no Brasil (CONAB) e no Rio Grande do Sul (EMATER/RS-Ascar). Fontes: CONAB e Emater/Rs-Ascar.

 

A análise dos dados de produtividade do trigo abaixo da média histórica, considerando as diferentes fases do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS) no período de 1996 a 2025, evidencia diferenças regionais na resposta da cultura às condições climáticas. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, 80% dos anos sob influência do El Niño apresentaram produtividade inferior à média histórica, indicando maior vulnerabilidade das lavouras aos efeitos do excesso de chuva e da elevada umidade, especialmente durante as fases críticas do ciclo da cultura. No Paraná, essa ocorrência foi de 40%, resultado que contrasta com o cenário da safra atual, caracterizado pelo predomínio de lavouras em boas condições e pelo avanço da colheita.

Em anos de La Niña, a frequência de produtividades abaixo da média histórica foi inferior a 20% nos três estados da Região Sul. Esses resultados reforçam a importância da variabilidade climática na produção de trigo e indicam que períodos mais chuvosos, frequentemente associados ao El Niño na região, podem elevar os riscos de perdas de rendimento e de qualidade dos grãos.

Nesse contexto, o monitoramento contínuo das previsões e dos avisos meteorológicos do INMET, aliado ao acompanhamento do desenvolvimento das lavouras, é fundamental para subsidiar as decisões de manejo fitossanitário, orientar o planejamento da colheita e minimizar os impactos adversos sobre a produtividade e a qualidade da produção.

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Figura 3. Frequência histórica de produtividade abaixo da média histórica durante as diferentes fases do El Niño Oscilação Sul (ENOS) nos estados da Região Sul do Brasil, com base em dados estaduais de produtividade de 1996 a 2025.
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