Cevada colhida no RS perde qualidade para malteação e tem produção direcionada à alimentação animal

Emater aponta dificuldades de classificação em Ijuí e Soledade, mesmo em lavouras com boa produtividade; safra estadual deve ser 42% menor que a de 2025
Publicado em 06/11/2026 07:29

Logotipo Notícias Agrícolas

A colheita da cevada no Rio Grande do Sul está confirmando as dificuldades de aproveitamento dos grãos pela indústria de malteação, após os impactos das chuvas e da baixa luminosidade durante o desenvolvimento das lavouras. Segundo o Informativo Conjuntural divulgado pela Emater/RS-Ascar nesta quinta-feira (5), parte da produção já está sendo direcionada à alimentação animal, inclusive em regiões onde os rendimentos agrícolas são considerados satisfatórios.

Entre os principais problemas identificados estão índices de germinação abaixo dos parâmetros exigidos pela indústria cervejeira, baixo peso hectolitro (PH), grãos germinados ainda nas lavouras e elevados teores de micotoxinas. Essas condições restringem o aproveitamento industrial da cevada, evidenciando que uma boa produtividade no campo não garante necessariamente o enquadramento do produto nos padrões comerciais exigidos para a fabricação de malte.

Na região administrativa de Ijuí, onde a colheita alcança 30% da área, a Emater informa que a produção obtida não atende às exigências de qualidade para malteação e está sendo destinada à alimentação animal. A situação representa a concretização de um risco que já vinha sendo identificado desde outubro, quando os primeiros levantamentos apontavam problemas no poder germinativo dos grãos.

Em Soledade, a colheita já alcança 95% da área cultivada, com os 5% restantes em maturação. As produtividades são consideradas satisfatórias, chegando a 3.900 quilos por hectare em Tio Hugo. Entretanto, a qualidade fisiológica dos grãos, especialmente os índices de germinação, também está restringindo sua utilização pela indústria de malte, levando parte da produção ao mercado de rações.

O contraste entre rendimento agrícola e qualidade industrial é um dos principais desafios desta safra. Enquanto as condições de campo permitiram a obtenção de volumes considerados satisfatórios em determinadas propriedades, os problemas associados à umidade durante o ciclo comprometeram características fundamentais para a transformação da cevada em malte.

A mudança de destinação comercial pode representar consequências para a remuneração dos agricultores, uma vez que a cevada destinada à alimentação animal atende a um mercado diferente daquele voltado à indústria cervejeira. Entretanto, o levantamento não apresenta informações consolidadas sobre os descontos recebidos pelos produtores ou os volumes totais de grãos desclassificados.

Produção estadual deve recuar 42%

Além das dificuldades de qualidade, a safra gaúcha de cevada de 2026 deve registrar uma redução expressiva no volume produzido. Conforme a reestimativa da Emater/RS-Ascar, a área cultivada no estado totaliza 21.591 hectares, queda de 32,55% em relação aos 32.010 hectares registrados em 2025 pelo IBGE.

A produtividade média está projetada em 3.114 quilos por hectare, resultando em uma produção estimada de 67.242 toneladas. Caso confirmada, a colheita será 42% inferior às 115.935 toneladas obtidas no ano passado.

A diminuição da produção estadual é explicada principalmente pela retração da área plantada. Segundo a Emater, a perspectiva de atuação do fenômeno El Niño e os riscos associados ao excesso de umidade durante o ciclo desestimularam o cultivo, mesmo diante da existência de contratos com a indústria cervejeira.

As dificuldades de classificação já haviam sido identificadas pelo Notícias Agrícolas em reportagem publicada em 14 de outubro, quando os levantamentos do Deral, no Paraná, e da Emater, no Rio Grande do Sul, apontavam prejuízos à qualidade comercial da cevada. Na ocasião, em Tio Hugo, foram registrados índices de germinação de 88%, abaixo dos 95% exigidos para a malteação, apesar de produtividades de 3.720 quilos por hectare.

Os boletins posteriores passaram a registrar a destinação de parte dos grãos à alimentação animal. A atualização desta semana confirma a continuidade do problema nas regiões de Ijuí e Soledade, enquanto as lavouras dos Campos de Cima da Serra, que concentram aproximadamente metade da área estadual cultivada, ainda aguardam o início da colheita.

Segundo a Emater, a expectativa da indústria cervejeira está agora concentrada nessas lavouras mais tardias, na perspectiva de obter matéria-prima que consiga atender aos padrões necessários para a produção de malte.

A evolução dos trabalhos nessas áreas será determinante para avaliar quanto da cevada gaúcha de 2026 conseguirá efetivamente chegar à indústria cervejeira e quanto precisará encontrar outros destinos comerciais.

Já segue nosso Canal oficial no WhatsApp? Receba em primeira mão as principais notícias do agronegócio
Seguir canal

0 comentário