Chuvas avançam pelo Brasil, mas solo ainda precisa de umidade e excesso preocupa o Sul
![]()
Chuvas avançam pelo Brasil, mas solo ainda precisa de umidade e excesso preocupa o Sul
Análise da EarthDaily aponta riscos para o plantio de soja e milho, a qualidade do trigo e a moagem de cana-de-açúcar; El Niño já influencia o padrão de chuvas no país
A volta das chuvas em outubro ainda não significa que todas as regiões produtoras do Brasil tenham recuperado a umidade necessária para o desenvolvimento das lavouras. Enquanto áreas do Centro-Oeste e do Matopiba precisam de novas precipitações para recompor a água no solo após meses de estiagem, estados do Sul enfrentam o problema oposto: o excesso de chuva, que dificulta o plantio e a colheita e aumenta os riscos para a produtividade.
A avaliação é de Fellipe Reis, analista da EarthDaily, que acompanha as condições agrícolas por meio de imagens de satélite e modelos climáticos. Segundo ele, a distribuição irregular das chuvas exige atenção dos produtores, principalmente neste início da safra de verão 2026/27.
“Quando as chuvas começam a voltar, a partir de meados de setembro e agora em outubro, elas têm dificuldade de penetrar no solo. O solo é muito duro devido à seca das semanas anteriores. Então, é preciso um pouco mais de chuva para que a umidade realmente se recupere”, explica.
O analista destaca que o volume acumulado de precipitação, isoladamente, não é suficiente para avaliar as condições das lavouras. Em Mato Grosso, por exemplo, os registros de chuva podem estar próximos da média, mas a umidade do solo continua abaixo do esperado em áreas produtoras, especialmente nas regiões central e leste do estado.
A situação também exige atenção em partes de Goiás, no noroeste de Minas Gerais e no Matopiba, região que reúne áreas produtoras do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Excesso de chuva preocupa produtores do Sul
Na Região Sul, o cenário é diferente. O volume elevado de precipitações nas últimas semanas tem dificultado o andamento das atividades agrícolas, com destaque para o Paraná, onde a previsão indica continuidade das chuvas.
De acordo com Fellipe, o estado acumula volumes expressivos de precipitação, em um cenário que pode comprometer a emergência e o desenvolvimento inicial das lavouras de soja, milho de primeira safra e feijão. O trigo que ainda está no campo também pode sofrer perdas de qualidade.
“Essas chuvas muito intensas vão atrapalhar a emergência e o desenvolvimento vegetativo do milho de primeira safra, da soja. Se ainda tem trigo, pode encharcar o solo e diminuir a qualidade do grão. O feijão também pode ser prejudicado”, afirma.
O excesso de água não afeta apenas as condições do solo. A redução da radiação solar em períodos prolongados de nebulosidade também interfere no desenvolvimento das plantas, que precisam de água e luz em quantidades adequadas. Além disso, a umidade elevada favorece a disseminação de doenças.
Para o trigo, o momento da colheita é um dos principais pontos de atenção. Segundo o analista, se as lavouras já estiverem prontas, antecipar a retirada dos grãos pode ajudar a reduzir os riscos diante da possibilidade de novas chuvas em outubro e novembro.
Já para a soja e o milho, a recomendação é acompanhar as condições locais antes de avançar com o plantio, evitando que o excesso de água prejudique a germinação e o estabelecimento uniforme das lavouras.
El Niño reforça a preocupação com as chuvas no Sul
O padrão observado na Região Sul é compatível com os efeitos esperados do El Niño, fenômeno climático associado ao aquecimento das águas do Pacífico equatorial e que costuma favorecer chuvas acima da média nessa parte do Brasil.
Fellipe observa semelhanças entre o comportamento das precipitações em 2026 e o registrado em anos de El Niño forte, como 2015 e 2023. A comparação histórica, no entanto, não significa que a próxima temporada necessariamente repetirá os mesmos resultados.
“Fica muito claro quando a gente olha para 2015 e 2023. O El Niño já está impactando o Sul do Brasil através das chuvas, principalmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina”, afirma.
Para os próximos meses, o histórico climático oferece diferentes possibilidades. No episódio de 2023/24, as chuvas foram intensas em setembro, outubro e novembro, mas perderam força em dezembro, janeiro e fevereiro, quando os volumes ficaram próximos da média.
Em 2015/16, por outro lado, o período chuvoso se prolongou por mais tempo. Por isso, segundo o analista, ainda é necessário acompanhar a evolução do fenômeno para avaliar os possíveis reflexos sobre o desenvolvimento das lavouras e o calendário da safra.
Mato Grosso ainda precisa recuperar a umidade do solo
Em Mato Grosso, a volta das chuvas trouxe uma perspectiva mais favorável, mas a recuperação da umidade do solo ainda não está consolidada. Após um período prolongado de tempo seco, as primeiras precipitações não foram suficientes para recompor a água disponível em todas as áreas produtoras.
A expectativa é de redução temporária das chuvas nos próximos dias, seguida de uma retomada a partir de 25 e 26 de outubro. Se esse padrão se confirmar, a umidade do solo poderá voltar a subir.
“Daqui para a frente, passadas essas primeiras chuvas, o que vier de chuva deve refletir muito bem na umidade do solo, ao contrário do que observamos nas últimas semanas”, explica Fellipe.
O leste e parte do oeste mato-grossense estão entre as áreas que merecem atenção. No leste, a umidade permanece baixa mesmo após as precipitações recentes. A continuidade das chuvas será determinante para avaliar a resposta das lavouras já semeadas.
O analista ressalta, porém, que ainda existe tempo para a recuperação das condições hídricas. O risco de perdas dependerá da evolução das precipitações nas próximas semanas.
Outro ponto importante para o produtor mato-grossense é o calendário de plantio da soja. Quanto mais cedo a cultura for semeada dentro das condições adequadas, maiores são as possibilidades de antecipar a colheita e realizar o plantio do milho de segunda safra dentro da janela mais favorável, reduzindo a exposição à diminuição das chuvas no fim da estação.
Matopiba precisa de continuidade das precipitações
No Matopiba, as chuvas também começaram a retornar, mas ainda há regiões em que a umidade do solo permanece baixa. O oeste da Bahia aparece entre os pontos de maior preocupação, apesar das precipitações registradas em outubro.
Segundo Fellipe, a situação é semelhante à observada em Mato Grosso: depois de meses de estiagem, é necessário que as chuvas continuem para que a água alcance o solo e favoreça o desenvolvimento das lavouras.
O Tocantins apresenta condições relativamente mais favoráveis em boa parte das áreas produtoras, com umidade próxima da média. No oeste baiano, porém, a recuperação ainda depende da regularidade das precipitações.
“É necessário que as chuvas voltem com antecedência, mas ainda dá tempo. Até meados de novembro e início de dezembro, se as chuvas continuarem em um bom ritmo, a umidade do solo deve se recuperar e permitir um bom desenvolvimento”, avalia.
A preocupação é que a irregularidade das chuvas se prolongue justamente durante a fase de implantação das lavouras. O El Niño costuma favorecer condições mais secas em partes do Norte e do Nordeste, mas outros fatores climáticos também interferem no comportamento das precipitações. Por isso, ainda não é possível afirmar que o fenômeno provocará perdas de produtividade na região.
0 comentário
Temporais avançam pelo Sul e chegam ao Sudeste e Centro-Oeste nesta quinta-feira
Chuva irregular e excesso de água desafiam o plantio da safra 2026/27
Falta de chuva em MT e excesso no Sul: os desafios do clima para a safra
Chuvas avançam pelo Brasil, mas solo ainda precisa de umidade e excesso preocupa o Sul
El Niño pode ser o mais forte dos últimos 40 anos, diz chefe da agência meteorológica da ONU
Alerta de temporais: chuva volta ao Sul e atinge o Amazonas nesta quarta-feira