Entre a doença e o futuro: greening muda decisões de investimento na citricultura paulista
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Para uma família que trabalha há quatro gerações com a citricultura, decidir não plantar mais laranjeiras em determinadas áreas representa uma mudança importante de perspectiva. Foi esse o caminho relatado por Antônio Carlos Simonetti, da Simonetti Citrus, empresa familiar com origem em Limeira/SP e produção estabelecida na região de Aguaí, também no interior paulista, e no sul de Minas Gerais.
Em entrevista ao Notícias Agrícolas, em outubro de 2023, o produtor descreveu as dificuldades de formar novos pomares em regiões de elevada incidência do greening, doença que ainda não tem cura e que pode comprometer o retorno dos investimentos antes mesmo de as árvores atingirem seu potencial produtivo.
"Estamos plantando pomares novos que, com três anos de idade, já apresentam mais de 50% das plantas contaminadas. É uma situação muito preocupante. Tomei a decisão, três meses atrás, de que não vou mais plantar citros nas áreas que erradicar nessa região. Não é recomendo o plantio nessas áreas, porque você não consegue formar o pomar. O momento agora é de cautela, temos que procurar novas regiões", relatou Simonetti, ao explicar a decisão tomada naquele período.
A experiência ajuda a ilustrar um movimento identificado nos levantamentos mais recentes do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus): a retirada de pomares em regiões de maior pressão do greening e a expansão de novos plantios em localidades consideradas de menor risco.
A decisão de implantar um novo pomar, que representa um investimento de longo prazo, tornou-se mais complexa em algumas das regiões tradicionais da citricultura paulista. Além do custo de implantação e da incerteza sobre os preços que serão recebidos nas próximas safras, os produtores precisam considerar o risco de perder árvores para o greening, também conhecido como Huanglongbing (HLB).
Avanço menor não significa recuperação das árvores
O levantamento anual divulgado pelo Fundecitrus em agosto de 2026 trouxe um sinal positivo para a citricultura brasileira. A incidência do greening no cinturão formado por São Paulo e pelo Triângulo/Sudoeste Mineiro passou de 47,63% em 2025 para 48,08% em 2026, aumento de apenas 0,45 ponto percentual e a menor evolução da doença nos últimos nove anos.
A desaceleração contrasta com o avanço registrado nos anos anteriores. Entre 2024 e 2025, a incidência havia aumentado 3,28 pontos percentuais.
Entretanto, o mesmo levantamento revela uma situação mais preocupante nas árvores que permanecem infectadas. A severidade média da doença, indicador que mede o comprometimento da copa, aumentou de 22,7% para 27,0%. Considerando apenas os pomares em produção, o índice passou de 25,9% para 31,0%. A proporção de árvores com mais da metade da copa comprometida também cresceu, passando de 22,5% para 28,5%.
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O contraste ajuda a entender o tamanho do desafio. A doença está chegando a novas árvores em um ritmo menor, mas aquelas que já foram infectadas continuam sofrendo seus efeitos. Para o produtor, isso significa que a desaceleração do greening não representa, necessariamente, uma recuperação da capacidade produtiva dos pomares.
O pesquisador Renato Bassanezi, do Fundecitrus, explicou ao Notícias Agrícolas que o menor ritmo de expansão da doença não representa uma recuperação das plantas infectadas. A elevação da severidade mantém o risco de perdas produtivas mesmo diante da melhora de alguns indicadores de controle.
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Sem cura disponível, o greening provoca alterações no desenvolvimento das árvores, compromete a formação e a qualidade dos frutos e aumenta a queda prematura das laranjas. O psilídeo Diaphorina citri, inseto responsável pela transmissão da bactéria causadora da doença, permanece como o principal alvo das estratégias preventivas de manejo.
As médias do cinturão, porém, escondem diferenças significativas. Em Limeira, região historicamente ligada à produção de citros, a incidência chegou a 82,10% em 2026. Em Porto Ferreira, foi de 72,43%; em Avaré, de 69,50%; e em Brotas, de 68,10%.
Em contrapartida, o Fundecitrus identificou incidência de 4,63% na região de Votuporanga. Essa desigualdade regional ajuda a explicar por que as perspectivas para implantação e renovação de pomares não são as mesmas em todo o território paulista.
O risco de investir em uma determinada região, portanto, passou a ser tão importante quanto as condições de solo, clima e infraestrutura. A preocupação já aparecia nas orientações de Bassanezi aos produtores:
"É importante fazer uma análise do risco para novos plantios, avaliar bem a região, a área e a localidade em que a propriedade está. É preciso observar como está a vizinhança, o entorno, em relação ao manejo do greening. Se existem muitas propriedades contaminadas que não fazem um bom controle, o risco será bem maior. Por isso, é necessário escolher muito bem a região", explicou o pesquisador.
Produzir mais exige enfrentar custos e preços
A perda de produtividade provocada pelo greening representa apenas uma parte do impacto econômico da doença. Para tentar preservar seus pomares, o citricultor também precisa investir em monitoramento, controle do inseto transmissor e outras medidas de manejo. Ao mesmo tempo, pode ter de eliminar árvores que ainda não proporcionaram retorno suficiente para compensar os recursos aplicados em sua formação.
Essa combinação torna a rentabilidade especialmente dependente da produtividade das plantas que permanecem no campo. E a conta fica ainda mais difícil quando os preços recebidos pelas laranjas não acompanham os custos da atividade.
Em estudo publicado em maio de 2026, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) mostrou que, em um modelo de produção de sequeiro no centro-sul paulista, o custo total por hectare aumentou de R$ 42,7 mil na safra 2025/26 para R$ 46,8 mil em 2026/27, elevação de aproximadamente 9,6%.
O resultado reflete um modelo específico de propriedade e não pode ser interpretado como custo médio de todos os citricultores paulistas. Ainda assim, evidencia a pressão sobre a atividade em um período no qual o setor também enfrenta preços mais baixos.
Na semana de 19 a 23 de outubro de 2026, a laranja pera destinada à indústria, posta na indústria, foi negociada no mercado spot paulista, em média, a R$ 27,59 por caixa de 40,8 quilos, segundo o Cepea. O valor representa queda de 11,40% em relação à média de R$ 31,14 registrada entre 31 de agosto e 4 de setembro.
O centro de pesquisas aponta que a indústria tem priorizado contratos existentes e limitado compras no mercado spot, diante de fatores como o rendimento industrial das frutas e os estoques de suco.
A situação retoma dificuldades relatadas por Simonetti ao Notícias Agrícolas em novembro de 2025. Na ocasião, o produtor descreveu a perda de frutos, problemas de qualidade e preocupações com as exigências e condições de comercialização impostas pelas indústrias.
Para o engenheiro agrônomo e consultor em citros Gilberto Tozatti, da GCON, a produtividade é um fator decisivo para a capacidade do produtor de atravessar períodos de preços menos favoráveis.
"Hoje, só é competitivo aquele que tem uma produtividade boa. Aquele que tem baixa produção, com preços baixos como esses, não consegue sobreviver. Com os preços altos do ano passado, sim, mas neste ano não. Existem três coisas importantes: produtividade, gestão do negócio e parcerias. Essa é a lição de casa que fica para o produtor em 2026", avaliou Tozatti, durante um balanço da citricultura em 2025.
É importante distinguir esses fatores. O greening contribui para perdas de produtividade e qualidade, mas os resultados da citricultura também são influenciados pelo clima, por outras doenças, pelas condições dos contratos e pelo comportamento dos mercados nacional e internacional de suco de laranja.
Na safra 2026/27, essa combinação aparece nos próprios números do Fundecitrus. A primeira reestimativa, divulgada em setembro, elevou a previsão de produção para 263,15 milhões de caixas, principalmente devido ao maior peso dos frutos.
Apesar da revisão positiva, a taxa projetada de queda prematura aumentou de 23,7% para 24,1%. O Fundecitrus relacionou esse agravamento à maior severidade do greening, à ocorrência de leprose e cancro cítrico e ao tempo de permanência das frutas nas árvores.
Assim, uma perspectiva melhor para o volume total de produção não elimina as perdas associadas aos problemas sanitários enfrentados nos pomares.
Um novo mapa para a produção de laranjas
Quando o risco de perder árvores se torna elevado demais em determinadas regiões, a decisão sobre um novo plantio deixa de envolver apenas quanto investir. Passa a envolver também onde investir.
É nesse ponto que a experiência relatada por Tony Simonetti encontra respaldo em um movimento mais amplo registrado pelo Fundecitrus: a concentração da erradicação nas regiões mais afetadas pelo greening e a implantação de novos pomares em áreas de menor risco.
Segundo o levantamento da instituição, no período 2025/26 foram registrados 12.504 hectares de erradicação e 17.821 hectares de novos plantios no cinturão citrícola.
As regiões mais afetadas pelo greening concentraram 74% da área erradicada, enquanto 45% dos novos plantios ocorreram em regiões classificadas como de menor risco. Esses dados, porém, não significam que a citricultura esteja deixando São Paulo. Parte da renovação e dos investimentos ocorre dentro do próprio estado, em áreas com condições sanitárias mais favoráveis.
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Guilherme Rodrigues, gestor da Pesquisa de Estimativa de Safra do Fundecitrus, destacou a importância das novas regiões para a continuidade da atividade. Segundo o pesquisador, aproximadamente metade das mudas produzidas em São Paulo estava sendo destinada a áreas de expansão, incluindo localidades paulistas e regiões de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
A busca por alternativas fora do cinturão tradicional também mobiliza governos estaduais. Carla Nadai, coordenadora de horticultura de Mato Grosso do Sul, relatou o interesse de investidores na citricultura e as ações de defesa sanitária adotadas para receber novos empreendimentos.
Entretanto, plantar em uma região de menor incidência não significa ausência permanente de risco. A presença do inseto transmissor e a possibilidade de entrada da bactéria exigem atenção sanitária contínua. Além disso, as novas fronteiras apresentam desafios próprios de infraestrutura, irrigação, logística e industrialização.
Na Bahia, a citricultora e engenheira agrônoma Mari Anna Batista relatou ao Horti Resenha Podcast que a produção nordestina enfrenta uma dificuldade particular: a distância entre as áreas produtoras e os grandes centros de processamento de frutas.
"Hoje, a citricultura nordestina tem um déficit de mercado industrial. Temos muitos pomares altamente produtivos e tecnificados, mas a nossa industrialização está aquém do que necessitamos. Escoamos a produção para o Sudeste, porém não ficamos tão competitivos, porque são 2.000 quilômetros de frete. Isso acaba retirando uma fatia da margem de lucro que poderia ficar com o citricultor. Precisamos que o Nordeste seja atrativo para receber novas indústrias que processem nossas frutas na própria região", explicou.
A experiência baiana mostra que a expansão territorial oferece alternativas à produção, mas não elimina automaticamente os riscos econômicos do negócio. Em regiões com menor pressão sanitária, a viabilidade também depende da existência de compradores, indústrias e infraestrutura para escoar a safra.
Regras diferentes para realidades diferentes
A dimensão regional do greening também levou o estado de São Paulo a modificar as normas de enfrentamento da doença em 2026. Publicada pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento, a Resolução SAA nº 32, de 25 de maio, estabeleceu critérios diferentes para a erradicação de plantas sintomáticas conforme a incidência da doença nos municípios.
Naqueles com incidência de até 10%, a eliminação obrigatória se aplica a todas as plantas sintomáticas, independentemente da idade. Já nas localidades em que a presença da doença ultrapassa esse patamar, a exigência de erradicação obrigatória passou a abranger as plantas sintomáticas com até três anos de idade.
A alteração reconhece que as diferentes condições sanitárias exigem estratégias de enfrentamento adaptadas à realidade de cada região. O controle do inseto transmissor, a inspeção dos pomares e a atenção às plantas infectadas continuam sendo fundamentais para evitar novas transmissões.
Para os produtores, porém, as medidas também representam decisões econômicas. Retirar uma árvore significa perder parte da capacidade produtiva instalada. Mantê-la doente, por outro lado, pode representar queda de rendimento e risco de disseminação da bactéria para outras plantas.
A dificuldade é ainda maior quando a doença atinge árvores jovens, antes de o investimento na implantação do pomar ter produzido o retorno esperado.
A ciência procura soluções para um problema que não pode esperar
Enquanto o setor enfrenta essas decisões no campo, instituições de pesquisa buscam alternativas mais eficientes e duradouras para o controle do greening.
Em janeiro de 2026, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e o Fundecitrus formalizaram a criação do Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura, o CPA Citros, sediado em Piracicaba (SP).
A iniciativa reúne pesquisadores de diferentes instituições para estudar a interação entre a bactéria, o psilídeo e as plantas, desenvolver novas estratégias de controle e investigar possibilidades de reduzir os danos causados pela doença.
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Em entrevista ao Horti Resenha Podcast, Renato Bassanezi destacou que as pesquisas buscam aperfeiçoar as técnicas de manejo disponíveis e encontrar alternativas de longo prazo para a citricultura.
"Vamos buscar soluções de longo prazo, como plantas e variedades de laranja resistentes à bactéria. Essa seria uma inovação mais sustentável e poderia reduzir a necessidade de aplicação de inseticidas. Mas é uma pesquisa de longo prazo. Vamos tentar obter resultados de curto, médio e longo prazo em todas essas áreas e transferir rapidamente as informações ao citricultor, para que possamos manter a competitividade da nossa citricultura", afirmou o pesquisador.
Bassanezi também destacou que a integração entre instituições pretende acelerar os resultados das pesquisas. A expectativa apresentada pelo pesquisador é de que, nos próximos cinco anos, o setor possa contar com ferramentas melhores do que as disponíveis atualmente para o manejo do greening.
Até que surjam soluções capazes de mudar estruturalmente o enfrentamento da doença, a citricultura continuará dependendo de medidas preventivas, monitoramento, manejo integrado e decisões criteriosas sobre a renovação dos pomares.
O pesquisador ressaltou que o esforço científico não elimina a necessidade de ações imediatas no campo.
"Enquanto não tivermos uma solução mais definitiva, é importante que o citricultor continue inspecionando seus pomares, eliminando as plantas doentes e fazendo o controle preventivo do inseto que transmite a doença. Assim, conseguimos ganhar tempo até que soluções mais sustentáveis sejam desenvolvidas", orientou Bassanezi.
A decisão relatada por Antônio Carlos Simonetti de não voltar a plantar citros em determinadas áreas não significa necessariamente abandonar uma atividade que acompanha sua família há quatro gerações. Representa, porém, o tamanho de uma mudança que já ultrapassa os limites das propriedades mais afetadas pelo greening.
Enquanto a pesquisa busca soluções para a doença e novos pomares começam a ocupar regiões de menor risco, os produtores precisam decidir onde, quanto e em quais condições continuar investindo.
Depois de mais de duas décadas de combate ao greening no Brasil, o desafio da citricultura paulista já não é apenas preservar as árvores que permanecem nos pomares. É encontrar condições para plantar as próximas.
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