Apesar de volatilidade internacional, oferta e andamento da safra de trigo pesam nos preços internos

Com clima desfavorável prejudicando lavouras no país, estimativas apontam necessidade de importar até 10,4 milhões de toneladas do cereal
Publicado em 27/10/2026 10:27 | Atualizado em 27/10/2026 15:32
Douglas Araújo - Líder Negócio Trigo - CJ International Brasil.
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Apesar de volatilidade internacional, oferta e andamento da safra de trigo pesam nos preços internos

Logotipo Notícias AgrícolasA safra brasileira de trigo enfrenta um de seus momentos mais desafiadores, marcada por fortes perdas de volume e um severo comprometimento da qualidade dos grãos em praticamente todas as regiões produtoras. O cenário decorre dos efeitos climáticos adversos provocados pelo fenômeno El Niño, que atingiu lavouras com chuvas excessivas durante o período de colheita. Diante desse quadro, o país caminha para ampliar substancialmente suas compras externas, devendo retornar às primeiras posições no ranking dos maiores importadores mundiais da commodity.

Quebra expressiva e problemas de qualidade no Brasil

As adversidades climáticas afetaram a produção do Centro-Oeste ao Sul do país. De acordo com o analista Douglas Araújo, a atual temporada tem sido difícil para os triticultores nacionais: "É um ano diferente, essa safra é dolorosa para o triticultor brasileiro, porque nós registramos uma quebra de volume e de qualidade praticamente em todas as regiões do Brasil", pontuou.

Em estados como São Paulo, lavouras inteiras sofreram perdas qualitativas expressivas devido ao excesso de chuvas, reduzindo drasticamente o volume de trigo próprio para moagem. No Paraná e no Rio Grande do Sul, além da redução do peso hectolitro (PH) e do falling number, grande parte do volume colhido vem sendo destinada ao mercado de ração animal. Segundo dados divulgados no Congresso da Abitrigo pela consultoria Safras & Mercado, a colheita nacional deve atingir cerca de 5,12 milhões de toneladas, o que representa uma queda de 37% em relação aos 8,12 milhões de toneladas registrados no ano anterior.

Importações devem superar 9 milhões de toneladas

Com a retração da colheita doméstica de trigo de qualidade para panificação, os moinhos precisarão recorrer em larga escala ao mercado externo. As estimativas apresentadas durante o encontro do setor variam entre 9,5 milhões de toneladas (Bunge) e 10,4 milhões de toneladas (Safras & Mercado).

"Independentemente do número que efetivamente vai se confirmar, uma importação acima de 9 milhões de toneladas pelo Brasil é um volume enorme, coloca o Brasil de volta entre os grandes — top 3 — importador mundial de trigo", ressaltou Douglas Araújo. O especialista alertou ainda para as exigências logísticas que isso impõe, já que a indústria precisa planejar embarques com 30 a 45 dias de antecedência, sobretudo em um período de maior demanda por derivados, como nas festas de fim de ano.

Cenário internacional e a oferta argentina

No mercado global, as cotações na Bolsa de Chicago operam sob a influência da geopolítica e da expectativa em torno de acordos que possam normalizar o fluxo comercial no Mar Negro. Por outro lado, a Argentina surge como um importante contraponto de abastecimento para o Brasil. Com chuvas benéficas do El Niño em suas áreas de cultivo, o país vizinho projeta a segunda maior safra de sua história, estimada entre 23 e 24 milhões de toneladas, o que garantirá um fluxo contínuo de oferta ao mercado brasileiro.

Orientações para o produtor e a indústria

Para o triticultor brasileiro, o momento exige cautela redobrada no manejo e na comercialização. Lotes que conseguiram atingir especificações adequadas de moagem contam com valorização e prêmios atrativos, enquanto grãos desclassificados para a alimentação humana precisam de cuidado na armazenagem para evitar proliferação de micotoxinas (DON), sendo absorvidos majoritariamente pela indústria de ração com deságio.

A conjuntura atual reforça a vulnerabilidade da triticultura frente às oscilações climáticas severas e impõe à cadeia produtiva desafios complexos de gestão de risco, controle de qualidade e planejamento logístico para atender à demanda de abastecimento nacional.

* Com auxílio de IA

 

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