Excesso de chuvas impacta no andamento da colheita de fim de safra e ciclo 27 entra no radar
Excesso de chuvas impacta no andamento da colheita de fim de safra e ciclo 27 entra no radar
O encerramento do ciclo canavieiro no Brasil e as perspectivas para a próxima temporada estão fortemente condicionados às anomalias climáticas provocadas pelo El Niño. Com chuvas volumosas atingindo os canaviais, a atual safra caminha para um término antecipado, enquanto o início dos trabalhos do próximo ciclo deve sofrer atrasos expressivos. O cenário desenha desafios operacionais e industriais para o setor sucroenergético, mas também abre espaço para a sustentação e alta nos preços do açúcar no mercado externo.
Clima e El Niño encurtam safra atual e adiam próximo ciclo
De acordo com Maurício Muruci, analista da Safras & Mercado, os modelos meteorológicos indicam continuidade das precipitações volumosas sobre as principais regiões produtoras de cana-de-açúcar. O excesso de umidade força o encerramento adiantado das atividades da safra 26/27 já a partir do final de outubro.
"Os mapas climáticos com modelos de chuvas acumuladas apontam que essas chuvas devem seguir intensas não somente no final de outubro e início de novembro, mas ao longo até do final de novembro, todo o mês de dezembro e todo o mês de janeiro, indo até mais ou menos abril e maio", explicou Muruci. Como consequência direta, a safra seguinte (27/28), que costumeiramente começa a ser processada entre março e abril, deverá ter sua moagem atrasada em um a um mês e meio, iniciando de forma mais generalizada apenas a partir de maio.
Mix prioriza o etanol diante do fluxo de caixa e demanda aquecida
Apesar da recuperação das cotações internacionais do açúcar, a consultoria projeta um mix de produção com viés mais alcooleiro no Brasil, estimado em 53% voltado para o etanol e 47% destinado ao açúcar. Entre os fatores que sustentam essa dinâmica estão a elevação da mistura do anidro na gasolina, a competitividade do hidratado nas bombas e a dinâmica financeira das usinas.
Segundo Muruci, as exportações de açúcar das usinas para a temporada já se encontram quase totalmente contratadas e travadas, enquanto o etanol proporciona um giro de caixa substancialmente mais rápido. "O etanol representa um dinamismo maior de caixa para as usinas. O etanol ela fabrica numa semana e já vende na outra, enquanto os processos de exportação de açúcar em média levam de 45 a 50 dias para a internalização de receita", pontuou o analista.
Déficit global e quebras na Ásia sustentam preços do açúcar
No cenário internacional, o impacto do El Niño já vinha sendo projetado pela consultoria desde o início do ano. O fenômeno reduziu expressivamente o regime de chuvas de monções na Ásia, gerando quebras de produção em importantes polos fornecedores globais, como Índia e Tailândia, além de recuos registrados na União Europeia e na China.
Com a estimativa de um déficit global no balanço de oferta e demanda de açúcar de cerca de 6 milhões de toneladas, as cotações na Bolsa de Nova York encontram suporte sólido. Muruci recomenda cautela às usinas no momento de fixar preços para as próximas etapas: "O nosso alerta é: espere para travar preço, para fazer hedge, o máximo que você conseguir. Quanto mais você conseguir jogar para a frente a formação do hedge, preços melhores você vai pegar". A previsão é de que os preços internacionais se sustentem na faixa de 23 a 25 centavos de dólar por libra-peso no início do próximo ano.
Desafios na qualidade da cana e na moagem
Embora o panorama de preços seja atrativo, a indústria terá de enfrentar entraves consideráveis no campo e na recepção de matéria-prima. O excesso hídrico prolongado resulta em colheita de cana com alto teor de água e consequente queda nos índices de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR).
Além da diluição do ATR, a menor insolação cria condições favoráveis ao surgimento de doenças fúngicas e estimula a floração dos canaviais — processo biológico que também drena a concentração de açúcar da planta. Diante desse quadro, as unidades industriais precisarão de rigor técnico e gestão aprimorada para mitigar os impactos da menor qualidade da matéria-prima e das paralisações causadas pelas chuvas.
* Com auxílio de IA
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