Açúcar perde força em Nova Iorque com demanda fraca e expectativa de avanço da moagem no Brasil
Os preços internacionais do açúcar voltaram aos níveis de duas semanas atrás após perderem, nesta semana, os ganhos acumulados anteriormente. Segundo Marcelo Di Bonifacio Filho, analista da StoneX, a queda reflete sinais de enfraquecimento da demanda no curto prazo e a possibilidade de uma correção das posições dos fundos especulativos, em um cenário de expectativa de avanço da moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil.
O contrato março de 2027, referência para o mercado de açúcar demerara, encerrou a sessão de sexta-feira a 20,24 centavos de dólar por libra-peso, com recuo de 61 pontos em relação à semana anterior. Na semana precedente, o vencimento havia acumulado valorização de 60 pontos, praticamente anulada pelo movimento recente.
No mercado brasileiro, os preços em reais, considerando o prêmio de polarização, recuaram R$ 110 por tonelada e voltaram à região de R$ 2.300 por tonelada no mercado spot.
“De forma cabalística, o açúcar em Nova York devolveu os ganhos observados na semana anterior praticamente ‘na vírgula’”, destacou o analista.
Moagem no Centro-Sul pode ganhar ritmo
Entre os fatores que ajudam a explicar a pressão sobre as cotações, a StoneX chama a atenção para a melhora das condições climáticas no Centro-Sul, que pode favorecer a retomada do ritmo de moagem após uma primeira quinzena de outubro marcada por chuvas expressivas.
Segundo o levantamento, a precipitação acumulada nos sete dias anteriores à análise foi de apenas 17 milímetros, metade do volume registrado na semana precedente. Entre os dias 17 e 21 de outubro, praticamente não houve chuva, criando condições mais favoráveis para o avanço das operações nas usinas.
A expectativa é de que a segunda metade do mês conte com três dias a mais de moagem em relação à primeira quinzena, contribuindo para acelerar o processamento da cana-de-açúcar. Apesar disso, a safra 2026/27 continua significativamente atrasada.
A previsão de 65 milímetros de chuva entre 23 e 31 de outubro pode limitar parcialmente esse avanço, mas o cenário climático mais seco já reforça a perspectiva de recuperação do ritmo de moagem.
Para o analista, essa possibilidade representa um fator de pressão sobre os preços, sobretudo em um mercado que acompanha de perto a disponibilidade de açúcar brasileiro nos próximos meses.
Demanda por açúcar branco perde força
Outro ponto destacado pela StoneX é a queda dos prêmios do açúcar branco no mercado internacional. Os diferenciais recuaram ao longo da curva futura, com perdas mais acentuadas nos contratos com vencimentos em maio e agosto de 2027.
O movimento indica que a demanda, especialmente no mercado de curto prazo, não tem demonstrado força suficiente para sustentar os preços em patamares mais elevados.
O contrato de dezembro de 2026 do açúcar branco, negociado em Londres, encerrou a semana a US$ 534,80 por tonelada, abaixo do nível de US$ 550 por tonelada observado como referência para a análise. O diferencial entre os contratos de açúcar branco e demerara também recuou.
Na avaliação de Di Bonifacio Filho, a disponibilidade de produto nos fluxos comerciais tem sido suficiente para atender ao consumo até a entrada das novas safras do Hemisfério Norte, reduzindo a pressão compradora no mercado de refinado.
“Isso mostra que, mesmo diante do pessimismo em relação à oferta, da entrada da Índia no mercado importador ou da falta de acesso aos mercados de refino no Oriente Médio, a demanda se manteve confortável com o volume disponível nos fluxos comerciais”, afirmou.
O analista avalia que as exportações do Paquistão podem ter contribuído para abastecer o mercado de açúcar refinado no curto prazo. Ainda assim, a continuidade da queda dos diferenciais reforça a percepção de que a demanda permanece enfraquecida.
China reduz importações e pode ficar menos presente no mercado
No segmento do açúcar bruto, um dos destaques da semana foi a redução das importações chinesas. Em setembro, as compras do país somaram apenas 260 mil toneladas, o menor volume para o mês em oito anos.
De acordo com a análise, os preços atuais e as perspectivas positivas para a safra chinesa podem limitar a participação do país no mercado internacional nos próximos meses.
A expectativa é de que a China permaneça menos ativa nas compras entre outubro e março, período que coincide com o início da safra local.
Esse cenário representa mais um elemento de pressão sobre a demanda internacional, em um momento em que o mercado também acompanha as perspectivas de oferta do Brasil e dos demais produtores globais.
Fundos especulativos também entram no radar
A queda generalizada das cotações ao longo da semana também levanta a possibilidade de uma correção das posições dos fundos especulativos. O movimento ganhou força a partir de quarta-feira (21), embora os dados mais recentes da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC), referentes a 20 de outubro, ainda não tenham captado integralmente a desvalorização.
Segundo Di Bonifacio Filho, a trajetória dos preços sugere que pode ter ocorrido uma redução das posições compradas, ainda que sem uma aceleração expressiva das vendas.
O analista ressalta, porém, que a pressão não deve ser atribuída exclusivamente ao comportamento dos investidores. A demanda e os fundamentos do mercado também precisam ser considerados para explicar a perda de sustentação das cotações.
“Se a oferta parece dar sinais mais pessimistas do que otimistas — pelo menos para os contratos de março e maio —, os impulsos baixistas podem vir da demanda ou do lado especulativo, orientado por ela”, avaliou.
Dólar e petróleo não impediram queda do açúcar
A movimentação dos mercados macroeconômicos também esteve no radar dos investidores, mas não foi suficiente para evitar a desvalorização do açúcar.
O dólar encerrou a sexta-feira (23) próximo de R$ 4,98, após recuar seis centavos durante a tarde. A moeda brasileira também acumulava queda ao longo dos dias anteriores, movimento que pode influenciar a remuneração das exportações de açúcar do Brasil.
Na avaliação da StoneX, a possibilidade de o dólar permanecer abaixo de R$ 5,00 altera as perspectivas para a curva futura do açúcar, uma vez que o câmbio interfere na conversão das cotações internacionais em reais e na competitividade das exportações brasileiras.
Já o petróleo Brent acumulou valorização próxima de 7% na semana, chegando a tocar US$ 117 por barril, em meio à escalada das tensões militares no Golfo Pérsico, que também passaram a envolver a Arábia Saudita.
Apesar da alta do petróleo, o açúcar seguiu em queda, reforçando a avaliação de que os fatores específicos do mercado sucroenergético tiveram maior peso sobre as cotações no período.
Dificuldade para superar 21 cents
Para os próximos meses, a análise mantém uma perspectiva cautelosa para os preços do açúcar. Embora as preocupações com a oferta internacional continuem presentes, os sinais de demanda mais fraca no curto prazo podem limitar o potencial de valorização.
A StoneX avalia que o contrato março de 2027 terá dificuldade para se manter acima de 20 centavos de dólar por libra-peso ou alcançar níveis superiores a 21 centavos.
“Minha avaliação, respaldada por nossa projeção de preços do início de outubro, continua sendo de dificuldade para o H27 se manter acima de 20 cents ou alcançar níveis superiores a 21 cents”, afirmou Di Bonifacio Filho.
O analista pondera, contudo, que a mudança nas perspectivas cambiais exige atenção. A projeção anterior considerava o dólar a R$ 5,10, enquanto agora o mercado discute a possibilidade de uma cotação abaixo de R$ 5,00.
Um real mais valorizado reduz a conversão das receitas de exportação para a moeda brasileira e pode elevar a necessidade de remuneração em dólar para o açúcar destinado ao mercado externo, influenciando a curva futura de preços.
Assim, mesmo com fundamentos de oferta que seguem preocupando o mercado, a combinação de demanda menos aquecida, possível redução das posições especulativas e mudanças no cenário cambial deve continuar determinante para o comportamento das cotações.
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