El Niño, fundos especulativos e perdas de safra elevam incertezas no mercado global de açúcar

Especialistas apontam perdas na produção do Centro-Sul do Brasil, dificuldades operacionais nas usinas e redução das perspectivas de oferta na Índia e na Europa.
Publicado em 28/10/2026 16:08

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O mercado internacional de açúcar enfrenta um cenário de forte volatilidade, influenciado pela intensificação dos efeitos do El Niño, pela mudança de posicionamento dos fundos especulativos e pelas revisões nas estimativas de produção em importantes regiões produtoras. Os fatores foram discutidos na terça-feira (27), durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, em São Paulo (SP).

No painel sobre os fundamentos do mercado internacional, representantes de empresas do setor também destacaram os desafios enfrentados pelas usinas do Centro-Sul brasileiro, especialmente diante do excesso de chuvas, dos atrasos na moagem e das incertezas sobre o início da próxima safra.

El Niño e fundos mudam a dinâmica dos preços

A combinação entre fatores climáticos, questões macroeconômicas e conflitos geopolíticos alterou a dinâmica do mercado. Segundo Jeremy Austin, diretor-geral da Sucden Brasil, os fundos especulativos passaram de uma posição vendida de aproximadamente 100 mil lotes para uma posição comprada de 120 mil lotes, movimento que contribuiu para a reconfiguração das cotações.

“O mercado muda muito, tem o El Niño que está agindo muito, tem parte especulativa que foi comprando, estavam com 100 mil lotes vendidos, agora são 120 mil lotes comprados”, afirmou Austin.

O executivo também chamou a atenção para os efeitos do fenômeno climático sobre a produção brasileira. Segundo ele, o El Niño está impactando o Centro-Sul antes do previsto, enquanto as chuvas dificultam o andamento das operações e tornam o cenário produtivo mais complicado.

Usinas buscam maximizar a produção de açúcar

Além das condições climáticas, a estratégia industrial das usinas influencia as perspectivas para o mercado. Mario de Rezende Barbosa, diretor de estratégia da LDC, avaliou que o comportamento recente das cotações está relacionado a fatores que vão além dos fundamentos específicos do açúcar.

“Virou algo muito mais macro do que o próprio fundamento do açúcar; o açúcar foi comprado em busca de commodity por muitos fatores”, afirmou.

Nesse contexto, a maximização da produção de açúcar desde o início da safra está entre as estratégias consideradas pelo setor. A execução dessa estratégia, porém, depende das condições da matéria-prima e da capacidade operacional das unidades industriais.
Paulo Garcia, CEO da Vital Commodities, demonstrou cautela em relação às expectativas de início da moagem em março. Para ele, antecipar as operações pode ser difícil diante do calendário de manutenção das usinas e da organização dos prestadores de serviços durante a entressafra.

“Eu ouço muito dizer que as usinas vão começar em março; eu acho muito difícil que isso aconteça”, avaliou.

Segundo Garcia, as usinas precisam organizar a entrega de equipamentos e os serviços de manutenção, atividades que normalmente avançam durante a entressafra. Esse planejamento pode limitar a capacidade de antecipar o início das operações, mesmo diante da necessidade de aproveitar a cana disponível no campo.
Índia e Europa ampliam as incertezas sobre a oferta

O cenário internacional também preocupa os participantes do painel. Índia e Europa registraram revisões para baixo nas estimativas de produção, segundo os pontos discutidos durante o encontro.

A redução das perspectivas de oferta, somada à lentidão dos embarques indianos e à diminuição da área plantada na Europa, pode restringir os volumes disponíveis para exportação e alterar o equilíbrio do mercado global.

Com a combinação de riscos climáticos no Brasil, mudanças nas posições dos fundos e incertezas sobre a produção em outros países, o mercado de açúcar segue sujeito a oscilações. A evolução das condições climáticas e o desempenho das safras nas principais regiões produtoras serão determinantes para avaliar os próximos movimentos dos preços.
 

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