Açúcar perde força em Nova Iorque com demanda fraca e expectativa de avanço da moagem no Brasil

StoneX aponta demanda enfraquecida no curto prazo, avanço esperado da moagem no Centro-Sul e possível correção das posições especulativas como fatores de pressão sobre as cotações internacionais
Publicado em 26/10/2026 14:53

Os preços internacionais do açúcar voltaram aos níveis de duas semanas atrás após perderem, nesta semana, os ganhos acumulados anteriormente. Segundo Marcelo Di Bonifacio Filho, analista da StoneX, a queda reflete sinais de enfraquecimento da demanda no curto prazo e a possibilidade de uma correção das posições dos fundos especulativos, em um cenário de expectativa de avanço da moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil.

O contrato março de 2027, referência para o mercado de açúcar demerara, encerrou a sessão de sexta-feira a 20,24 centavos de dólar por libra-peso, com recuo de 61 pontos em relação à semana anterior. Na semana precedente, o vencimento havia acumulado valorização de 60 pontos, praticamente anulada pelo movimento recente.

No mercado brasileiro, os preços em reais, considerando o prêmio de polarização, recuaram R$ 110 por tonelada e voltaram à região de R$ 2.300 por tonelada no mercado spot.

“De forma cabalística, o açúcar em Nova York devolveu os ganhos observados na semana anterior praticamente ‘na vírgula’”, destacou o analista.

Moagem no Centro-Sul pode ganhar ritmo

Entre os fatores que ajudam a explicar a pressão sobre as cotações, a StoneX chama a atenção para a melhora das condições climáticas no Centro-Sul, que pode favorecer a retomada do ritmo de moagem após uma primeira quinzena de outubro marcada por chuvas expressivas.

Segundo o levantamento, a precipitação acumulada nos sete dias anteriores à análise foi de apenas 17 milímetros, metade do volume registrado na semana precedente. Entre os dias 17 e 21 de outubro, praticamente não houve chuva, criando condições mais favoráveis para o avanço das operações nas usinas.

A expectativa é de que a segunda metade do mês conte com três dias a mais de moagem em relação à primeira quinzena, contribuindo para acelerar o processamento da cana-de-açúcar. Apesar disso, a safra 2026/27 continua significativamente atrasada.

A previsão de 65 milímetros de chuva entre 23 e 31 de outubro pode limitar parcialmente esse avanço, mas o cenário climático mais seco já reforça a perspectiva de recuperação do ritmo de moagem.

Para o analista, essa possibilidade representa um fator de pressão sobre os preços, sobretudo em um mercado que acompanha de perto a disponibilidade de açúcar brasileiro nos próximos meses.

Demanda por açúcar branco perde força

Outro ponto destacado pela StoneX é a queda dos prêmios do açúcar branco no mercado internacional. Os diferenciais recuaram ao longo da curva futura, com perdas mais acentuadas nos contratos com vencimentos em maio e agosto de 2027.

O movimento indica que a demanda, especialmente no mercado de curto prazo, não tem demonstrado força suficiente para sustentar os preços em patamares mais elevados.

O contrato de dezembro de 2026 do açúcar branco, negociado em Londres, encerrou a semana a US$ 534,80 por tonelada, abaixo do nível de US$ 550 por tonelada observado como referência para a análise. O diferencial entre os contratos de açúcar branco e demerara também recuou.

Na avaliação de Di Bonifacio Filho, a disponibilidade de produto nos fluxos comerciais tem sido suficiente para atender ao consumo até a entrada das novas safras do Hemisfério Norte, reduzindo a pressão compradora no mercado de refinado.

“Isso mostra que, mesmo diante do pessimismo em relação à oferta, da entrada da Índia no mercado importador ou da falta de acesso aos mercados de refino no Oriente Médio, a demanda se manteve confortável com o volume disponível nos fluxos comerciais”, afirmou.

O analista avalia que as exportações do Paquistão podem ter contribuído para abastecer o mercado de açúcar refinado no curto prazo. Ainda assim, a continuidade da queda dos diferenciais reforça a percepção de que a demanda permanece enfraquecida.

China reduz importações e pode ficar menos presente no mercado

No segmento do açúcar bruto, um dos destaques da semana foi a redução das importações chinesas. Em setembro, as compras do país somaram apenas 260 mil toneladas, o menor volume para o mês em oito anos.

De acordo com a análise, os preços atuais e as perspectivas positivas para a safra chinesa podem limitar a participação do país no mercado internacional nos próximos meses.

A expectativa é de que a China permaneça menos ativa nas compras entre outubro e março, período que coincide com o início da safra local.
Esse cenário representa mais um elemento de pressão sobre a demanda internacional, em um momento em que o mercado também acompanha as perspectivas de oferta do Brasil e dos demais produtores globais.

Fundos especulativos também entram no radar

A queda generalizada das cotações ao longo da semana também levanta a possibilidade de uma correção das posições dos fundos especulativos. O movimento ganhou força a partir de quarta-feira (21), embora os dados mais recentes da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC), referentes a 20 de outubro, ainda não tenham captado integralmente a desvalorização.

Segundo Di Bonifacio Filho, a trajetória dos preços sugere que pode ter ocorrido uma redução das posições compradas, ainda que sem uma aceleração expressiva das vendas.

O analista ressalta, porém, que a pressão não deve ser atribuída exclusivamente ao comportamento dos investidores. A demanda e os fundamentos do mercado também precisam ser considerados para explicar a perda de sustentação das cotações.

“Se a oferta parece dar sinais mais pessimistas do que otimistas — pelo menos para os contratos de março e maio —, os impulsos baixistas podem vir da demanda ou do lado especulativo, orientado por ela”, avaliou.

Dólar e petróleo não impediram queda do açúcar

A movimentação dos mercados macroeconômicos também esteve no radar dos investidores, mas não foi suficiente para evitar a desvalorização do açúcar.

O dólar encerrou a sexta-feira (23) próximo de R$ 4,98, após recuar seis centavos durante a tarde. A moeda brasileira também acumulava queda ao longo dos dias anteriores, movimento que pode influenciar a remuneração das exportações de açúcar do Brasil.

Na avaliação da StoneX, a possibilidade de o dólar permanecer abaixo de R$ 5,00 altera as perspectivas para a curva futura do açúcar, uma vez que o câmbio interfere na conversão das cotações internacionais em reais e na competitividade das exportações brasileiras.

Já o petróleo Brent acumulou valorização próxima de 7% na semana, chegando a tocar US$ 117 por barril, em meio à escalada das tensões militares no Golfo Pérsico, que também passaram a envolver a Arábia Saudita.

Apesar da alta do petróleo, o açúcar seguiu em queda, reforçando a avaliação de que os fatores específicos do mercado sucroenergético tiveram maior peso sobre as cotações no período.

Dificuldade para superar 21 cents

Para os próximos meses, a análise mantém uma perspectiva cautelosa para os preços do açúcar. Embora as preocupações com a oferta internacional continuem presentes, os sinais de demanda mais fraca no curto prazo podem limitar o potencial de valorização.

A StoneX avalia que o contrato março de 2027 terá dificuldade para se manter acima de 20 centavos de dólar por libra-peso ou alcançar níveis superiores a 21 centavos.

“Minha avaliação, respaldada por nossa projeção de preços do início de outubro, continua sendo de dificuldade para o H27 se manter acima de 20 cents ou alcançar níveis superiores a 21 cents”, afirmou Di Bonifacio Filho.

O analista pondera, contudo, que a mudança nas perspectivas cambiais exige atenção. A projeção anterior considerava o dólar a R$ 5,10, enquanto agora o mercado discute a possibilidade de uma cotação abaixo de R$ 5,00.

Um real mais valorizado reduz a conversão das receitas de exportação para a moeda brasileira e pode elevar a necessidade de remuneração em dólar para o açúcar destinado ao mercado externo, influenciando a curva futura de preços.

Assim, mesmo com fundamentos de oferta que seguem preocupando o mercado, a combinação de demanda menos aquecida, possível redução das posições especulativas e mudanças no cenário cambial deve continuar determinante para o comportamento das cotações.
 

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