Com projeção de importação recorde, Congresso Internacional do Trigo debate o futuro do setor
Com um cenário desafiador para todo o setor do trigo no Brasil, representantes de diferentes elos da cadeia do grão se reúnem ao longo dessa semana para debater o futuro do mercado na 33ª edição do o Congresso Internacional da Indústria do Trigo, que foi iniciado oficialmente na manhã desta quinta-feira (22) com uma cerimônia de abertura que reuniu representantes setoriais e autoridades governamentais para falar sobre o desempenho do setor.
O presidente-executivo da Abitrigo, Rubens Barbosa, destacou que, em consequência da menor disponibilidade interna de trigo, devido às questões climáticas, o Brasil deverá registrar o maior volume de importações dos últimos 30 anos, com compras que podem chegar a 9 milhões de toneladas ou ultrapassar esse volume, aumento necessário para garantir o abastecimento regular dos moinhos e atender à demanda da indústria alimentícia e da população.
“Esse cenário também poderá ser agravado pela qualidade do trigo argentino. Caso não haja uma melhora em relação à safra passada, será necessário ampliar ainda mais as importações para compensar essa condição”, explicou.
Barbosa também alertou para a pressão sobre os custos do setor, decorrente de aumentos indiretos na compra de insumos e embalagens, da elevação de 1,17% na carga tributária incidente sobre o trigo importado e da redução de 10% do crédito presumido. O conjunto de fatores deverá impactar os custos da indústria moageira em 2026 e 2027, com possíveis reflexos nos preços da farinha e de produtos derivados, como pães, massas e biscoitos.
“Esse cenário exigirá elevada capacidade de adaptação e eficiência operacional da indústria moageira nacional. Será necessário rever estratégias e aprimorar a gestão para enfrentar os desafios, preservar a competitividade do setor e contribuir para a segurança alimentar e a previsibilidade do mercado interno”, ressaltou.
O presidente do Conselho Deliberativo da Abitrigo, Daniel Kümmel, por sua vez, destacou o potencial do Brasil para ampliar a produção e apontou a escala produtiva como um dos principais desafios da cadeia.
“Quando falo de trigo, não falo de um setor, mas de uma cadeia que define as regras e está nesse evento”, pontuou e complementou: “Safra, câmbio e regra não se escolhem, se administram”.
Kümmel também ressaltou que o trigo nacional e o importado se complementam no abastecimento do país e que o Brasil reúne condições para ampliar sua produção. “O Brasil tem terra, tecnologia e produtores para crescer”, frisou.
Presente na abertura, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Guilherme Campos Júnior apontou a importância do cereal na alimentação da população brasileira e destacou os desafios que a cadeia produtiva deverá enfrentar, além de reforçar o apoio do governo federal ao setor.
“A queda na área plantada e na produção por conta do clima, assim como as taxas de juros, fará com que o grão enfrente um período de muitos desafios. Contudo, ressaltamos que o MAPA estará sempre ao lado do produtor rural, defendendo as cadeias produtivas nacionais e, principalmente, por meio do Plano Safra, mantendo-se receptivo às demandas e às necessidades de cada um dos setores”, afirmou.
Novo governo, economia e geopolítica em destaque
Também moderada por Rubens Barbosa, a palestra inaugural do evento reuniu o analista de assuntos internacionais da CNN Brasil, Lourival Sant’Anna, e o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, para debater os impactos do cenário político, econômico e geopolítico.
Durante o painel, Lourival Sant’Anna destacou a interdependência como um dos principais temas do cenário geopolítico, com implicações diretas para as cadeias produtivas. Ao abordar as relações internacionais, o analista observou que conexões econômicas antes consideradas vantajosas podem se transformar em fontes de vulnerabilidade, citando como exemplo as relações dos Estados Unidos com a Ucrânia e a Europa.
Sérgio Vale, por sua vez, ao analisar o recorte brasileiro atual, avaliou que será necessário no próximo ano promover um ajuste fiscal que poderá envolver mudanças nas despesas sociais, como previdência, saúde e educação. Entre as possibilidades para o arcabouço fiscal, citou a redução do ritmo de crescimento dos gastos reais de 2,5% para 1,5% ao ano.
A nova ciência do consumo
Moderado pela nutricionista e vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição e Saúde Mental, Vanderli Marchiori, o painel “A nova ciência do consumo” foi marcado pelo encontro entre a diretora de Marketing da Scanntech, Priscila Ariani, o pesquisador em Inovação de Farinhas Funcionais da Grandi Molini Italiani, da Itália, Lorenzo Rancati e médica e fundadora do Ambulatório Clínico de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), Alessandra Rascovski.
Juntos, os profissionais analisaram como o uso de medicamentos análogos de GLP-1 pode influenciar as escolhas alimentares e reduzir a procura por determinadas categorias de produtos, trazendo novos desafios à indústria de alimentos. Para o setor do trigo, compreender essas mudanças no comportamento dos consumidores é importante para identificar tendências e avaliar oportunidades de inovação em produtos derivados do cereal.
Gestão do negócio em foco
O painel seguint, moderado pelo superintendente da Abitrigo, Eduardo Assêncio, reuniu o fundador da Academia CEO, Antonio Maciel Neto, e o consultor em Gestão de Carreira e Desenvolvimento Gerencial, Marcelo Treff, para discutir a importância da inteligência em gestão diante das transformações do ambiente de negócios
Os especialistas abordaram a necessidade de adaptar o planejamento estratégico a um cenário de maior incerteza, incorporar a tecnologia às decisões empresariais e fortalecer a gestão de pessoas. Também destacaram a importância de uma cultura organizacional alinhada aos valores da empresa, do desenvolvimento profissional e da retenção de talentos diante das novas expectativas dos colaboradores.
O Congresso Internacional da Indústria do Trigo segue até a sexta-feira, 23, com uma programação com um painel que irá abordar o processo regulatório e um sobre o mercado nacional e internacional do grão.
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