El Niño reforça necessidade de investimentos em segurança hídrica e planejamento das cidades
A intensificação do El Niño e a previsão de chuvas distribuídas de forma desigual pelo Brasil reforçam a necessidade de investimentos em segurança hídrica e planejamento de longo prazo nas cidades. No Paraná, a expectativa de precipitações acima da média em parte dos próximos meses aumenta a atenção para eventos extremos, como enxurradas e inundações. Ao mesmo tempo, regiões de outras partes do país podem enfrentar volumes de chuva abaixo do normal, ampliando o risco de escassez de água.
Para o professor Alysson Nunes Diógenes, da Universidade Positivo, o desafio é preparar os sistemas de abastecimento para enfrentar tanto períodos de excesso quanto de falta de chuva. Segundo ele, o planejamento não pode depender exclusivamente das médias históricas de precipitação nem esperar que uma crise se instale para iniciar obras de infraestrutura.
“Não se deve esperar a próxima crise para construir a infraestrutura necessária. É durante os períodos de abundância que se constrói a segurança para a estiagem”, afirma.
Boletim do Painel El Niño, divulgado em outubro por órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em grande parte da Região Norte e em áreas do Nordeste e Centro-Oeste. Já o Sul e parte do Sudeste podem registrar precipitações acima do normal. As temperaturas também devem ficar acima da média em quase todo o país.
## Mais chuva não significa, necessariamente, mais água nos reservatórios
Mesmo em regiões com previsão de chuvas mais frequentes, a precipitação não garante a recuperação dos reservatórios. O resultado depende de fatores como as condições do solo, a evaporação, a vegetação e a quantidade de água que efetivamente chega aos sistemas de abastecimento.
Um exemplo citado pelo professor é o da bacia do Sistema Cantareira, que enfrentou uma grave crise hídrica em 2014. Em 2015, mesmo com precipitação cerca de 5% acima da média histórica, apenas 19% da água da chuva se transformou em vazão de entrada no sistema. Historicamente, essa proporção ficava próxima de 39%.
Parte da água é absorvida pelo solo, utilizada pela vegetação ou perdida por evaporação, sem contribuir diretamente para a recuperação dos reservatórios. O episódio evidencia que a gestão hídrica exige mais do que acompanhar os volumes de chuva: é necessário considerar a capacidade de armazenamento e as condições das bacias hidrográficas.
## Infraestrutura e conservação ambiental
Entre as medidas apontadas por Diógenes estão a ampliação da capacidade de armazenamento, a diversificação das fontes de abastecimento, a integração entre sistemas e a modernização das redes de distribuição para reduzir perdas. A proteção das bacias hidrográficas também é considerada fundamental para preservar a disponibilidade e a qualidade da água.
A dimensão do desafio aparece nas estimativas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que apontam a necessidade de aproximadamente R$ 110 bilhões em investimentos em infraestrutura relacionada à segurança hídrica urbana até 2035.
O planejamento das cidades também precisa considerar a conservação ambiental e o uso do solo. A impermeabilização de áreas urbanas reduz a infiltração da água e aumenta o escoamento superficial, favorecendo alagamentos. Já a ocupação inadequada de áreas próximas a mananciais pode comprometer a qualidade da água e dificultar a preservação das fontes de abastecimento.
Para o professor, a infraestrutura deve ser dimensionada para suportar situações excepcionais, mesmo que parte da capacidade instalada não seja utilizada em anos de chuvas abundantes. A manutenção de reservas, segundo ele, é uma estratégia preventiva diante da maior variabilidade climática.
“Uma reserva de água que permanece sem uso durante um período de abundância não é desperdício; é segurança para o período de escassez”, conclui.
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