B3 acompanha melhor preços do milho no interior do que Chicago em prazos de até dois meses, aponta estudo

Levantamento da Terra Investimentos analisou 694 pregões e mostra que diferenças entre as cotações das bolsas e o mercado físico ainda representam riscos para o produtor
Publicado em 28/10/2026 13:55

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Os contratos futuros de milho negociados na B3 apresentaram maior aderência às variações dos preços do cereal em Sorriso/MT do que os contratos da Bolsa de Chicago em horizontes de até dois meses. É o que aponta um estudo da Terra Investimentos, que também destaca os limites da proteção de preços diante de fatores regionais, como fretes e demanda local.

O levantamento elaborado por Geraldo Isoldi, da Mesa Agro da Terra Investimentos, considerou 694 pregões entre outubro de 2023 e outubro de 2026. A análise comparou o preço do milho disponível em Sorriso com as cotações do primeiro vencimento da B3 e de Chicago, convertidas para reais.

Em um horizonte de 20 pregões, equivalente a aproximadamente um mês, as variações da B3 explicaram 16% das oscilações do preço do milho em Sorriso, contra 8% de Chicago. Em 40 pregões, cerca de dois meses, os percentuais foram de 28% e 17%, respectivamente.

A diferença praticamente desapareceu nos períodos mais longos. Em 60 pregões, aproximadamente três meses, Chicago apresentou capacidade explicativa de 38%, ante 37% da bolsa brasileira.

Os resultados foram obtidos por meio de regressões estatísticas e representam a parcela das variações do preço físico explicada pelas oscilações dos contratos futuros. Portanto, não significam que esses mesmos percentuais correspondam à proteção financeira obtida pelo produtor.

Diferença entre preços pode comprometer resultado do hedge

Embora a B3 tenha apresentado maior aderência ao mercado de Sorriso nos períodos mais curtos, o estudo mostra que a utilização de contratos futuros não elimina todos os riscos envolvidos na comercialização.

Isso acontece porque o hedge permite compensar oscilações da cotação futura, mas não garante que o preço recebido pelo milho no mercado físico acompanhe a bolsa na mesma proporção.

Na B3, os contratos de milho têm como referência de liquidação o Indicador ESALQ/B3, associado à região de Campinas (SP). Já em Sorriso, os preços também respondem às condições de transporte, à demanda regional e ao ritmo de comercialização.

Entre outubro de 2023 e outubro de 2026, o estudo identificou uma base média negativa de R$ 22,08 por saca em relação à referência da B3, com desvio-padrão de R$ 5,21 por saca.

Para demonstrar o impacto dessa diferença, a Terra Investimentos simulou a proteção de 9 mil sacas de milho, volume equivalente a 20 contratos futuros da B3. Considerando uma cotação inicial de R$ 65,55 por saca e a base média negativa de R$ 22,08, o preço esperado para o produtor seria de R$ 43,47 por saca.

Se a base permanecer estável, o resultado da operação mantém esse valor, mesmo diante de altas ou baixas na bolsa. Entretanto, caso a diferença entre os preços aumente para R$ 25,00 negativos, o valor final recua para R$ 40,55 por saca.

No exemplo hipotético, essa mudança representa R$ 2,92 a menos por saca, ou R$ 26.280 nas 9 mil sacas protegidas. A simulação não considera corretagem, emolumentos ou custos financeiros associados às margens de garantia.

Chicago ganha relevância durante a colheita da safrinha

Apesar da maior aderência da B3 nos horizontes mais curtos, o estudo identificou uma relação mais forte entre Chicago e os preços de Sorriso durante a colheita da segunda safra, entre junho e setembro.

Nesse período, a correlação semanal com Chicago chegou a 0,38, contra 0,18 da B3. Segundo a Terra Investimentos, o resultado está relacionado à maior influência da paridade de exportação sobre a formação dos preços do milho mato-grossense nessa época do ano.

Os autores ressaltam, entretanto, que a análise dessa janela compreendeu apenas 51 semanas, o que exige cautela na interpretação dos resultados.

Outro aspecto destacado é o câmbio. Enquanto a B3 negocia contratos de milho em reais, Chicago opera em dólares. Dessa forma, a utilização dos futuros norte-americanos para proteger uma venda em reais também exige atenção às oscilações cambiais.

O levantamento aponta ainda diferenças no tamanho dos contratos, na liquidez dos vencimentos e nas exigências de margem e ajustes diários, fatores que interferem na execução das operações.

Para a Terra Investimentos, a relação entre os mercados varia conforme o prazo de comercialização e o período do ano. O histórico analisado também não garante que os resultados se repitam nas próximas safras.

Assim, o estudo indica que a escolha de uma estratégia de proteção precisa considerar não apenas as cotações das bolsas, mas também as características do mercado regional e a possibilidade de mudanças na base até a venda efetiva do milho.

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