Após erro nos dados do milho, USDA enfrenta críticas de produtores e analistas dos EUA sobre confiabilidade das estimativas

Associação de produtores cobra mudanças na agência, enquanto analistas questionam metodologia; USDA explica falha e mantém projeção de outubro
Publicado em 25/10/2026 15:27

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O reconhecimento de um erro nos dados de produtividade do milho dos Estados Unidos ampliou os questionamentos de produtores e analistas sobre a confiabilidade das estimativas divulgadas pelo Departamento de Agricultura norte-americano (USDA). Embora a agência tenha corrigido os números de setembro e apresentado esclarecimentos adicionais no sábado (24), a projeção de outubro, que surpreendeu o mercado e pressionou as cotações em Chicago, permanece inalterada.

A principal reação veio da National Corn Growers Association (NCGA), entidade que representa produtores de milho americanos. Em manifestação divulgada na sexta-feira (23), seu presidente, Matt Frostic, criticou a falha reconhecida pelo Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas (NASS), vinculado ao USDA, e cobrou medidas para recuperar a confiança dos agricultores nas informações oficiais.

Frostic afirmou que os relatórios recentes provocaram perdas de bilhões de dólares em valor de mercado para os produtores, em um momento de margens apertadas e custos elevados. A declaração reflete a avaliação da entidade sobre a desvalorização das cotações, mas não constitui uma quantificação independente de prejuízos causados especificamente pelo erro de processamento. A associação também informou que pretende se reunir com o NASS para discutir melhorias nos procedimentos estatísticos.

As críticas ganharam força após o USDA elevar, em 9 de outubro, sua estimativa de produtividade nacional do milho para 181,2 bushels por acre, acima dos 178,5 bushels projetados anteriormente. A revisão ampliou as perspectivas de oferta americana e foi acompanhada por uma forte queda nos contratos futuros negociados em Chicago.

USDA identifica falha e mantém projeção de outubro

Na sexta-feira (23), o NASS informou ter identificado um erro de processamento nas estatísticas de setembro relacionadas ao milho de Kansas e Nebraska. A falha afetou dados de população de plantas e contagem de espigas, além das estimativas de produtividade e produção.

No sábado (24), a agência esclareceu que o problema envolveu a utilização de ponderações incorretas das áreas cultivadas ao combinar observações de produtividade de lavouras irrigadas e não irrigadas nos dois estados.

Com a correção, a produtividade estimada em setembro para Kansas foi reduzida em três bushels por acre, para 119 bushels. Em Nebraska, houve aumento de cinco bushels, para 182 bushels por acre. No conjunto dos Estados Unidos, a projeção passou de 178,5 para 178,8 bushels por acre.

O USDA afirmou ter revisado e validado os dados utilizados no levantamento de outubro, mantendo a produtividade nacional projetada em 181,2 bushels por acre. Também anunciou verificações adicionais antes da publicação dos próximos relatórios, com atenção especial às ponderações de áreas irrigadas e não irrigadas.

Portanto, o erro reconhecido pela agência se refere aos números de setembro e não representa uma revisão da estimativa de outubro. Após a correção, a diferença entre os dois levantamentos nacionais passou a ser de 2,4 bushels por acre.

Analistas questionam procedimentos e discutem revisões

A admissão da falha foi recebida como um avanço por especialistas que vinham questionando os números americanos, mas não encerrou as dúvidas sobre os procedimentos empregados.

Chip Flory, da Farm Journal e apresentador do programa AgriTalk, avaliou em reportagem da Pro Farmer que o reconhecimento do problema foi positivo. Entretanto, cobrou explicações sobre a origem do erro e as medidas necessárias para evitar sua repetição.

Um dos principais questionamentos envolve Nebraska, onde a projeção estadual de produtividade havia passado de 177 para 188 bushels por acre entre os relatórios originalmente divulgados em setembro e outubro. Com a correção anunciada na sexta-feira, a comparação passou a ser entre 182 e 188 bushels.

Analistas também observaram diferenças expressivas na participação das lavouras irrigadas e não irrigadas nos dados examinados entre os dois meses. A mudança alimentou dúvidas sobre a composição das observações utilizadas nas estimativas.

Jim Wiesemeyer, do AgBull, ponderou, em análise repercutida pela Pro Farmer, que o reconhecimento de uma falha de processamento não comprova problemas na coleta das informações em campo. Segundo ele, possíveis deficiências de amostragem, treinamento ou disponibilidade de equipes exigiriam evidências específicas.

Outro contraponto foi apresentado por Seth Meyer, ex-economista-chefe do USDA e diretor do Food and Agricultural Policy Research Institute (FAPRI), da Universidade do Missouri. Em declarações ao AgWeb repercutidas pela Pro Farmer, ele explicou que os levantamentos de outubro passam a incorporar resultados efetivos de colheita, além das observações de campo e das informações dos agricultores. Essa mudança pode provocar revisões de produtividade sem necessariamente indicar uma falha estatística.

Histórico e clima ampliam debate sobre produtividade

A discussão também levou representantes do setor a investigar o histórico das estimativas do USDA. Em estudo publicado em 21 de outubro, antes do reconhecimento oficial do erro, a Kansas Corn Commission analisou as revisões da produtividade americana entre 2000 e 2026.

O levantamento, elaborado por Taylor Williamson, identificou sete anos em que o USDA reduziu uma estimativa mensal e posteriormente elevou a projeção acima do patamar inicial, comportamento observado em aproximadamente 26% do período analisado. Em três casos com sequência semelhante à registrada neste ano, houve nova elevação da produtividade em novembro.

A entidade ressaltou, porém, que o histórico não permite antecipar os resultados do próximo relatório, mostrando apenas que revisões expressivas, embora relativamente incomuns, já ocorreram anteriormente.

As condições climáticas de Nebraska também entraram no debate. Em análise publicada em 21 de outubro, Eric Hunt, da Universidade de Nebraska–Lincoln, questionou a produtividade estadual de 188 bushels por acre diante da seca registrada em parte importante do ciclo. O especialista considerou que uma estimativa entre 179 e 182 bushels seria compatível com um cenário de superestimação de 3% a 5%, diferença que, segundo ele, não é incomum no histórico das previsões de outubro.

A avaliação de Hunt, assim como o estudo de Kansas, antecede a correção anunciada pelo NASS e não comprova que a projeção oficial esteja incorreta.

Para o mercado, a discussão ultrapassa os números de um único estado. As estimativas americanas de produção influenciam diretamente os preços internacionais do milho, especialmente na Bolsa de Chicago, que também é uma referência para a formação das cotações brasileiras.

No Brasil, as movimentações internacionais se somam ao câmbio, à demanda doméstica e às condições de exportação nas decisões de comercialização. Por isso, a confiabilidade dos dados do USDA também interessa ao produtor brasileiro, que acompanha Chicago para avaliar oportunidades de venda e estratégias de proteção de preços.

Com a estimativa de outubro mantida, o mercado seguirá atento aos próximos levantamentos e à evolução da colheita americana. Além das dúvidas sobre o tamanho da safra, o episódio colocou em discussão a capacidade do USDA de demonstrar a consistência de seus procedimentos e preservar a confiança dos participantes do mercado.

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