Demanda por etanol cresce, mas usinas abastecidas podem limitar recuperação dos preços do milho no início de 2027
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O crescimento da indústria brasileira de etanol de milho deve continuar impulsionando o consumo doméstico do cereal na safra 2026/27, mas essa expansão não significa necessariamente maior necessidade de compras pelas usinas nos próximos meses. Com parte das indústrias já abastecida e produtores mantendo estoques à espera de melhores preços, o mercado pode chegar ao início de 2027 com uma demanda industrial crescente, mas sem a mesma pressão compradora observada em períodos anteriores.
A diferença entre a expansão estrutural do consumo e a necessidade de aquisição de matéria-prima no curto prazo ganhou destaque nas avaliações de especialistas ouvidos pelo Notícias Agrícolas na última semana. As análises apontam para um cenário em que o produtor precisará considerar não apenas o aumento da capacidade de processamento de milho, mas também a posição de abastecimento dos compradores, a concorrência nas exportações e a entrada da nova safra de soja.
No primeiro levantamento da safra brasileira de grãos 2026/27, divulgado em outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou crescimento de 6,6% no consumo interno de milho, impulsionado especialmente pela produção de etanol. A estatal também estimou que os estoques de passagem da temporada 2025/26 deverão alcançar aproximadamente 16 milhões de toneladas em fevereiro de 2027, indicando uma disponibilidade significativa de cereal na transição entre os ciclos.
Entretanto, a ampliação do consumo ao longo do ano comercial não significa que as indústrias precisarão adquirir imediatamente todo o volume adicional. Em entrevista ao Notícias Agrícolas na sexta-feira (30), Chau Hue, Head de Inteligência de Mercados da Stag Securities, avaliou que as usinas de etanol de milho já apresentam cobertura de matéria-prima até aproximadamente março ou início de abril de 2027.
Na interpretação do analista, essa condição pode reduzir a necessidade de novas compras no início do próximo ano, diferentemente do que ocorreu na virada de 2025 para 2026, quando a demanda das usinas ajudou a absorver parte dos estoques retidos pelos produtores. A estimativa apresentada por Hue representa uma avaliação da Stag Securities sobre o mercado e não um levantamento consolidado da posição de todas as indústrias brasileiras.
O especialista também alertou para a possibilidade de os produtores repetirem uma estratégia de comercialização que encontrou condições favoráveis no ciclo anterior, mas que poderá enfrentar um cenário diferente desta vez. Além da maior cobertura industrial, o mercado poderá ter estoques remanescentes de milho e soja quando a colheita da oleaginosa começar a ganhar volume nos primeiros meses de 2027.
Compradores abastecidos e concorrência limitam oportunidades
A menor necessidade imediata de compras também foi destacada por Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, em entrevista ao Bom Dia Agro de sexta-feira. Segundo a especialista, os consumidores domésticos, incluindo as indústrias de proteína animal e etanol, estavam relativamente abastecidos para novembro e início de dezembro, o que reduzia o interesse em novas negociações nos patamares de preços pretendidos pelos vendedores.
A analista explicou que parte dos produtores continua adiando a comercialização à espera de uma recuperação das cotações, enquanto aqueles com maior necessidade de fluxo de caixa acabam participando mais ativamente do mercado. Esse comportamento tem contribuído para manter as negociações lentas, apesar da existência de consumo doméstico para o cereal.
A avaliação da Biond Agro também acrescenta o custo financeiro da estratégia de retenção. Yedda destacou que os produtores precisam considerar despesas de armazenagem, condições logísticas e a necessidade de liberar espaço para a próxima colheita de soja. A decisão de manter os grãos estocados depende, portanto, não apenas da expectativa de valorização, mas também dos custos envolvidos e da disponibilidade de compradores quando a venda se tornar necessária.
A concorrência externa representa outro fator de atenção. Em entrevista ao Notícias Agrícolas na quinta-feira (29), Cristiano Palavro, diretor da Pátria Agronegócios, avaliou que o milho brasileiro vinha enfrentando dificuldades para conquistar compradores internacionais, apesar de períodos de melhora na competitividade associados à valorização do dólar.
Segundo o analista, os compromissos de exportação estavam próximos de 27 milhões de toneladas, abaixo do ritmo considerado necessário para alcançar os volumes anteriormente esperados pelo setor. Na avaliação apresentada na entrevista, as exportações brasileiras poderiam terminar o ano comercial entre 37 milhões e 38 milhões de toneladas, limitando a retirada de cereal do mercado doméstico.
Palavro também chamou atenção para a maior disponibilidade de trigo com qualidade comprometida destinado à alimentação animal. O cereal, que perdeu parte de suas características adequadas à moagem em diferentes regiões produtoras, passou a disputar espaço com outros ingredientes utilizados na fabricação de rações, acrescentando concorrência ao milho em determinadas condições comerciais.
No mercado internacional, Hue destacou que os Estados Unidos e a Argentina seguem disputando compradores com o Brasil. Segundo ele, a maior disponibilidade norte-americana e os ajustes nos diferenciais de preços podem limitar a recuperação das cotações em Chicago e dos prêmios brasileiros, mesmo em momentos de valorização cambial.
Próxima safra acrescenta pressão às decisões comerciais
As perspectivas de produção também entram nas contas dos vendedores. A Conab estima que a safra brasileira de milho 2026/27 poderá alcançar 148 milhões de toneladas, aumento de 2,4% em relação ao ciclo anterior. Embora o resultado dependa do desenvolvimento das lavouras, a projeção indica que o crescimento da demanda será acompanhado por uma oferta potencialmente elevada.
Nas avaliações de Yedda Monteiro e Cristiano Palavro, o ritmo de desenvolvimento da soja será determinante para a janela de plantio do milho segunda safra. Caso a colheita da oleaginosa avance dentro do período esperado, uma parcela expressiva do cereal poderá ser semeada em condições favoráveis, elevando o potencial de produção. Por outro lado, atrasos na retirada da soja e condições climáticas adversas poderão alterar essa perspectiva.
Para o produtor que mantém milho disponível, a combinação desses fatores cria um desafio de planejamento. A valorização esperada pela expansão do etanol dependerá não apenas do crescimento do consumo industrial, mas do momento em que as usinas voltarão ao mercado, da capacidade das exportações de absorver excedentes e da evolução da nova safra.
As análises não indicam ausência de demanda por milho no Brasil. O principal risco apontado é a possibilidade de que o aumento previsto para o consumo ao longo da temporada não se traduza, no início de 2027, em uma pressão compradora suficiente para sustentar a recuperação de preços esperada por parte dos produtores.
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