Produção global de cacau deve recuar 9,6% em 2026/27
O mercado global de cacau deve encerrar a temporada 2025/26 com superávit de 494 mil toneladas, resultado que consolida a maior recomposição da oferta desde 2020/21. Para 2026/27, entretanto, a StoneX projeta uma mudança de direção, com déficit de 64 mil toneladas e interrupção da recuperação dos estoques globais.
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Na estimativa para o próximo ciclo, a produção mundial deve recuar 9,6%, para aproximadamente 4,74 milhões de toneladas. O cenário incorpora os efeitos de um El Niño muito forte, que já se manifestam de maneira desigual entre as principais origens produtoras, com chuvas abaixo da média na Costa do Marfim, seca intensa na Indonésia e excesso de umidade no Equador.
“O superávit de 2025/26 trouxe uma recomposição importante da oferta global, apoiada pelo desempenho da Costa do Marfim, pelas exportações recordes do Equador e por uma das melhores safras brasileiras dos últimos anos. Para 2026/27, porém, o quadro muda, com redução da produção em origens relevantes e uma margem de segurança menor para o mercado”, afirma Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil.
Costa do Marfim e Gana enfrentam queda na produção
Maior produtor mundial, a Costa do Marfim encerrou 2025/26 com aproximadamente 2,05 milhões de toneladas de cacau. Para 2026/27, a projeção foi reduzida para 1,75 milhão de toneladas, queda de 14,6% em relação ao ciclo anterior. O início lento da colheita, as chuvas abaixo da média e os riscos associados ao El Niño e ao Harmatã sustentam a revisão.
A safra principal deve permanecer abaixo do volume de 2025/26, enquanto a maior incerteza recai sobre a safra intermediária. O pico esperado do El Niño, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, coincide com o período de formação dos frutos que serão colhidos a partir de abril. A projeção para essa etapa do ciclo foi reduzida para 350 mil toneladas.
Produção de Gana deve recuar cerca de 17%
Em Gana, a produção deve recuar de aproximadamente 700 mil toneladas em 2025/26 para 580 mil toneladas em 2026/27, uma retração de cerca de 17%. Embora o país apresente melhor reserva de umidade no solo do que a Costa do Marfim, o El Niño e o Harmatã continuam representando riscos para a safra intermediária.
“O excedente deixado pela safra 2025/26 ajuda a amortecer os efeitos do início mais lento do novo ciclo, mas a evolução climática no Oeste Africano precisará ser acompanhada de perto. Qualquer deterioração adicional pode reduzir rapidamente a margem de segurança e ampliar a sensibilidade do mercado”, explica Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil.
Oferta de cacau recua em outras origens produtoras
No Equador, as exportações recordes elevaram a produção de 2025/26 para cerca de 650 mil toneladas, consolidando o país como o segundo maior produtor mundial. Para 2026/27, contudo, a estimativa foi revisada para 585 mil toneladas, queda de 10%, diante das chuvas muito acima da média, do calor e dos relatos de alagamentos em regiões produtoras.
O excesso de umidade favorece doenças fúngicas e dificulta a secagem e a fermentação das amêndoas. Os impactos sobre a produtividade e a qualidade devem se tornar mais visíveis no primeiro semestre de 2027, justamente quando o mercado conta com a produção equatoriana para compensar a menor disponibilidade no Oeste Africano.
Na Indonésia, a seca é considerada o quadro mais preocupante entre as origens monitoradas. As chuvas de setembro ficaram mais de 70% abaixo da média, enquanto a umidade do solo registrou queda acentuada. Diante dessas condições, a StoneX reduziu a projeção para 195 mil toneladas em 2026/27.
Safra brasileira é projetada em 210 mil toneladas
A safra brasileira de 2025/26 foi uma das melhores dos últimos anos, com avanço de aproximadamente 25% nos recebimentos de amêndoas e produção estimada em 226 mil toneladas. Para 2026/27, a projeção é de 210 mil toneladas.
Entre os fatores de atenção estão a estiagem e as queimadas na região da Transamazônica, no Pará, além da possibilidade de chuvas abaixo da média no sul da Bahia entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Até o momento, contudo, as informações disponíveis ainda não permitem estimar perdas relevantes na produção paraense.
Moagem, demanda e estoques definem o balanço global
A moagem nas regiões acompanhadas alcançou 903 mil toneladas no terceiro trimestre, resultado acima das expectativas e próximo ao nível observado em 2024. O crescimento foi puxado principalmente pela Ásia e pela Costa do Marfim, enquanto a Europa registrou a primeira alta anual desde 2024.
Parte desse avanço, entretanto, está associada à recomposição dos estoques das processadoras e ao aumento do processamento nas próprias origens, sem representar uma recuperação proporcional do consumo final de chocolate. Por isso, a estimativa de demanda global para 2025/26 foi elevada moderadamente, em 30 mil toneladas, para 4,69 milhões de toneladas.
“A moagem mostrou uma reação positiva, mas os indicadores dos derivados ainda apontam para uma demanda seletiva. Uma recuperação mais consistente dependerá sobretudo da melhora da procura por manteiga e líquor de cacau”, avalia Bezzon.
O superávit de 2025/26 deve elevar os estoques globais para aproximadamente 1,83 milhão de toneladas, levando a relação estoque/uso ao maior nível desde 2020/21. A recomposição ocorre após os déficits registrados entre 2021/22 e 2023/24, período que reduziu os estoques às mínimas da série e contribuiu para os preços recordes de 2024.
Para 2026/27, o déficit projetado deve reduzir os estoques para cerca de 1,77 milhão de toneladas e a relação estoque/uso para aproximadamente 37%. Embora o nível ainda seja considerado confortável em comparação às mínimas de 2023/24, cada perda adicional de 100 mil toneladas pode retirar cerca de dois pontos percentuais dessa relação.
“O déficit projetado é menor do que os observados nos ciclos anteriores de aperto, mas o mercado entra em 2026/27 mais exposto às condições climáticas. As chegadas de cacau aos portos da Costa do Marfim e a evolução do El Niño serão determinantes para a direção do balanço global”, conclui Rossetti.
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